Uma frase na parede

Correia da Fonseca
Alguém me lembrou, neste mesmo dia em que escrevo, uma frase pintada numa parede de uma localidade da chamada Linha do Estoril: «Quanto mais ignorantes melhor para os governantes». E eu recordei então, por curiosa e talvez impertinente associação de ideias, a última emissão do programa intitulado «A Voz do Cidadão». Embora não pareça e pelo menos o título não o indique claramente, «A Voz do Cidadão» é o programa em que o Provedor do Telespectador da RTP, dr. Paquete de Oliveira, acolhe e responde a reparos formulados pelo público ou, mais frequentemente, busca para eles respostas de funcionários da RTP. Ora, acontecera que no passado sábado o assunto que dominara o programa havia sido a escassa presença na programação da RTP de programas ditos culturais. Sabendo se que a aquisição de cultura tem tudo a ver com o entendimento das pessoas, das coisas, do mundo, da vida, e que o contrário de tudo isso é a ignorância nas suas diversas formas, a tal associação de ideias arrancara naturalmente. E, com ela, a inevitável conclusão de que a ausência de programas tendo a ver com cultura ou, como muito bem se sabe, a sua transmissão em canal pouco frequentado e em horários menos acessíveis, tende a manter a ignorância em níveis suficientemente altos para que a situação convenha a alguns. A quem? A frase pintada na parede dava a resposta: aos governantes. Embora, garanto, não tenha sido eu a pintar a frase, nem nenhum dos meus amigos, inclino me a crer que o que lá está escrito tem muito de verdade. Mais: acho mesmo o que aliás muita gente excelente também acha: que as aventuras e sobretudo as desventuras da cultura ao longo dos séculos são parte integrante e muito significativa da História de Portugal que, como se sabe, é também a história da exploração e opressão do povo pelas sucessivas classes dominantes.

O mal dos outros

Voltemos, porém, ao programa «A Voz do Cidadão» do passado sábado. Perante as queixas dos telespectadores e antes mesmo de chamar a responder os responsáveis pela programação, o dr. Paquete de Oliveira lembrou a existência na «2:» de programas de cariz cultural. O Provedor repetia assim, pelo menos implicitamente, a explicação que já dera em programa anterior: o primeiro canal da Radiotelevisão Portuguesa, a RTP 1, é um canal generalista, e as coisas da cultura estão no segundo canal, a «2:», sendo esta prática distributiva adoptada pela generalidade dos outros países. Dizendo o, está o Provedor cheio de razão, mas essa razão não prova a bondade do método adoptado. Por mim, não tenho a ideia de que os governantes dos outros países sejam anjos a abarrotar de virtudes, mais ansiosos por governarem povos cultos que por comandarem povos submissos e anestesiados por televisões tendencialmente cretinizantes (esta palavra não é minha, mas de um sociólogo norte americano que foi pioneiro, já há décadas, dos efeitos indesejáveis da TV). De resto, as desgraças que ocorram noutros lugares não servem de refrigério para as nossas, e uma TV emparvecedora bem pode ser uma desgraça nacional. Dir se á, e bem, que a RTP não é, nesta óptica, a pior das estações portuguesas de televisão, e é verdade. Mas é claro que a RTP tem, por força da sua condição de empresa situada na área estatal, específicas obrigações de utilidade nacional que não cabem às suas concorrentes.
E preciso registar ainda que, para dar resposta aos telespectadores descontentes, o dr. Paquete de Oliveira chamou perante as câmaras o director da «2:», Jorge Wemans, que entre outras razões alegou que um entendimento moderno da cultura contempla o conjunto de saberes dispersos por diversas áreas, de onde, decerto, não só a dispersão de matérias abordadas por várias rubricas da «2:» como a quase exclusão, ou exclusão mesmo, de géneros com tradicional presença numa cultura de carácter geral: o teatro, a ópera, a chamada grande música, a pintura e outras artes visuais. Com o indispensável respeito pela modernidade desta visão, nota-se que canais cujas direcções não serão talvez obsoletas como o «Mezzo», o «ARTE» e mesmo o «People & Arts" nos seus melhores momentos, aplicam se a transmitir aqueles géneros. Mas o desterro para a «2:» de quanto tenha um ar de cultural podia, pelo menos, ser compensado por chamadas de atenção e estímulos transmitidos pela RTP 1. Não são. Regressa a inquietante dúvida: será porque «quanto mais ignorantes melhor para os governantes»?


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