O Natal a construir
«Natal para todos», anunciou a SIC ao longo do seu noticiário da noite de 23. A notícia seria deslumbrante se fosse verdadeira, mas todos sabíamos que não o era. Isso mesmo decerto surpreendeu Rodrigues Guedes de Carvalho que, honestamente, teve o cuidado de introduzir uma correcção: «…para quase todos», disse ele. No mesmo telenoticiário houve umas breves reportagens que quereriam sugerir que o Natal acontecia mesmo para lá de diferenças sociais acentuadas e, assim, fomos levados a espreitar o Natal nas casas de Dona Bibá Pita, de Francisco Balsemão e de um cidadão desempregado (de longa duração, presume-se) que com a mulher e três ou quatro filhos sobrevive, segundo o próprio, com o rendimento mínimo e ajudas de instituições locais de solidariedade social. De facto, entre os dois primeiros lares e o terceiro viam-se significativas diferenças e maiores ainda se adivinhavam, mas não parece que ali se esgotava toda a escala de diferenças entre portugueses e perante o Natal. De resto, isto mesmo era confirmado mais tarde por uma reportagem também não muito extensa transmitida pela RTPN: ali se viam, embora apenas de raspão, alguns sem-abrigo que pouco ou nenhum apoio recebem da solidariedade pública ou privada, decerto porque na nossa sociedade actual a miséria nas suas diversas formas tem dimensões e garras que nenhuma solidariedade, as mais das vezes sendo o pseudónimo prudente da velha caridadezinha, consegue neutralizar. A gente anda pelas ruas, sobretudo no centro das cidades agora com iluminações especiais, e pode parecer-lhe que apesar de tudo há Natal, e Natal «para quase todos». Mas será preciso procurar outras ruas, entrar nas velhas casas onde mora gente velha, saber dos muitos milhares que recebem pensões tão mínimas que não lhes chegam nem para comer e muito menos para os remédios, da angústia dos que vêem aproximar-se o último dia do mês em que receberão subsídio de desemprego sem que sequer vislumbrem um posto de trabalho acessível, de muitos outros casos de pobreza e desespero, para perceber que as luzes, e as lojas que apesar de tudo alguma coisa vão vendendo, e os pais que conseguem arranjar dinheiro para que os sonhos dos filhos não resultem em amarguras, e os que conseguem ainda alguma coisa mais, talvez constituam apenas a superfície das coisas neste país cada vez mais entregue ao saque praticado sobre a maioria por uma minoria estreita mas, bem o sabemos, muito eficaz nessa sua sinistra tarefa.
Só então um sorriso
Há alguns anos, muitos anos, Sidónio Muralha escreveu num dos seus poemas dois versos que me têm acompanhado ao longo do tempo: «Hoje é Dia de Natal / Mas quando será de todos?». Escreveu-os num livro que, naturalmente, foi rapidamente proibido, e não apenas, mas seguramente também, porque desejar um Natal para todos era insuportavelmente subversivo nos critérios de quem mandava. Porém, pergunto-me: e agora? É assim tão diferente quanto devia ser? Uma resposta hipócrita diria que sim, embora talvez só mais ou menos, porque nunca os Natais serão iguais para toda a gente (fórmula esta derivada da antiga afirmação de que «sempre houve ricos e pobres e sempre os há-de haver»), e já será um bonito Natal, um santo Natal, se os que têm muito condescenderem em dar aos não têm nada uns pedacinhos do que lhes sobeja. Mas nem é essa a melhor e mais esquecida mensagem do Natal nem era esse Natal da dádiva do supérfluo que Sidónio Muralha desejava. Em verdade, a sua alusão ao Natal tinha muito de metafórico e simbólico: o Natal de todos por que ele perguntava era, sem dúvida, uma outra sociedade em que uma espécie de natal-de-cada-dia seria o direito de todos os cidadãos, libertados da espera anual da caridade dos que de facto já têm um natal à sua espera, dia após dia, desde que acordam. Esse outro Natal, sabia-o bem o poeta, era preciso construí-lo, não a partir do nada, é certo, mas quase contra tudo. Anos depois da escrita deste e de outros belos versos por Sidónio Muralha, essa construção pôde enfim começar, mas cedo foi contrariada, verdadeiramente embargada, pelos donos de muita coisa, também do Natal com muitas luzes mas pouca alma. Por isso, a questão agora é de preparar o seu recomeço. Assim, mantém toda a actualidade a sua pergunta, verdadeiramente essencial mesmo no quadro de um Natal a sério que abençoa os homens de boa vontade sabendo, como é inevitável, que a boa vontade dos homens tem de integrar a fraternidade efectiva sem a qual a paz pouco mais será que uma figura de retórica. E aqui está porque o Natal de todos será uma construção pelas mãos de muitos. Pode demorar, tudo demora menos as vidas individuais, mas é seguro que um dia será realidade. E será tão bonito, tão Natal, que nem me surpreenderá que, então e só então, se veja qualquer imagem de Jesus, nas palhinhas, a sorrir.
Só então um sorriso
Há alguns anos, muitos anos, Sidónio Muralha escreveu num dos seus poemas dois versos que me têm acompanhado ao longo do tempo: «Hoje é Dia de Natal / Mas quando será de todos?». Escreveu-os num livro que, naturalmente, foi rapidamente proibido, e não apenas, mas seguramente também, porque desejar um Natal para todos era insuportavelmente subversivo nos critérios de quem mandava. Porém, pergunto-me: e agora? É assim tão diferente quanto devia ser? Uma resposta hipócrita diria que sim, embora talvez só mais ou menos, porque nunca os Natais serão iguais para toda a gente (fórmula esta derivada da antiga afirmação de que «sempre houve ricos e pobres e sempre os há-de haver»), e já será um bonito Natal, um santo Natal, se os que têm muito condescenderem em dar aos não têm nada uns pedacinhos do que lhes sobeja. Mas nem é essa a melhor e mais esquecida mensagem do Natal nem era esse Natal da dádiva do supérfluo que Sidónio Muralha desejava. Em verdade, a sua alusão ao Natal tinha muito de metafórico e simbólico: o Natal de todos por que ele perguntava era, sem dúvida, uma outra sociedade em que uma espécie de natal-de-cada-dia seria o direito de todos os cidadãos, libertados da espera anual da caridade dos que de facto já têm um natal à sua espera, dia após dia, desde que acordam. Esse outro Natal, sabia-o bem o poeta, era preciso construí-lo, não a partir do nada, é certo, mas quase contra tudo. Anos depois da escrita deste e de outros belos versos por Sidónio Muralha, essa construção pôde enfim começar, mas cedo foi contrariada, verdadeiramente embargada, pelos donos de muita coisa, também do Natal com muitas luzes mas pouca alma. Por isso, a questão agora é de preparar o seu recomeço. Assim, mantém toda a actualidade a sua pergunta, verdadeiramente essencial mesmo no quadro de um Natal a sério que abençoa os homens de boa vontade sabendo, como é inevitável, que a boa vontade dos homens tem de integrar a fraternidade efectiva sem a qual a paz pouco mais será que uma figura de retórica. E aqui está porque o Natal de todos será uma construção pelas mãos de muitos. Pode demorar, tudo demora menos as vidas individuais, mas é seguro que um dia será realidade. E será tão bonito, tão Natal, que nem me surpreenderá que, então e só então, se veja qualquer imagem de Jesus, nas palhinhas, a sorrir.