Janela sobre o zero
Acontece constantemente a qualquer de nós, e nem é preciso que estejamos perante quem seja cidadão especialmente esclarecido, politizado ou coisa assim: fala-se de televisão e logo se ouve que «não há nada para ver», o que significa, bem se sabe, que não há programas que sejam minimamente apelativos e que mereçam o nosso tempo. A esta regra sem sequer escapam muitos telespectadores, ou talvez sobretudo telespectadoras, que apesar de tudo acompanham regularmente uma ou duas telenovelas. A questão, creio, é que olham as novelas mas sabem que elas não merecem a fidelidade: ajudam a passar o tempo, e é tudo ou quase tudo. E repare-se quanto a frase é terrível porque, na verdade, o tempo de cada um de nós é qualquer coisa de precioso e irrecuperável, pelo que deveria ambicionar-se para ele uma sempre excelente aplicação. «Passar o tempo» olhando a dose diária de telenovelas como quem masca uma pastilha elástica que já perdeu o sabor é, já se vê, uma espécie de hemorragia quotidiana em que o que se escoa não é sangue mas a própria existência. Que a TV ajude a que seja assim não parece um título de honra ou sequer de utilidade. Quanto ao que sobra dos tempos de antena consagrados à transmissão de novelas em estreia ou em repetição, de séries em retransmissão ou de eventuais jogos de futebol, não surge nada que estimule o apetite do telespectador. E perdoar-se-á, espero, que não me refira especialmente ao «Superconcurso» que parece ser a grande estrela da RTP para este Verão ou aos supostos méritos do «Rouxinol» que a mesma RTP resolveu impingir-nos uma destas noites. Não que uma coluna semanal que se pretende de crítica à TV não possa ou mesmo não deva fazer avaliações deste ou daquele programa, independentemente do quadro global onde se incluem, mas porque produtos que pelas suas próprias evidências dispensam esse cuidado.
Um pátio interior
Resta a área da Informação que para a grande maioria dos telespectadores se condensa nos telenoticiários. Poder-se-ia supor que aí, sim, a televisão continua a justificar a velha qualificação de «janela para o mundo», mas não é preciso conhecer muito acerca da TV portuguesa para saber que só por ingenuidade extrema se pode acreditar que aquilo que a generalidade dos telenoticiários nos mostram é o mundo largo tal qual existe. Desgraçadamente, é mesmo o contrário que acontece: se a TV ainda é janela, não está aberta para o mundo inteiro mas apenas para uma espécie de pátio interior constantemente patrulhado às ordens de Washington. Quem tiver dúvidas, lembre-se de como nela são tratados Fidel e Chávez, como são demonizados o Irão e a Coreia do Norte. Para o primarismo da guerra ideológica comandada do lado de lá do Atlântico isto pode corresponder a alguma coisa, mas quanto ao conhecimento objectivo da realidade talvez seja apenas um gigantesco zero cujo espaço interior está preenchido pelas listas e as estrelas da bandeira dos Estados Unidos. Neste quadro, chegam dados que apontam para uma significativa queda do prestígio da TV entre as populações, sobretudo quanto aos segmentos mais jovens. É praticamente certo que essa queda se deve ao advento de novas formas de comunicação; mas seria enganoso acreditar que o uso intensivo do computador, o correio electrónico, a navegação na Net, forneçam um conjunto de dados organizados que resultem numa visão coerente, inteligente e total, do mundo e da vida. Para mais, a informação na TV não está limitada aos espaços caracterizadamente informativos, ao contrário do que parece: subjaz na teleficção, está emboscada em séries e filmes que nos contam como é (ao cabo de algumas peripécias, é certo) harmoniosa e feliz a vida das sociedades «atlânticas». Tomemos as novelas portuguesas como exemplo esclarecedor: nelas não há desempregados que se suicidem por desespero, não há trabalhadores forçados à emigração, não há patrões que embolsem descontos dos empregados: há amorinhos e desamores, intrigas por ciúmes, juventudes despreocupadas. É o zero da veracidade, mas é também (des)informação. E sobre ele se debruça todos os dias uma parte do País. Havendo quem goste de o ver assim.
Um pátio interior
Resta a área da Informação que para a grande maioria dos telespectadores se condensa nos telenoticiários. Poder-se-ia supor que aí, sim, a televisão continua a justificar a velha qualificação de «janela para o mundo», mas não é preciso conhecer muito acerca da TV portuguesa para saber que só por ingenuidade extrema se pode acreditar que aquilo que a generalidade dos telenoticiários nos mostram é o mundo largo tal qual existe. Desgraçadamente, é mesmo o contrário que acontece: se a TV ainda é janela, não está aberta para o mundo inteiro mas apenas para uma espécie de pátio interior constantemente patrulhado às ordens de Washington. Quem tiver dúvidas, lembre-se de como nela são tratados Fidel e Chávez, como são demonizados o Irão e a Coreia do Norte. Para o primarismo da guerra ideológica comandada do lado de lá do Atlântico isto pode corresponder a alguma coisa, mas quanto ao conhecimento objectivo da realidade talvez seja apenas um gigantesco zero cujo espaço interior está preenchido pelas listas e as estrelas da bandeira dos Estados Unidos. Neste quadro, chegam dados que apontam para uma significativa queda do prestígio da TV entre as populações, sobretudo quanto aos segmentos mais jovens. É praticamente certo que essa queda se deve ao advento de novas formas de comunicação; mas seria enganoso acreditar que o uso intensivo do computador, o correio electrónico, a navegação na Net, forneçam um conjunto de dados organizados que resultem numa visão coerente, inteligente e total, do mundo e da vida. Para mais, a informação na TV não está limitada aos espaços caracterizadamente informativos, ao contrário do que parece: subjaz na teleficção, está emboscada em séries e filmes que nos contam como é (ao cabo de algumas peripécias, é certo) harmoniosa e feliz a vida das sociedades «atlânticas». Tomemos as novelas portuguesas como exemplo esclarecedor: nelas não há desempregados que se suicidem por desespero, não há trabalhadores forçados à emigração, não há patrões que embolsem descontos dos empregados: há amorinhos e desamores, intrigas por ciúmes, juventudes despreocupadas. É o zero da veracidade, mas é também (des)informação. E sobre ele se debruça todos os dias uma parte do País. Havendo quem goste de o ver assim.