Os medos e as coragens do Alentejo
Era uma vez uma mulher, Sara da Conceição, que vivia no Alentejo e passava fome. Regularmente agredida por um marido alcoólico, procurava proteger os filhos em todas as terras por onde andava, encarando como única alternativa à morte por inanição enviar as crianças em busca de esmolas. Conta o narrador: «Então quanto é o jornal? Mais um vintém, Não chega para a minha necessidade, Se não quiseres, mais fica, não falta quem queira, Ai minha santa mãe, que um homem vai rebentar de tanta fome, e os filhos, que dou eu aos filhos, Põe-nos a trabalhar, E se não há trabalho, Não faças tantos.»
Era uma vez um homem, João, filho de Sara, que passava fome. Tinha baixa estatura, provavelmente pela falta de alimentos e pelos duros trabalhos que fez desde pequeno. Os seus olhos azuis eram outra marca do latifúndio. Séculos antes, um alemão que chegou ao Alentejo com o alcaide-mor violou uma rapariga local. Abandonou-a em seguida, mas a marca da brutalidade ficou para sempre na família: os seus olhos azuis saltam gerações, mas acabam sempre por aparecer. Diz o narrador: «É um pelém de dez anos retacos, um cavaco de gente que ainda olha para as árvores mais como alpenduradas de ninhos do que como produtoras de cortiça, bolota ou azeitona. É uma injustiça que se lhe faz obrigá-lo a levantar-se ainda noite fechada, andar meio a dormir e com o estômago frouxo o pouco ou muito caminho que o separa do lugar do trabalho, e depois dia fora, até ao sol posto, para tornar a casa outra vez de noite, morto de fadiga, se isto é ainda fadiga, se não é já transe de morte.»
Era uma vez uma mulher, Gracinda, neta de Sara e filha de João. Um dia, adulta já, conhecendo tão bem as injustiças do latifúndio, a angústia do desemprego por tempo indeterminado, o medo de não conseguir saldar a dívida na mercearia, o cansaço nas mãos, nas costas, nas pernas, na cabeça provocado pelo intenso labor na terra, decide acompanhar os homens que se juntam em Montemor-o-Novo pedindo trabalho. Relata o narrador: «A terceira rajada é de pontaria baixa, agora se verá o proveito dos treinos de tiro ao alvo, deixa levantar o fumo, não foi mau, embora pudesse ser melhor, estão três no chão, e agora há um que se levanta agarrado ao braço, teve sorte, e outro rasteja aflito, arrasta uma perna, e aquele ali não se mexe.»
Era uma vez um povo que se levantou e que fez uma revolução, pondo fim a 48 de ditadura fascista. Insatisfeito com os resultados imediatos, descontente com os boicotes dos latifundiários que decidem abandonar as culturas para não empregar ninguém e ansioso pela sociedade justa prometida, decide avançar por alguns montes deixados pelos donos e trabalhar as searas, tirar partido da terra, acabar com a fome e a miséria de crianças, adultos e velhos. Refere o narrador: «E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. [...] Em todos os montes e herdades são tomadas as chaves e escritos os inventários, somos trabalhadores, não viemos roubar, afinal nem há aqui ninguém para afirmar o contrário.»
Era uma vez um livro, Levantado do Chão, de José Saramago, publicado em 1980, que recebeu o Prémio Cidade de Lisboa e o Prémio Internacional Ennio Flaiano (Itália) e foi traduzido em 25 países.
Era uma vez um proclamado Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, a 19 de Dezembro de 2006, condenou o Estado português a pagar indemnizações no valor de dois milhões de euros pela reforma agrária, argumentando com a protecção da propriedade privada. Responde o narrador: «Também é certo que a mim me vieram chamar a Monte Lavre para servir a pátria, dizem eles, mas servir a pátria não sei o que seja, se a pátria é minha mãe e é meu pai, dizem também, de meus verdadeiros pais sei eu, e todos sabem dos seus, que tiraram à boca para não faltar à nossa, e então a pátria deverá tirar à sua própria boca para não faltar à minha, e se eu tiver de comer cardos, coma-os a pátria comigo, ou então uns são filhos da pátria e os outros filhos da puta.»
Era uma vez um homem, João, filho de Sara, que passava fome. Tinha baixa estatura, provavelmente pela falta de alimentos e pelos duros trabalhos que fez desde pequeno. Os seus olhos azuis eram outra marca do latifúndio. Séculos antes, um alemão que chegou ao Alentejo com o alcaide-mor violou uma rapariga local. Abandonou-a em seguida, mas a marca da brutalidade ficou para sempre na família: os seus olhos azuis saltam gerações, mas acabam sempre por aparecer. Diz o narrador: «É um pelém de dez anos retacos, um cavaco de gente que ainda olha para as árvores mais como alpenduradas de ninhos do que como produtoras de cortiça, bolota ou azeitona. É uma injustiça que se lhe faz obrigá-lo a levantar-se ainda noite fechada, andar meio a dormir e com o estômago frouxo o pouco ou muito caminho que o separa do lugar do trabalho, e depois dia fora, até ao sol posto, para tornar a casa outra vez de noite, morto de fadiga, se isto é ainda fadiga, se não é já transe de morte.»
Era uma vez uma mulher, Gracinda, neta de Sara e filha de João. Um dia, adulta já, conhecendo tão bem as injustiças do latifúndio, a angústia do desemprego por tempo indeterminado, o medo de não conseguir saldar a dívida na mercearia, o cansaço nas mãos, nas costas, nas pernas, na cabeça provocado pelo intenso labor na terra, decide acompanhar os homens que se juntam em Montemor-o-Novo pedindo trabalho. Relata o narrador: «A terceira rajada é de pontaria baixa, agora se verá o proveito dos treinos de tiro ao alvo, deixa levantar o fumo, não foi mau, embora pudesse ser melhor, estão três no chão, e agora há um que se levanta agarrado ao braço, teve sorte, e outro rasteja aflito, arrasta uma perna, e aquele ali não se mexe.»
Era uma vez um povo que se levantou e que fez uma revolução, pondo fim a 48 de ditadura fascista. Insatisfeito com os resultados imediatos, descontente com os boicotes dos latifundiários que decidem abandonar as culturas para não empregar ninguém e ansioso pela sociedade justa prometida, decide avançar por alguns montes deixados pelos donos e trabalhar as searas, tirar partido da terra, acabar com a fome e a miséria de crianças, adultos e velhos. Refere o narrador: «E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. [...] Em todos os montes e herdades são tomadas as chaves e escritos os inventários, somos trabalhadores, não viemos roubar, afinal nem há aqui ninguém para afirmar o contrário.»
Era uma vez um livro, Levantado do Chão, de José Saramago, publicado em 1980, que recebeu o Prémio Cidade de Lisboa e o Prémio Internacional Ennio Flaiano (Itália) e foi traduzido em 25 países.
Era uma vez um proclamado Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, a 19 de Dezembro de 2006, condenou o Estado português a pagar indemnizações no valor de dois milhões de euros pela reforma agrária, argumentando com a protecção da propriedade privada. Responde o narrador: «Também é certo que a mim me vieram chamar a Monte Lavre para servir a pátria, dizem eles, mas servir a pátria não sei o que seja, se a pátria é minha mãe e é meu pai, dizem também, de meus verdadeiros pais sei eu, e todos sabem dos seus, que tiraram à boca para não faltar à nossa, e então a pátria deverá tirar à sua própria boca para não faltar à minha, e se eu tiver de comer cardos, coma-os a pátria comigo, ou então uns são filhos da pátria e os outros filhos da puta.»