Mal enterrado
O ditador chileno Augusto Pinochet morreu a 10 de Dezembro, aos 91 anos, sem ter respondido perante a justiça pelos múltiplos crimes que cometeu durante os 17 anos do seu tenebroso reinado.
Pinochet morreu deixando abertas as feridas que dilaceram o Chile, e a memória intacta dos milhares de mortos, presos, torturados e desaparecidos a mando de um regime fascista, apadrinhado por Washington, que derrubou pelas armas um presidente e um governo democraticamente eleitos.
Pinochet morreu como viveu, protegido por compadrios e cumplicidades espúrias, deixando como legado o testemunho da sua própria indignidade expressa numa entrevista divulgada a título póstumo uma semana depois de ter sido enterrado, em que afirma «nunca» ter ordenado os crimes cometidos pelo seu regime.
«Nunca dei uma ordem mal-intencionada. Ordenei que nenhuma pessoa detida fosse submetida a violência», declara Pinochet na entrevista gravada em vídeo em Maio de 1999, em Londres.
Na entrevista – realizada pela historiadora Patricia Arancibia Clavel, irmã de Enrique Arancibia Clavel, antigo agente da polícia secreta chilena (Dina), condenado a prisão perpétua em 2002, na Argentina, pelo assassínio, em 1974, em Buenos Aires, de Carlos Prats, um general chileno que se opôs ao golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 – Pinochet descarta responsabilidades e acusa os agentes subalternos pelos crimes de que era acusado.
Pelo menos 3000 pessoas morreram durante a ditadura e outras 28 000 foram torturadas, mas Pinochet lava as mãos do sangue derramado, limitando-se a dizer que «quando tomava conhecimento de que um tipo qualquer tinha exercido violência (sobre prisioneiros), abria um inquérito e levava-os perante a justiça. Mas não podia propriamente fuzilá-los.»
Não há registo de tais julgamentos. Do que há registo, isso sim, é dos milhares de patriotas chilenos fuzilados ou barbaramente mutilados até à morte, como o cantor Victor Jara.
Do que há registo, é dos milhares de homens e mulheres, crianças, jovens e adultos, encerrados em estádios de futebol – as prisões eram escassas para a sanha fascista – ou perseguidos por «Caravanas da morte», dentro e fora do país.
Apesar de não assumir responsabilidades, Pinochet não hesita em dizer que «nessa época, não tinha remorsos» e que «era necessário um homem corajoso, por que os que enfrentava o eram ainda mais».
A coragem de matar e torturar levou Pinochet a criar a Dina e a nomear o general Manuel Contreras para a chefiar. Contreras cumpre actualmente uma pena de 12 anos de prisão no Chile por vários casos de opositores «desaparecidos» sob a ditadura. Num primeiro julgamento, em 1995, foi condenado a sete anos de prisão pelo assassínio, em Washington, de Orlando Letelier, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salvador Allende.
Já este ano, Contreras acusou Pinochet e seu filho, Marco Antonio, de estarem envolvidos na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. As acusações estão a ser investigadas pela Justiça chilena, mas Pinochet, igualmente acusado de crimes económicos, morreu sem que no Chile o actual governo socialista tivesse a coragem política de o tratar como o que realmente foi: um traidor à pátria e um carniceiro do povo.
Em recente entrevista ao jornal El Mercúrio, a ministra da Defesa, Vivianne Blanlot, admite que Pinochet venha a ter um busto no palácio presidencial de La Moneda, na galeria dos líderes chilenos, explicando que o governo fez «um acordo» aceitando «reconhecer o seu status legal de presidente». Comentários para quê? O ditador morreu, mas o fascismo não está enterrado.
Pinochet morreu deixando abertas as feridas que dilaceram o Chile, e a memória intacta dos milhares de mortos, presos, torturados e desaparecidos a mando de um regime fascista, apadrinhado por Washington, que derrubou pelas armas um presidente e um governo democraticamente eleitos.
Pinochet morreu como viveu, protegido por compadrios e cumplicidades espúrias, deixando como legado o testemunho da sua própria indignidade expressa numa entrevista divulgada a título póstumo uma semana depois de ter sido enterrado, em que afirma «nunca» ter ordenado os crimes cometidos pelo seu regime.
«Nunca dei uma ordem mal-intencionada. Ordenei que nenhuma pessoa detida fosse submetida a violência», declara Pinochet na entrevista gravada em vídeo em Maio de 1999, em Londres.
Na entrevista – realizada pela historiadora Patricia Arancibia Clavel, irmã de Enrique Arancibia Clavel, antigo agente da polícia secreta chilena (Dina), condenado a prisão perpétua em 2002, na Argentina, pelo assassínio, em 1974, em Buenos Aires, de Carlos Prats, um general chileno que se opôs ao golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 – Pinochet descarta responsabilidades e acusa os agentes subalternos pelos crimes de que era acusado.
Pelo menos 3000 pessoas morreram durante a ditadura e outras 28 000 foram torturadas, mas Pinochet lava as mãos do sangue derramado, limitando-se a dizer que «quando tomava conhecimento de que um tipo qualquer tinha exercido violência (sobre prisioneiros), abria um inquérito e levava-os perante a justiça. Mas não podia propriamente fuzilá-los.»
Não há registo de tais julgamentos. Do que há registo, isso sim, é dos milhares de patriotas chilenos fuzilados ou barbaramente mutilados até à morte, como o cantor Victor Jara.
Do que há registo, é dos milhares de homens e mulheres, crianças, jovens e adultos, encerrados em estádios de futebol – as prisões eram escassas para a sanha fascista – ou perseguidos por «Caravanas da morte», dentro e fora do país.
Apesar de não assumir responsabilidades, Pinochet não hesita em dizer que «nessa época, não tinha remorsos» e que «era necessário um homem corajoso, por que os que enfrentava o eram ainda mais».
A coragem de matar e torturar levou Pinochet a criar a Dina e a nomear o general Manuel Contreras para a chefiar. Contreras cumpre actualmente uma pena de 12 anos de prisão no Chile por vários casos de opositores «desaparecidos» sob a ditadura. Num primeiro julgamento, em 1995, foi condenado a sete anos de prisão pelo assassínio, em Washington, de Orlando Letelier, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salvador Allende.
Já este ano, Contreras acusou Pinochet e seu filho, Marco Antonio, de estarem envolvidos na produção clandestina de armas químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. As acusações estão a ser investigadas pela Justiça chilena, mas Pinochet, igualmente acusado de crimes económicos, morreu sem que no Chile o actual governo socialista tivesse a coragem política de o tratar como o que realmente foi: um traidor à pátria e um carniceiro do povo.
Em recente entrevista ao jornal El Mercúrio, a ministra da Defesa, Vivianne Blanlot, admite que Pinochet venha a ter um busto no palácio presidencial de La Moneda, na galeria dos líderes chilenos, explicando que o governo fez «um acordo» aceitando «reconhecer o seu status legal de presidente». Comentários para quê? O ditador morreu, mas o fascismo não está enterrado.