A luz crua da verdade
Ainda sobre o próximo referendo acerca da interrupção voluntária da gravidez (IVG), agora enviada ao Tribunal Constitucional, declarou D. José Policarpo denunciando nas suas palavras um grande embaraço dos bispos portugueses: «Estamos dispostos a amar e mesmo a compreender todas as mulheres que vivem esse drama; mas não podemos dar o nosso apoio a uma lei que relativiza o valor da vida.» Há nestas palavras uma confusa mistura da linguagem dos sentidos e de retórica canónica. E destaca-se a evidência de que a igreja é incapaz de falar claro quando as questões exigem clareza. Não porque ao cardeal patriarca falte oratória e poder de comunicação. Mas até parece que a igreja, ao mostrar-se incapaz de confessar a verdade sobre si própria, caminha pelo tacto na escuridão de um beco sem saída. Grande exagero. Percebe-se que esta imagem de grave embaraço não é verdadeira.
A prova de que assim é deu-a, logo em seguida, o bispo de Lisboa ao enunciar um verdadeiro programa de Estado a ser conduzido pela igreja. Sem revelar hesitações ou angústias, declarou: «A Igreja Católica deve defender corajosamente a Vida para proteger os mais pobres, desprotegidos, ameaçados e injustamente tratados. As crianças abandonadas, a velhice desamparada, a pobreza não socorrida, a solidão não visitada, são exigências contínuas da Caridade.»
A doutrina católica tem um saco fundo onde tudo cabe.
A escada de caracol
Em termos físicos, uma escada de caracol tem características próprias. Como qualquer outra escada, sobe-se degrau a degrau. Mas as voltinhas que dá impedem-nos de ver quem é que a sobe ou quem a desce. A igreja de D. José e o PS de Sócrates fazem incansavelmente esses percursos. E como a escada é longa, cruzam-se, conversam e abraçam-se nos mais diversos patamares. Nos do Ensino, da Saúde, da Segurança Social, das Tecnologias, do Pré-Escolar, do Emprego, do Imobiliário, do Património Cultural, do TGV, do Combate à Pobreza, do Ordenamento do Território - e assim por diante, até ao infinito. É uma escada que nunca mais acaba. Em todos os andares dá para um labirinto cruzado de portas e corredores.
Falando do governo de Sócrates, disse o cardeal-patriarca que admirava a sua capacidade de decisão. Sócrates compreendeu o sinal e declarou, de imediato, que a sociedade portuguesa precisava, como aconteceu com os espanhóis, de uma movida das suas atitudes. Se descodificarmos o discurso de Sócrates traduzindo-o pelos significados mais usados pelos capitalistas, teremos Opus Dei em vez de espanhóis e metanóia (na doutrina, «mudança de mentalidades») em lugar de movida. Os grandes espíritos sempre se encontram!
O entendimento entre a igreja e o PS não vem de agora. Que o digam Guterres, Roberto Carneiro, Vera Jardim ou tantos outros. Que o diga, sobretudo, Mário Soares, o republicano laico que é íntimo de Frank Carlluci e da Comunidade de Santo Egídio. Não estamos a falar de pequenos fluxos de dinheiro mas de meganegócios como os do circuito dos Grandes Santuários e do turismo religioso (TGV), do negócio imobiliário, do monopólio das lotarias ou da cedência à igreja e à internacional capitalista das competências do Estado no Ensino, na Saúde e na Segurança Social. Em todas estas gigantescas operações, as mais poderosas Fundações dão-se as mãos. O Instituto de Massachussets, a Carnagie Mellon, a NASA, a Aga Kahn, a Universidade do Texas, todos os abutres do capitalismo esvoaçam sobre Portugal. São estes e muitos mais. Mas mesmo apenas estes detêm, no seu conjunto, um poder económico muito superior ao produto anual português.
Os bispos esfregam as mãos, de contentes. Não há a mínima dúvida de que as universidades e as escolas católicas irão ser as principais fornecedoras de quadros ao poder da ditadura do capital que se prepara nos bastidores. Aliás, a igreja portuguesa também possui Fundações capazes de ombrear com as americanas: a UCP, a Fundação Evangelização e Culturas, a Misericórdia de Lisboa e a União das Misericórdias, as Federações dos Institutos Religiosos, a AESE, todas estas organizações têm um nível europeu e dominam enormes capitais.
Sócrates, tal como Guerres e Cavaco Silva, tudo cilindram à sua volta, sem se preocuparem em repor ou substituir. O que nada admira. É na entrega oculta do país aos mais ricos que devemos procurar o modelo da nova sociedade em cuja construção tanto se afadigam os grandes empresários, as transnacionais, as forças da direita e a hierarquia católica. Viu-se bem nas palavras de D. José Policarpo: elogiou Sócrates por governar. Mas nada disse acerca do desemprego, da corrupção e da miséria. Nem falou nos lucros bancários e na gritante injustiça social.
Silenciou o crime.
A prova de que assim é deu-a, logo em seguida, o bispo de Lisboa ao enunciar um verdadeiro programa de Estado a ser conduzido pela igreja. Sem revelar hesitações ou angústias, declarou: «A Igreja Católica deve defender corajosamente a Vida para proteger os mais pobres, desprotegidos, ameaçados e injustamente tratados. As crianças abandonadas, a velhice desamparada, a pobreza não socorrida, a solidão não visitada, são exigências contínuas da Caridade.»
A doutrina católica tem um saco fundo onde tudo cabe.
A escada de caracol
Em termos físicos, uma escada de caracol tem características próprias. Como qualquer outra escada, sobe-se degrau a degrau. Mas as voltinhas que dá impedem-nos de ver quem é que a sobe ou quem a desce. A igreja de D. José e o PS de Sócrates fazem incansavelmente esses percursos. E como a escada é longa, cruzam-se, conversam e abraçam-se nos mais diversos patamares. Nos do Ensino, da Saúde, da Segurança Social, das Tecnologias, do Pré-Escolar, do Emprego, do Imobiliário, do Património Cultural, do TGV, do Combate à Pobreza, do Ordenamento do Território - e assim por diante, até ao infinito. É uma escada que nunca mais acaba. Em todos os andares dá para um labirinto cruzado de portas e corredores.
Falando do governo de Sócrates, disse o cardeal-patriarca que admirava a sua capacidade de decisão. Sócrates compreendeu o sinal e declarou, de imediato, que a sociedade portuguesa precisava, como aconteceu com os espanhóis, de uma movida das suas atitudes. Se descodificarmos o discurso de Sócrates traduzindo-o pelos significados mais usados pelos capitalistas, teremos Opus Dei em vez de espanhóis e metanóia (na doutrina, «mudança de mentalidades») em lugar de movida. Os grandes espíritos sempre se encontram!
O entendimento entre a igreja e o PS não vem de agora. Que o digam Guterres, Roberto Carneiro, Vera Jardim ou tantos outros. Que o diga, sobretudo, Mário Soares, o republicano laico que é íntimo de Frank Carlluci e da Comunidade de Santo Egídio. Não estamos a falar de pequenos fluxos de dinheiro mas de meganegócios como os do circuito dos Grandes Santuários e do turismo religioso (TGV), do negócio imobiliário, do monopólio das lotarias ou da cedência à igreja e à internacional capitalista das competências do Estado no Ensino, na Saúde e na Segurança Social. Em todas estas gigantescas operações, as mais poderosas Fundações dão-se as mãos. O Instituto de Massachussets, a Carnagie Mellon, a NASA, a Aga Kahn, a Universidade do Texas, todos os abutres do capitalismo esvoaçam sobre Portugal. São estes e muitos mais. Mas mesmo apenas estes detêm, no seu conjunto, um poder económico muito superior ao produto anual português.
Os bispos esfregam as mãos, de contentes. Não há a mínima dúvida de que as universidades e as escolas católicas irão ser as principais fornecedoras de quadros ao poder da ditadura do capital que se prepara nos bastidores. Aliás, a igreja portuguesa também possui Fundações capazes de ombrear com as americanas: a UCP, a Fundação Evangelização e Culturas, a Misericórdia de Lisboa e a União das Misericórdias, as Federações dos Institutos Religiosos, a AESE, todas estas organizações têm um nível europeu e dominam enormes capitais.
Sócrates, tal como Guerres e Cavaco Silva, tudo cilindram à sua volta, sem se preocuparem em repor ou substituir. O que nada admira. É na entrega oculta do país aos mais ricos que devemos procurar o modelo da nova sociedade em cuja construção tanto se afadigam os grandes empresários, as transnacionais, as forças da direita e a hierarquia católica. Viu-se bem nas palavras de D. José Policarpo: elogiou Sócrates por governar. Mas nada disse acerca do desemprego, da corrupção e da miséria. Nem falou nos lucros bancários e na gritante injustiça social.
Silenciou o crime.