Actor e militante
Homem multifacetado, José Morais e Castro é um actor consagrado que manteve simultaneamente a sua actividade como advogado. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel aos seus ideais comunistas, participando activamente no PCP. Em Novembro do ano passado comemorou 50 anos de carreira. Uma carreira que ainda promete!
A primeira vez que José Morais e Castro assistiu a uma peça de teatro tinha dois anos, levado pelos pais. Quinze anos depois, estreia-se como actor profissional no Teatro Gerifalto. Foi há 50 anos. Esse foi o início de uma brilhante carreira, que está longe de terminar.
José Morais e Castro é um homem multifacetado, que não dedicou a sua vida exclusivamente aos palcos. Além de actor, é advogado e um activo militante comunista. Neste momento, faz parte da lista da CDU para a Câmara Municipal de Lisboa. Mas conciliar duas profissões não é tarefa fácil. «Dormia quatro horas por noite. Quando não tinha televisão ou rádio, ia de manhã ao escritório e voltava no intervalo entre o ensaio da tarde e o da noite. A essa hora ainda tinha muita coisa para fazer e para estudar», conta.
A estreia de Morais e Castro foi no Teatro do Gerifalto, mas passado um ano já estava na televisão, interpretando o «Rei Veado», de Carlos Gozzi, com encenação de Couto Viana e realização de Artur Ramos. «Nesse ano também participei em “A Longa Ceia de Natal”. A partir daí fiz muita televisão. Já tinha trabalhado na rádio, mas, em 1960, a Alice Hogan convidou-me para fazer um protagonista e fui fazendo rádio», recorda. O trabalho radiofónico tinha várias particularidades que lhe agradavam, nomeadamente a camaradagem. Além disso, «encontrava-se pessoas de todos os teatros e discutia-se muitos assuntos». Na época, não faltavam meninas que escreviam a Morais e Castro a pedir fotografias e autógrafos.
Duas profissões
No primeiro ano, Morais e Castro recebia 500 escudos em ensaios e 800 escudos por mês. «Era muito bom para a época», recorda. «Nessa altura não estava a pensar em ser actor. Aos 18 entrei na Faculdade de Direito e tive uma grande desilusão com o funcionamento da escola. Eu gostava de Direito, mas o primeiro ano do curso tinha pouco a ver com a profissão, apenas me interessava-me culturalmente... Entretanto, por razões de namoros, decidi ser actor. Quando disse ao pai, ele fez-me prometer que acabava o curso por causa da precariedade no teatro. Eu só lhe tenho a agradecer isso, porque ter tido as duas profissões deu-me a possibilidade de não ter de me dobrar, de manter a coluna sempre direita», afirma.
Hoje sente-se mais actor que advogado. «Naturalmente», acrescenta. «Mas o trabalho em Direito também foi importante, há coisas de que gostava muito e deu-me uma grande experiência de trabalho», refere. Foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa de 1966 a 1973 e da Philips entre 1969 e 1996, entre muitos outros trabalhos. Tirou partido de muitos elementos que aprendeu ou desenvolveu numa profissão para aplicar na outra: «Há três anos fiz uma peça no Teatro de Almada, “Os Directores”, que agarra os problemas das empresas, a competição, as intrigas... A experiência que eu tinha do que se passava na Philips serviu-me imenso para fazer a peça. Para um actor a experiência de vida é muito importante.»
Crise de 1962
Quando se deu a Crise Académica de 1962, Morais e Castro estava no quarto ano de Direito, a fazer duas cadeiras. «Se chumbasse ia para a tropa, mas alinhei na greve e participava nas assembleias, claro! Houve uma grande unidade e um grande trabalho do Partido. A Crise de 1962 foi também importante na emancipação da mulher. Muitas colegas decidiram não ir aos exames e cumpriram, mesmo indo contra a vontade dos pais.», declara.
A sua primeira visita às instalações da Pide foi feita nessa altura. «Eu estava no Teatro Moderno de Lisboa e apareceu um abaixo-assinado contra a censura. Eu assinei aquilo. Passado pouco tempo, soube que os subscritores estavam a ser chamados à Pide, porque queriam saber quem é que tinha organizado o abaixo-assinado. Eu lá fui e mostrei o meu cartão de estudante. Perguntaram-me porque é que tinha assinado e expliquei que era actor, mostrei a minha carteira profissional. Disse que tinham deixado o abaixo-assinado na caixa do teatro e que eu lá tinha assinado...»
50 anos intensos
Morais e Castro rapidamente aponta os momentos mais marcantes da sua carreira, mas a lista é longa e inclui os espectáculos infantis do Teatro do Gerifalto, todas as peças do Teatro Moderno de Lisbo, o início do Grupo Quatro, a abertura do Teatro Aberto e peças como «O Círculo de Giz Caucasiano», de Bertolt Brecht. «Ultimamente, “Os Directores”, de Daniel Besse, e “O Fazedor de Teatro”, de Thomas Bernard. Os momentos de televisão também, entre eles “As Lições do Tonecas” durante quatro anos. Não é brincadeira», comenta. A pergunta impõem-se: «Mas quando pensas na tua carreira, surge principalmente o teatro?» A resposta surge imediatamente: «Sim! Embora a televisão me tivesse ajudado muito. Cheguei a fazer quatro peças por mês na televisão.»
Clandestino...
mesmo depois da revolução
A ligação de José Morais e Castro ao PCP é longa. A casa dos seus pais servia de apoio à direcção do PCP. Por exemplo, Álvaro Cunhal esteve lá um mês, quando fugiu do Forte de Peniche.
«Aos 12 anos, em casa dos meus pais, o meu tio Norberto chamou-me à parte e disse-me que estava lá um senhor que lutava para mudar o País, que ia conhecê-lo, mas que não podia falar em nada. Era o Abel, pseudónimo claro! Depois conheci o Pires Jorge, o Octávio Pato, o Joaquim Gomes, o Dias Coelho, o Sérgio Vilarigues, o Álvaro Cunhal... Aprendi muito. O Vilarigues dava-me na cabeça, porque os meus pais tinham-lhe dito que eu só lia revistas humorísticas e quadradinhos. Emprestou-me Subterrâneos da Liberdade», afirma.
«O mês em que o Álvaro esteve em muita casa foi fantástico. Tive a honra de lhe pintar o cabelo de louro antes de ele sair do País. Eu estava justamente a fazer a cadeira de Direito Colonial e um dia comentei com ele que os portugueses não eram tão racistas como os ingleses, os franceses ou os holandeses. E ele respondeu-me que isso acontecia por razões sexuais, porque a primeira coisa que os portugueses faziam quando desembarcavam era procurar mulheres. Não tinham medo das doenças, como os povos do Norte da Europa», recorda.
A família tinha de manter as aparências para salvaguardar a segurança da casa: «Tínhamos de parecer ter uma vida de meninos bem para não despertar curiosidades, mas mantínhamos as nossas opiniões. A minha mãe sofria imenso nos cocktails porque tinha de fugir que concordava com uma série de disparates. Às vezes aconteciam coisas cómicas. A Odete Santos tentou recrutar-me várias vezes na faculdade e eu tinha de recusar. Tive de pedir aos camaradas para lhe pedirem para parar, porque, para quem me conhecia, não fazia sentido eu estar sempre a recusar.»
Clandestinidade depois da revolução
A militância de Morais e Castro não se tornou pública com a Revolução do 25 de Abril. «Ainda estive na “clandestinidade” depois», diz a brincar. «O Joaquim Gomes, com quem eu tinha ligação ao Partido, disse-me para não me meter em nada, para não mostrar que era militante, porque era precisa a protecção da casa da minha mãe. No dia 28 de Abril de 1974, ele telefona-me e diz-me para ir buscá-lo e a três camaradas: “Um conheces, os outros não conheces e não olhes muito.” Eu fui buscá-los e o camarada que ia atrás diz-me assim: “Tu quando eras miúdo eras mais educado. Falavas às pessoas.” Era o Octávio Pato, mas de pêra e de bigode. Os outros dois eram o Carlos Costa e o Carlos Brito.»
A 30 de Abril de 1974, Morais e Castro foi contactado pelo Partido «para ver se eu arranjava maneira de ir a Paris buscar o Álvaro. Aí fui eu armado em 007, arranjei avião para Madrid e de lá para Paris. Cheguei muito tarde e falhei o primeiro contacto. O segundo contacto era na sede do PCF e lá disseram-me que o Álvaro já tinha partido, mas que estavam lá outros camaradas. Era o Sérgio Vilarigues e o Pires Jorge. Regressei a Lisboa no 1.º de Maio e fui encontrar no Areeiro a malta do Sindicato dos Trabalhadores dos Espectáculos. À noite, o Álvaro ficou em casa da minha mãe e eu, que tinha sido eleito para a direcção do sindicato, fui-lhe perguntar o que é que tinha de fazer. Resposta dele: “Tu é que sabes. Tens de ver com a tua classe o que querem fazer. Eu não sei.”»
Mas a falta de posição política oficial em Morais e Castro era motivo de admiração nos colegas: «A malta do teatro estranhava não me ver nas iniciativas do Partido.» A sua militância tornou-se pública com a tentativa de golpe contra-revolucionário de 28 de Setembro. «Telefona-me a Henriqueta Maia a dizer o que se estava passar e que tínhamos de ir para Loures. Eu, perante a situação, fui mesmo para as Linhas de Torres. No dia seguinte, sai a notícia de que estiveram presentes vários actores, entre eles eu. O Joaquim Gomes lê aquilo e dá-me uma bronca de todo o tamanho, mas lá me diz: “Pronto, acabou a clandestinidade!” Depois fui logo para a direcção da célula de Artes e Letras.»
Outro momento único da sua vida como militante deu-se no 16.º Congresso do PCP, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, quando Álvaro Cunhal, ausente por motivos de saúde, lhe pede para ler a sua saudação aos delegados. «Foi uma grande honra», sublinha Morais e Castro. « Depois de ter lido, telefonei-lhe a perguntar o que ele tinha achado: “Andaste a puxar os aplausos.” Eu expliquei que não, que as palmas eram para ele e eu afastava-me para o lado. Depois parou e disse-me: “Estão aqui pessoas que assistiram a dizer que não, que não puxaste. Peço desculpa.” Só um homem como ele!»
«Não há política cultural»
Ser actor e militante comunista nem sempre é fácil. Que o diga Morais e Castro. Depois do 16.º Congresso do PCP, quando leu a saudação de Álvaro Cunhal, esteve dois anos sem receber convites para participar em programas de televisão. Mas o actor não tem ilusões: «Quando li a saudação, já estava à espera desta reacção. Actualmente não tenho esse problema. Tenho o respeito das pessoas», refere.
Uma das maiores preocupações de Morais e Castro é a política cultural em Portugal. Ou melhor, a ausência dela: «Não há, não existe!» Esta situação provoca consequências negativas para a cultura e para o País.
«Tenho ideia que isto nunca esteve tão mau como está neste momento. Chega-se a subsidiar pontualmente grupos que ensaiam dois meses e depois fazem três espectáculos. Não há uma política de subsídios devidamente organizada para manter as companhias estáveis. Mesmo nos grupos independentes, muitos não têm elenco base. Não há uma actividade cultural nas escolas nem se leva os estudantes ao teatro», afirma o actor, ao mesmo tempo que salienta que «as pessoas têm interesse pela cultura. Há público para o teatro.» - I.A.B.
José Morais e Castro é um homem multifacetado, que não dedicou a sua vida exclusivamente aos palcos. Além de actor, é advogado e um activo militante comunista. Neste momento, faz parte da lista da CDU para a Câmara Municipal de Lisboa. Mas conciliar duas profissões não é tarefa fácil. «Dormia quatro horas por noite. Quando não tinha televisão ou rádio, ia de manhã ao escritório e voltava no intervalo entre o ensaio da tarde e o da noite. A essa hora ainda tinha muita coisa para fazer e para estudar», conta.
A estreia de Morais e Castro foi no Teatro do Gerifalto, mas passado um ano já estava na televisão, interpretando o «Rei Veado», de Carlos Gozzi, com encenação de Couto Viana e realização de Artur Ramos. «Nesse ano também participei em “A Longa Ceia de Natal”. A partir daí fiz muita televisão. Já tinha trabalhado na rádio, mas, em 1960, a Alice Hogan convidou-me para fazer um protagonista e fui fazendo rádio», recorda. O trabalho radiofónico tinha várias particularidades que lhe agradavam, nomeadamente a camaradagem. Além disso, «encontrava-se pessoas de todos os teatros e discutia-se muitos assuntos». Na época, não faltavam meninas que escreviam a Morais e Castro a pedir fotografias e autógrafos.
Duas profissões
No primeiro ano, Morais e Castro recebia 500 escudos em ensaios e 800 escudos por mês. «Era muito bom para a época», recorda. «Nessa altura não estava a pensar em ser actor. Aos 18 entrei na Faculdade de Direito e tive uma grande desilusão com o funcionamento da escola. Eu gostava de Direito, mas o primeiro ano do curso tinha pouco a ver com a profissão, apenas me interessava-me culturalmente... Entretanto, por razões de namoros, decidi ser actor. Quando disse ao pai, ele fez-me prometer que acabava o curso por causa da precariedade no teatro. Eu só lhe tenho a agradecer isso, porque ter tido as duas profissões deu-me a possibilidade de não ter de me dobrar, de manter a coluna sempre direita», afirma.
Hoje sente-se mais actor que advogado. «Naturalmente», acrescenta. «Mas o trabalho em Direito também foi importante, há coisas de que gostava muito e deu-me uma grande experiência de trabalho», refere. Foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa de 1966 a 1973 e da Philips entre 1969 e 1996, entre muitos outros trabalhos. Tirou partido de muitos elementos que aprendeu ou desenvolveu numa profissão para aplicar na outra: «Há três anos fiz uma peça no Teatro de Almada, “Os Directores”, que agarra os problemas das empresas, a competição, as intrigas... A experiência que eu tinha do que se passava na Philips serviu-me imenso para fazer a peça. Para um actor a experiência de vida é muito importante.»
Crise de 1962
Quando se deu a Crise Académica de 1962, Morais e Castro estava no quarto ano de Direito, a fazer duas cadeiras. «Se chumbasse ia para a tropa, mas alinhei na greve e participava nas assembleias, claro! Houve uma grande unidade e um grande trabalho do Partido. A Crise de 1962 foi também importante na emancipação da mulher. Muitas colegas decidiram não ir aos exames e cumpriram, mesmo indo contra a vontade dos pais.», declara.
A sua primeira visita às instalações da Pide foi feita nessa altura. «Eu estava no Teatro Moderno de Lisboa e apareceu um abaixo-assinado contra a censura. Eu assinei aquilo. Passado pouco tempo, soube que os subscritores estavam a ser chamados à Pide, porque queriam saber quem é que tinha organizado o abaixo-assinado. Eu lá fui e mostrei o meu cartão de estudante. Perguntaram-me porque é que tinha assinado e expliquei que era actor, mostrei a minha carteira profissional. Disse que tinham deixado o abaixo-assinado na caixa do teatro e que eu lá tinha assinado...»
50 anos intensos
Morais e Castro rapidamente aponta os momentos mais marcantes da sua carreira, mas a lista é longa e inclui os espectáculos infantis do Teatro do Gerifalto, todas as peças do Teatro Moderno de Lisbo, o início do Grupo Quatro, a abertura do Teatro Aberto e peças como «O Círculo de Giz Caucasiano», de Bertolt Brecht. «Ultimamente, “Os Directores”, de Daniel Besse, e “O Fazedor de Teatro”, de Thomas Bernard. Os momentos de televisão também, entre eles “As Lições do Tonecas” durante quatro anos. Não é brincadeira», comenta. A pergunta impõem-se: «Mas quando pensas na tua carreira, surge principalmente o teatro?» A resposta surge imediatamente: «Sim! Embora a televisão me tivesse ajudado muito. Cheguei a fazer quatro peças por mês na televisão.»
Clandestino...
mesmo depois da revolução
A ligação de José Morais e Castro ao PCP é longa. A casa dos seus pais servia de apoio à direcção do PCP. Por exemplo, Álvaro Cunhal esteve lá um mês, quando fugiu do Forte de Peniche.
«Aos 12 anos, em casa dos meus pais, o meu tio Norberto chamou-me à parte e disse-me que estava lá um senhor que lutava para mudar o País, que ia conhecê-lo, mas que não podia falar em nada. Era o Abel, pseudónimo claro! Depois conheci o Pires Jorge, o Octávio Pato, o Joaquim Gomes, o Dias Coelho, o Sérgio Vilarigues, o Álvaro Cunhal... Aprendi muito. O Vilarigues dava-me na cabeça, porque os meus pais tinham-lhe dito que eu só lia revistas humorísticas e quadradinhos. Emprestou-me Subterrâneos da Liberdade», afirma.
«O mês em que o Álvaro esteve em muita casa foi fantástico. Tive a honra de lhe pintar o cabelo de louro antes de ele sair do País. Eu estava justamente a fazer a cadeira de Direito Colonial e um dia comentei com ele que os portugueses não eram tão racistas como os ingleses, os franceses ou os holandeses. E ele respondeu-me que isso acontecia por razões sexuais, porque a primeira coisa que os portugueses faziam quando desembarcavam era procurar mulheres. Não tinham medo das doenças, como os povos do Norte da Europa», recorda.
A família tinha de manter as aparências para salvaguardar a segurança da casa: «Tínhamos de parecer ter uma vida de meninos bem para não despertar curiosidades, mas mantínhamos as nossas opiniões. A minha mãe sofria imenso nos cocktails porque tinha de fugir que concordava com uma série de disparates. Às vezes aconteciam coisas cómicas. A Odete Santos tentou recrutar-me várias vezes na faculdade e eu tinha de recusar. Tive de pedir aos camaradas para lhe pedirem para parar, porque, para quem me conhecia, não fazia sentido eu estar sempre a recusar.»
Clandestinidade depois da revolução
A militância de Morais e Castro não se tornou pública com a Revolução do 25 de Abril. «Ainda estive na “clandestinidade” depois», diz a brincar. «O Joaquim Gomes, com quem eu tinha ligação ao Partido, disse-me para não me meter em nada, para não mostrar que era militante, porque era precisa a protecção da casa da minha mãe. No dia 28 de Abril de 1974, ele telefona-me e diz-me para ir buscá-lo e a três camaradas: “Um conheces, os outros não conheces e não olhes muito.” Eu fui buscá-los e o camarada que ia atrás diz-me assim: “Tu quando eras miúdo eras mais educado. Falavas às pessoas.” Era o Octávio Pato, mas de pêra e de bigode. Os outros dois eram o Carlos Costa e o Carlos Brito.»
A 30 de Abril de 1974, Morais e Castro foi contactado pelo Partido «para ver se eu arranjava maneira de ir a Paris buscar o Álvaro. Aí fui eu armado em 007, arranjei avião para Madrid e de lá para Paris. Cheguei muito tarde e falhei o primeiro contacto. O segundo contacto era na sede do PCF e lá disseram-me que o Álvaro já tinha partido, mas que estavam lá outros camaradas. Era o Sérgio Vilarigues e o Pires Jorge. Regressei a Lisboa no 1.º de Maio e fui encontrar no Areeiro a malta do Sindicato dos Trabalhadores dos Espectáculos. À noite, o Álvaro ficou em casa da minha mãe e eu, que tinha sido eleito para a direcção do sindicato, fui-lhe perguntar o que é que tinha de fazer. Resposta dele: “Tu é que sabes. Tens de ver com a tua classe o que querem fazer. Eu não sei.”»
Mas a falta de posição política oficial em Morais e Castro era motivo de admiração nos colegas: «A malta do teatro estranhava não me ver nas iniciativas do Partido.» A sua militância tornou-se pública com a tentativa de golpe contra-revolucionário de 28 de Setembro. «Telefona-me a Henriqueta Maia a dizer o que se estava passar e que tínhamos de ir para Loures. Eu, perante a situação, fui mesmo para as Linhas de Torres. No dia seguinte, sai a notícia de que estiveram presentes vários actores, entre eles eu. O Joaquim Gomes lê aquilo e dá-me uma bronca de todo o tamanho, mas lá me diz: “Pronto, acabou a clandestinidade!” Depois fui logo para a direcção da célula de Artes e Letras.»
Outro momento único da sua vida como militante deu-se no 16.º Congresso do PCP, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, quando Álvaro Cunhal, ausente por motivos de saúde, lhe pede para ler a sua saudação aos delegados. «Foi uma grande honra», sublinha Morais e Castro. « Depois de ter lido, telefonei-lhe a perguntar o que ele tinha achado: “Andaste a puxar os aplausos.” Eu expliquei que não, que as palmas eram para ele e eu afastava-me para o lado. Depois parou e disse-me: “Estão aqui pessoas que assistiram a dizer que não, que não puxaste. Peço desculpa.” Só um homem como ele!»
«Não há política cultural»
Ser actor e militante comunista nem sempre é fácil. Que o diga Morais e Castro. Depois do 16.º Congresso do PCP, quando leu a saudação de Álvaro Cunhal, esteve dois anos sem receber convites para participar em programas de televisão. Mas o actor não tem ilusões: «Quando li a saudação, já estava à espera desta reacção. Actualmente não tenho esse problema. Tenho o respeito das pessoas», refere.
Uma das maiores preocupações de Morais e Castro é a política cultural em Portugal. Ou melhor, a ausência dela: «Não há, não existe!» Esta situação provoca consequências negativas para a cultura e para o País.
«Tenho ideia que isto nunca esteve tão mau como está neste momento. Chega-se a subsidiar pontualmente grupos que ensaiam dois meses e depois fazem três espectáculos. Não há uma política de subsídios devidamente organizada para manter as companhias estáveis. Mesmo nos grupos independentes, muitos não têm elenco base. Não há uma actividade cultural nas escolas nem se leva os estudantes ao teatro», afirma o actor, ao mesmo tempo que salienta que «as pessoas têm interesse pela cultura. Há público para o teatro.» - I.A.B.