Provedor da treta
Uma até aqui desconhecida Comissão Nacional de Combate à Desertificação veio agora propor a criação da figura do «Provedor do Interior». Segundo o Presidente da dita comissão, «a ideia é que este órgão possa sugerir critérios próprios para as regiões desertificadas, para que estas não sejam desagregadas neste jogo de subsídios».
Esta «luminosa» e efémera ideia, a que uma das rádios nacionais dedicou uma manhã inteira, desperta-nos a atenção para duas questões que julgo importantes.
Em primeiro lugar, cresce a sofisticação e o descaramento com que se procura iludir os gravíssimos problemas com que o país se confronta. Depois de encerradas escolas, maternidades, serviços de saúde e outras estruturas do Estado. Depois de um Orçamento que reduz drasticamente o investimento público, contemplando no PIDDAC concelhos do nosso país com apenas 1000€ de verbas. Depois do encerramento de centenas de empresas, liquidando milhares de postos de trabalho. Depois da destruição da reforma agrária e da ruína da agricultura, obedecendo cegamente às directrizes de Bruxelas que deixaram os nossos campos ao abandono e a nossa floresta a arder. Depois de trinta anos de acentuação das assimetrias regionais e, pela mesma via, das injustiças sociais, eis que surge o truque, o milagre, a ilusão. Não têm escola, nem hospital, trabalho também não, mas, pronto, aqui está o Provedor do Interior.
Temos pena que esta comissão, seguramente recheada de sábios e ilustres personalidades, não consiga alcançar mais longe e perceber que na origem das muitas dificuldades que as populações enfrentam está o desenvolvimento de políticas erradas, que de tão enfeudadas que estão ao objectivo de mais lucros para alguns, não só esquecem como arrancam aquilo que ainda resta à maioria. Políticas injustas e cruéis, que através de sugestões deste tipo encontram um precioso amparo e a «natural» legitimidade para continuarem a ser desenvolvidas.
Uma segunda questão prende-se com a banalização destas figuras de regulação e mediação. Provedores do leitor, do ouvinte, do telespectador, da Internet, do cliente, do estagiário, da pessoa com deficiência multiplicaram-se nos últimos anos. Assim como entidades reguladoras várias, desde a concorrência, passando pela energia e saúde, até à comunicação social. Independentemente do papel objectivo e concreto que cada uma destas estruturas possa desempenhar, a verdade é que funcionam cada vez mais como elementos desresponsabilizadores das opções políticas e apaziguadores dos sentimentos de injustiça provocados pelas contradições cada vez mais profundas da nossa sociedade. Figuras e estruturas que, colhendo aplausos e apoios, «ficam bem» como laço a enfeitar este destruidor embrulho que é a política de direita. E «ficam bem» porque, assim, tudo fica na mesma.
Esta «luminosa» e efémera ideia, a que uma das rádios nacionais dedicou uma manhã inteira, desperta-nos a atenção para duas questões que julgo importantes.
Em primeiro lugar, cresce a sofisticação e o descaramento com que se procura iludir os gravíssimos problemas com que o país se confronta. Depois de encerradas escolas, maternidades, serviços de saúde e outras estruturas do Estado. Depois de um Orçamento que reduz drasticamente o investimento público, contemplando no PIDDAC concelhos do nosso país com apenas 1000€ de verbas. Depois do encerramento de centenas de empresas, liquidando milhares de postos de trabalho. Depois da destruição da reforma agrária e da ruína da agricultura, obedecendo cegamente às directrizes de Bruxelas que deixaram os nossos campos ao abandono e a nossa floresta a arder. Depois de trinta anos de acentuação das assimetrias regionais e, pela mesma via, das injustiças sociais, eis que surge o truque, o milagre, a ilusão. Não têm escola, nem hospital, trabalho também não, mas, pronto, aqui está o Provedor do Interior.
Temos pena que esta comissão, seguramente recheada de sábios e ilustres personalidades, não consiga alcançar mais longe e perceber que na origem das muitas dificuldades que as populações enfrentam está o desenvolvimento de políticas erradas, que de tão enfeudadas que estão ao objectivo de mais lucros para alguns, não só esquecem como arrancam aquilo que ainda resta à maioria. Políticas injustas e cruéis, que através de sugestões deste tipo encontram um precioso amparo e a «natural» legitimidade para continuarem a ser desenvolvidas.
Uma segunda questão prende-se com a banalização destas figuras de regulação e mediação. Provedores do leitor, do ouvinte, do telespectador, da Internet, do cliente, do estagiário, da pessoa com deficiência multiplicaram-se nos últimos anos. Assim como entidades reguladoras várias, desde a concorrência, passando pela energia e saúde, até à comunicação social. Independentemente do papel objectivo e concreto que cada uma destas estruturas possa desempenhar, a verdade é que funcionam cada vez mais como elementos desresponsabilizadores das opções políticas e apaziguadores dos sentimentos de injustiça provocados pelas contradições cada vez mais profundas da nossa sociedade. Figuras e estruturas que, colhendo aplausos e apoios, «ficam bem» como laço a enfeitar este destruidor embrulho que é a política de direita. E «ficam bem» porque, assim, tudo fica na mesma.