O furacão Chávez – 2 (conclusão)
Um dos aspectos interessantes do discurso de Hugo Chávez na Assembleia Geral das Nações Unidas é que se socorreu de autores estadunidenses para apoiar os seus pontos de vistas anti-imperialistas, ali mesmo no ventre do monstro.
Não é revelar nenhum segredo de Estado dizer que o povo dos Estados Unido lê pouco e que a sua grande maioria sabe que está em guerra contra o Iraque e o Afeganistão, que essas agressões estão a causar a morte de milhares de soldados seus… mas não tem ideia alguma de onde ficam esses países. Chávez demonstrou que falando ao povo de Hemingway de bons livros, alguns milhares de pessoas podem interessar-se por eles. Durante a sua intervenção, deitou mão de um livro recente de Noam Chomsky [1] e disse que ali se explicava como é que Bush se propunha dominar o mundo. Os resultados foram imediatos e as vendas do livro subiram meteoricamente. Na mesma intervenção, e tenho ainda o livro de Chomsky nas mãos, elogiou outro estadunidense, John Kenneth Galbraith, e lamentou não o ter conhecido nunca em vida, apesar de ter feito esforços nesse sentido.
Não sabemos se movidos pelo ódio, pela incapacidade de análise do discurso, pela manipulação ou pela falta de vergonha – ou talvez por todas estas razões e muitas mais – logo a imprensa imperial, com o New York Times à frente, «anunciou» em nota assinada que Chávez tinha «lacunas mentais» e tinha matado Chomsky. Em minutos, a notícia correu célere pelas ondas hertizianas e chegou a todos os média. Na Venezuela, a reacção desfraldou as bandeiras e os principais jornais, sem o mínimo critério de análise, sem se darem sequer ao trabalho de escutar a gravação, cacarejaram: «O presidente ‘matou’ Chomsky!» E certamente haverá mesmo quem acredite que Hugo Chávez matou o escritor, assim sem aspas.
Ora a verdade é que quem ouvir o discurso, ainda que seja uma só vez, fica logo esclarecido. Chávez fala de Chomsky, recomenda o livro e falou depois de Kenneth Galbraith, lamentando não o ter conhecido.
Tudo muito simples. Mas sabe-se que uma mentira repetida mil vezes… gente um pouco mais séria que a já mencionada fez o que era mínimo fazer: ouvir o discurso. Foi o caso da BBC. Ainda que tendenciosamente antichavista e de originalmente ter caído na mesma rasteira, deu o dito por não dito no dia 30 de Setembro [2] . O mea culpa é assim: «A frase que Chávez pronunciou é um pouco confusa, mas basta escutá-la três vezes para perceber que o presidente estava a falar de Galbraith e não de Chomsky [3] »
É fartar, vilanagem! Provoca o império e provocam os cachorros…
Mas houve mais «casos» destes. O presidente da Guatemala, peão do regime de Bush para evitar que Venezuela entre para o Conselho de Segurança, inventou umas declarações contra Caracas nada mais do que na boca de Koffi Anam, mas isso fica para a próxima vez.
Incidente em Nova Iorque
Incidente no aeroporto de Nova Iorque. O incidente teve tanto de paranóia como de provocação. Poucos dias depois do discurso de Hugo Chávez na Assembleia Geral da ONU, o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, é obrigado a um processo humilhante de segurança e quando se identifica como diplomata a situação põe-se ainda pior. É retido no aeroporto até perder o avião em que devia regressar a Caracas, impedido de contactar os seus colegas de delegação e ameaçado de ser espancado e algemado… entre outros crimes porque tinha comprado os bilhetes não com cartão de crédito mas em numerário!
A notícia deu rapidamente a volta ao mundo e, numa conferência de imprensa, já na embaixada venezuelana, Nicolás Maduro fez uma denúncia minuciosa da provocação de que fora objecto, o que obrigou o regime de Bush a uma desculpa formal diplomática, que não evitará que a discussão do caso passe a outra instância, no seio da ONU, que, uma vez mais se prova, não deve continuar num país cuja tradição não é a de respeitar o direito internacional mas sim o contrário.
[1] Hegemony or Survival, 2003
[2] Ver nota completa em
news.bbc.co.uk/hi/spanish/latin_america/newsid_5394000/5394726.stm
[3] Para ouvir o discurso entrar em http://www.youtube.com/results?search_query=hugo+chavez+chomsky&search=Search e buscar o ficheiro Who Killed Noam Chomsky?
Não é revelar nenhum segredo de Estado dizer que o povo dos Estados Unido lê pouco e que a sua grande maioria sabe que está em guerra contra o Iraque e o Afeganistão, que essas agressões estão a causar a morte de milhares de soldados seus… mas não tem ideia alguma de onde ficam esses países. Chávez demonstrou que falando ao povo de Hemingway de bons livros, alguns milhares de pessoas podem interessar-se por eles. Durante a sua intervenção, deitou mão de um livro recente de Noam Chomsky [1] e disse que ali se explicava como é que Bush se propunha dominar o mundo. Os resultados foram imediatos e as vendas do livro subiram meteoricamente. Na mesma intervenção, e tenho ainda o livro de Chomsky nas mãos, elogiou outro estadunidense, John Kenneth Galbraith, e lamentou não o ter conhecido nunca em vida, apesar de ter feito esforços nesse sentido.
Não sabemos se movidos pelo ódio, pela incapacidade de análise do discurso, pela manipulação ou pela falta de vergonha – ou talvez por todas estas razões e muitas mais – logo a imprensa imperial, com o New York Times à frente, «anunciou» em nota assinada que Chávez tinha «lacunas mentais» e tinha matado Chomsky. Em minutos, a notícia correu célere pelas ondas hertizianas e chegou a todos os média. Na Venezuela, a reacção desfraldou as bandeiras e os principais jornais, sem o mínimo critério de análise, sem se darem sequer ao trabalho de escutar a gravação, cacarejaram: «O presidente ‘matou’ Chomsky!» E certamente haverá mesmo quem acredite que Hugo Chávez matou o escritor, assim sem aspas.
Ora a verdade é que quem ouvir o discurso, ainda que seja uma só vez, fica logo esclarecido. Chávez fala de Chomsky, recomenda o livro e falou depois de Kenneth Galbraith, lamentando não o ter conhecido.
Tudo muito simples. Mas sabe-se que uma mentira repetida mil vezes… gente um pouco mais séria que a já mencionada fez o que era mínimo fazer: ouvir o discurso. Foi o caso da BBC. Ainda que tendenciosamente antichavista e de originalmente ter caído na mesma rasteira, deu o dito por não dito no dia 30 de Setembro [2] . O mea culpa é assim: «A frase que Chávez pronunciou é um pouco confusa, mas basta escutá-la três vezes para perceber que o presidente estava a falar de Galbraith e não de Chomsky [3] »
É fartar, vilanagem! Provoca o império e provocam os cachorros…
Mas houve mais «casos» destes. O presidente da Guatemala, peão do regime de Bush para evitar que Venezuela entre para o Conselho de Segurança, inventou umas declarações contra Caracas nada mais do que na boca de Koffi Anam, mas isso fica para a próxima vez.
Incidente em Nova Iorque
Incidente no aeroporto de Nova Iorque. O incidente teve tanto de paranóia como de provocação. Poucos dias depois do discurso de Hugo Chávez na Assembleia Geral da ONU, o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, é obrigado a um processo humilhante de segurança e quando se identifica como diplomata a situação põe-se ainda pior. É retido no aeroporto até perder o avião em que devia regressar a Caracas, impedido de contactar os seus colegas de delegação e ameaçado de ser espancado e algemado… entre outros crimes porque tinha comprado os bilhetes não com cartão de crédito mas em numerário!
A notícia deu rapidamente a volta ao mundo e, numa conferência de imprensa, já na embaixada venezuelana, Nicolás Maduro fez uma denúncia minuciosa da provocação de que fora objecto, o que obrigou o regime de Bush a uma desculpa formal diplomática, que não evitará que a discussão do caso passe a outra instância, no seio da ONU, que, uma vez mais se prova, não deve continuar num país cuja tradição não é a de respeitar o direito internacional mas sim o contrário.
[1] Hegemony or Survival, 2003
[2] Ver nota completa em
news.bbc.co.uk/hi/spanish/latin_america/newsid_5394000/5394726.stm
[3] Para ouvir o discurso entrar em http://www.youtube.com/results?search_query=hugo+chavez+chomsky&search=Search e buscar o ficheiro Who Killed Noam Chomsky?