A conquista do sentido

Jorge Messias
Há já 13 anos foi publicado em França um excelente trabalho que reuniu num só volume (Les politiques de Dieu) ensaios de 12 conhecidos investigadores da história das religiões. O sentido central dessas pesquisas consistiu em procurarem identificar os objectivos e métodos adoptados, no mundo moderno, pelos grandes sistemas religiosos que dominam os cinco Continentes. Curiosamente, as análises realizadas pelos autores dos textos chamam a cada passo a atenção do leitor sobre a razão de ser de muitos factos políticos e sociais que actualmente decorrem no nosso país. Não houve, evidentemente, da parte dos investigadores, qualquer intenção de referirem o caso português. Não tinham essa intenção. Mas as suas explicações assentam como uma luva nos noticiários nacionais.
Que traços essenciais poderão ter em comum movimentos político-religiosos tão distantes entre si como os europeus, os asiáticos ou os africanos? A resposta certa seria, muito provavelmente, a ideia de um Deus e a política. Se a presença de uma divindade continua a ser exigida por muitas mentes, já a coabitação entre o religioso e o laico condiciona permanentemente as relações entre os Estados e as Igrejas. Neste plano, é constante a luta pelo poder sobre as sociedades. Quem domina e como se exerce esse domínio político e social? Os sistemas futuros serão laicos ou confessionais?
Entre os dois campos trava-se uma luta subterrânea que apenas de quando em quando aflora e vem à superfície. Diz Gilles Kepel, um dos notáveis da obra que citámos, ser a conquista do sentido a primeira das grandes operações de guerra desenvolvidas na luta pelo poder político-religioso. Ganhá-la ou perdê-la é abrir ou fechar as portas à conquista da hegemonia social. Sairá vitorioso o sistema religioso que souber caracterizar como «desordem social» o poder laico do Estado. Para convencer as massas, o confessionalismo religioso deve utilizar as imensas possibilidades oferecidas pelo discurso teológico, trocando significados, invertendo valores, desclassificando intenções dos rivais, de forma a alcançar, finalmente a conquista do sentido, em cada etapa das lutas.

Uma estratégia católica

Outro investigador, Andrea Riccardi, trata este assunto em termos da confissão católica europeia, numa perspectiva de hegemonia e de expansão.
Não esqueçamos que Riccardi foi fundador e preside à Comunidade de Santo Egídio força transnacional tão poderosa que conduz, em numerosos casos, a diplomacia paralela já de tradição no Vaticano. Santo Egídio dispõe de uma rede mundial apoiada em mais de 30 000 leigos especializados nas diferentes matérias de 40 países e reparte-se em áreas tão diferentes como a diplomacia, o ensino, a luta contra a pobreza, a paz e a guerra, os refugiados, o ecumenismo, etc. Gere recursos ilimitados e é bem conhecida por políticos de grande nomeada, como Mário Soares e a sua Fundação, António Guterres, alto-comissário da ONU para os Refugiados, Jorge Sampaio, também alto-comissário para o Choque de Civilizações, etc.
Na sua participação escrita em As políticas de Deus, Riccardi coloca a tónica no primado da nova evangelização, no papel social da igreja e no perfil redentor dos papas. Nas questões sociais e políticas, a esperança está em Deus e na transformação do homem. O Estado Social nada é e nada pode ser. Só o homem, como cidadão organizado na Sociedade Civil, é capaz de mudar a face da terra. Os partidos políticos estão esgotados. E o Papa, como representante único de Deus, é o símbolo sagrado em torno do qual as sociedades se devem organizar.
No actual panorama político português todas estas ideias para a conquista do sentido são calorosamente acolhidas. Nos actos eleitorais, então, esta técnica é cada vez mais evidente. Nos movimentos de cidadãos que tendem a substituir a representatividade dos partidos, morrem as ideologias e dilui-se o colectivo. Abundam os independentes, arautos do individualismo. A sociedade civil que se pretende fazer avançar é, de facto, uma colagem de ladrilhos sem qualquer consistência. Só a Igreja é forte. Lá longe, invisível e quase sobrenatural, o papa é um deus, um monarca, um raio de sol.
Só os ricos desejam estas mudanças. Têm a banca, a Bolsa, os grandes negócios, a especulação, a chicana política. Exploram e estão à margem da exploração. Garantem à Igreja a conquista do sentido.
O povo, esse possui a força do trabalho, a sua forma característica de poder. Tem a rua, os campos, as suas mãos e uma poderosa voz. Pode imobilizar a força dos ricos e pôr a nu as suas mentiras. Sabe ser verdade que as políticas actuais são corruptas. Mas que há outras políticas, outras propostas válidas, outras conquistas que ele saberá a seu tempo reclamar.


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