O elogio

Henrique Custódio
Decerto para confirmar a sua independência, o viçoso semanário Sol impingiu esta semana ao País uma hagiografia de 20 páginas sobre José Sócrates, precedida por uma campanha de promoção espalhada por tudo o que é rua e paragem de autocarro. Olhando ao aparato e ao investimento a encomenda deve valer ouro, mas disso saberão os que patrocinam o chefe do hebdomadário, o formidável António José Saraiva.
De que se trata de uma encomenda é que restarão poucas dúvidas, tal o acervo de fotografias privadas e a abundância de apontamentos pessoais, obviamente apenas acessíveis a qualquer investigação se fornecidas directamente pelo visado, que nem sequer é um ilustre defunto com espólio a desbravar, mas um pujante primeiro-ministro reconhecidamente cioso da sua intimidade.
Por exemplo, contar que Sócrates, em criança, «é mordido pelo azar» porque «um cão vadio apanha-o pelo canela, deixa-lhe a perna a sangrar», sendo acudido por um polícia sinaleiro da Covilhã, que «desce do plinto e pede boleia para o hospital» valendo-lhe a prontidão «um louvor na folha de serviços», é tão pessoal, que tal ridículo não pode ser invenção de terceiros, mas uma memória de primeira. Primeira mão, evidentemente.
Mas se há coisa de que, obviamente, Sócrates não terá medo é do ridículo. Prova-o este repolhudo laudatório onde o homenageado surge na capa toda, a sorrir de corpo inteiro e agarrado a uma cadeira ao lado do título «Nascido para o Poder». Lá dentro, nas 20 páginas do encómio, explica-se como o «Zézito» da Covilhã viajou «da infância ao Poder», começando tudo «no externato do professor Cerdeira», onde o dito exigia «aos filhos da elite» que para lá iam leituras com «entoação e dotes de orador» treinados à reguada, expediente que o próprio Sócrates hoje agradece porque «era duro mas preparou-me e marcou-me para a vida». A infância na Covilhã prossegue sem sobressaltos de maior rumo ao Poder e com alguns lances heróicos a sinalizar o Predestinado que por ali andava, onde se destaca quando Sócrates, de atracão com companheiros de folguedo, comprava «mata-ratos» na taberna e os fumava «no jardinzito atrás da câmara», quando Sócrates foi mordido pelo tal cão vadio e salvo por um sinaleiro da Covilhã e quando Sócrates, «de conluio» com outro amigo, esportulou aos berros de menino mimado, para comprar cromos de futebol, os trocos que a «criada Augusta» recebera dos pais ausentes para uma emergência. O 25 de Abril apanha-o com 16 anos, na esteira do pai PPD inscreve-se na JSD mas os primeiros anos da Revolução são aproveitados «para ver mundo com Mané, amigo que aqui revela a alcunha mas não o nome» e com quem vai a salto para as vindimas em França. Quanto ao seu percurso académico, o extenso relato é curiosamente vago e nada esclarecedor em relação às dúvidas e reservas coligidas com minúcia pelo blogue DoPortugalProfundo sobre a autenticidade das suas habilitações, enquanto a ascensão meteórica no PS começa na sua conspiração com Guterres para este subir ao poder, o que por sua vez o lança no Governo e na ribalta para o projectar vertiginosamente rumo à chefia do partido e do País.
Se já é extraordinário que chegue ao Governo de Portugal este «Zézito» da Covilhã, apreciador de leituras à reguada e que aprendeu mundo através de passeios pelas vindimas, realmente fantástico é apresentar a coisa como um elogio...


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