O Bil e o Bel

José Casanova
A notícia, brutal, sísmica, sacudiu todo o território nacional: Belmiro de Azevedo, presidente do grupo Sonae, desceu do 350º para o 407º lugar na lista dos homens mais ricos do mundo. Como é possível?, interrogou-se, em estado de choque, metade do País. E agora, que vai ser de nós? – gemeu, dilacerada, a outra metade. E as duas metades, em uníssono, mergulhando no mar de lamentações da pouca sorte, choraram a queda a pique da auto-estima nacional, a tanto custo conquistada com o Euro/ 2004 e o Mundial/2006.
Felizmente, a segunda metade da notícia pôs alguma água na fervura da lusa intranquilidade: afinal, a fortuna de Belmiro não desceu, as dos outros é que subiram mais. Belmiro tem, agora, 2300 milhões, mais 100 milhões do que tinha o ano passado. Suspirou-se de alívio: pronto, não há razão para alarme, está tudo bem. Reacendeu-se a esperança: quem sabe se no próximo ano Belmiro não voltará a subir e, até, sabe-se lá, a agarrar e ultrapassar os 56 mil milhões do Bill Gates?
É bem possível, porque, se é verdade – e deve ser porque são os próprios a dizê-lo - que todas as grandes fortunas decorrem do facto de os respectivos afortunados trabalharem muito e descansarem pouco - anos e anos sem férias, sem, ao menos, um mísero fim-de-semana na praia ou um reles feriado no campo, picando o ponto todos os dias às oito da matina, trabalhando, suando - então só podemos concluir o óbvio: que o Bil descansa menos e trabalha mais do que o Bel e que se o Bel passar a trabalhar mais e a descansar menos que o Bil… está-se mesmo a ver, não é verdade?, lá salta a nossa auto-estima outra vez para os píncaros da lua.
E, já agora, lembro que a receita se aplica a todos os portugueses: os que têm emprego até ver; os que não têm emprego à vista; os que não vêem os salários ao fim do mês; os 2 milhões que só vêem pobreza (dos quais 200 mil passam fome); todos, todos: não sejam calões, façam como o Bil e o Bel, trabalhem, suem, deixem-se de férias, de domingos, de feriados, de dias santos, trabalhem, suem, e vão ver como as vossas fortunas sobem e sobem e sobem. Porque, em verdade vos digo: como nos ensinam Bil e Bel é fácil ser o homem mais rico de Portugal, da Europa, ou do Mundo: basta trabalhar de sol a sol. E fazer serões.


Mais artigos de: Opinião

«Escudo» anti-míssil, uma ameaça à paz

Nas últimas semanas, o plano dos EUA de criação de um «sistema global» de defesa anti-míssil (DAM) conheceu novos e vertiginosos desenvolvimentos nas frentes política e militar. Em Fevereiro, os Governos de Varsóvia e Praga, ignorando a opinião das populações dos seus países, reafirmaram o apoio à colocação de mísseis...

O elogio

Decerto para confirmar a sua independência, o viçoso semanário Sol impingiu esta semana ao País uma hagiografia de 20 páginas sobre José Sócrates, precedida por uma campanha de promoção espalhada por tudo o que é rua e paragem de autocarro. Olhando ao aparato e ao investimento a encomenda deve valer ouro, mas disso...

Já nem somos só nós a dizer!

O Governo PS/Sócrates celebra o seu segundo ano de mandato com um conjunto de tristes medalhas no seu palmarés!Atente-se no estudo da União Europeia, já tratado nas páginas do Avante, que afirma, preto no branco, que Portugal é o país com maior nível de desigualdades no quadro dos 27. (Foi a UE que fez e mandou...

O estilo e a luta

No assinalar do seu primeiro ano de mandato na Presidência da República, Cavaco Silva deu a conhecer a sua intenção de vir a escrever um «livro de estilo» daquilo que será o seu entendimento sobre qual deve ser a actuação de um Presidente. Registe-se, por um lado, o anúncio e assinale-se o despacho de quem em tão curto...