Um jornal de batalha
Os sobreviventes do «Portugal Democrático» comemoraram em Julho o lançamento há meio século do primeiro número daquele jornal.
Mas não foi tão longa a sua vida. Apareceu em 1956 e a última edição saiu no dia 25 de Abril de 1975, uma data simbólica, no aniversário da Revolução.
Durante duas décadas esse mensário foi a voz dos antifascistas da diáspora portuguesa.
Fundado em São Paulo por um punhado de resistentes no qual foi determinante a acção de dois comunistas – Manuel Moura, um ex-trabalhador da Sóda Póvoa, de Vila Franca, e Vítor Ramos, um jovem professor universitário –, o PD teve uma arrancada difícil. Sem recursos financeiros e hostilizado desde o início pela cúpula reaccionária da «colónia» – como então se dizia – o jornal adquiriu projecção nos meios sindicais e universitários paulistas após as eleições fraudulentas de 1958. Mas foi sobretudo a partir do início da guerra colonial que passou a desempenhar um papel insubstituível como elo de ligação entre os núcleos de antifascistas portugueses em todo o continente americano e simultaneamente como órgão de informação e opinião sobre a realidade portuguesa.
Em nenhum outro jornal português colaboraram tantos exilados como no PD. Nas suas colunas escreveram, entre outros, Humberto Delgado, Rui Luís Gomes, João Sarmento Pimentel, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Manuel Sertório, Fernando Lemos, Castro Soromenho, José Morgado, Vítor da Cunha Rego, Piteira Santos, Pedro Soares, Ramos de Almeida, Zaluar Nunes.
A relação entre o PD e a intelligentsia revolucionária brasileira foi tão íntima que, quer através de artigos quer em iniciativas do jornal, participaram personalidades brasileiras de envergadura internacional como Florestan Fernandes, Álvaro Lins, Fernando Henrique Cardoso, António Cândido, Paulo Duarte, Lígia Fagundes Telles, Helena Silveira, Mário Schemberg e Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
Dirigentes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas foram também colaboradores do PD, com destaque para Amílcar Cabral, que assinava os seus artigos com o pseudónimo de Abel Djassi.
Com a implantação da ditadura dos generais, em Abril de 64, a continuação do jornal colocou ao seu colectivo problemas cada vez mais complexos. A decisão de prosseguir era muito arriscada e provocou afastamentos. Foi correcta. Com um Conselho de Redacção renovado, o PD, ao manter a sua linha ideológica progressista, de defesa da unidade e de combate intransigente ao fascismo, ao colonialismo e ao imperialismo, adquiriu um grande prestígio entre as forças democráticas do Brasil. Na Universidade de São Paulo, professores e estudantes, saudando a nossa combatividade e firmeza, diziam que o PD era então o único jornal de esquerda legal no país…
Os mosqueteiros
O comentário não traduzia com rigor a realidade. O jornal era formalmente legal, mas a organização que o produzia era clandestina e o Conselho de Redacção constituído quase exclusivamente por militantes do Partido Comunista Português. Nesses anos de repressão violenta, sobretudo após o Acto Institucional n.º 5, passaram pelo Conselho de Redacção Augusto Aragão, Vítor Ramos, Joaquim Barradas de Carvalho, Manuel Sertório, Joaquim Quitério, Bidarra da Fonseca, Francisco Vidal e eu próprio. Mas a cooperação entre os que escreviam e os que desempenhavam tarefas fundamentais na administração, o Manuel Rocheta e o Joaquim José, na revisão e paginação, o Hélder Costa, na distribuição e recolha de fundos, o Alexandre Pereira e o Alfredo Masson era permanente, íntima.
A equipa era, aliás, mais ampla. Na certeza de que não menciono todos, cito, pela contribuição prestada na promoção e defesa do PD, Álvaro Veiga de Oliveira, Myre Dores, Alexandre Leal, Silvério Letra, Manuel Rodrigues, Manuela Antunes, Manuel Soares, António Baia, Algodres, Abílio Rodrigues, Ildefonso Garcia, Lenine de Jesus, Ramos, Mário Bodas, Eugénio Mercês, António Bravo, Lourenço Neto. Nem todos eram comunistas, mas nos anos mais difíceis foram exemplares na dedicação ao jornal. Dois amigos brasileiros que foram maravilhosos na solidariedade: Octávio Moura e, depois, Edison Rodrigues Chaves, directores legais do PD, e Sylvio Band e Dulce Ramos, proprietários do jornal, também para cumprimento da lei brasileira. Rodolfo Konder ajudou muito após o 25 de Abril.
Poucos desses combatentes vivem ainda. Alguns, por motivos diferentes, distanciaram-se da opção revolucionária.
Mas, como já escrevi algures, naqueles anos em que o terrorismo de Estado no Brasil lembrava o do III Reich nazi, a circunstância histórica e o espírito militante contribuíram para fazer do colectivo do PD uma organização de combatentes que ali desenvolveram as suas melhores potencialidades como homens e revolucionários. Formamos uma força de batalha. Esse núcleo, «sempre disponível para a luta, de uma solidariedade granítica, tornando real a máxima ‘todos por um, um por todos’, conseguiu fazer da camaradagem amizade». Em são Paulo aparecíamos à juventude revolucionária como «os mosqueteiros do Partido Comunista Português».
Aquele maravilhoso colectivo permaneceu no meu imaginário como a confirmação de que, em períodos excepcionais, o sonho do homem novo quase se faz realidade.
O 25 de Abril significou o fim do exílio para alguns desses combatentes que logo regressaram a Portugal para se colocarem à disposição do Partido. Mas o PD, mantido pelos que permaneceram no Brasil, só publicou o seu último número transcorrido um ano, mo primeiro aniversário da Revolução.
Mas não foi tão longa a sua vida. Apareceu em 1956 e a última edição saiu no dia 25 de Abril de 1975, uma data simbólica, no aniversário da Revolução.
Durante duas décadas esse mensário foi a voz dos antifascistas da diáspora portuguesa.
Fundado em São Paulo por um punhado de resistentes no qual foi determinante a acção de dois comunistas – Manuel Moura, um ex-trabalhador da Sóda Póvoa, de Vila Franca, e Vítor Ramos, um jovem professor universitário –, o PD teve uma arrancada difícil. Sem recursos financeiros e hostilizado desde o início pela cúpula reaccionária da «colónia» – como então se dizia – o jornal adquiriu projecção nos meios sindicais e universitários paulistas após as eleições fraudulentas de 1958. Mas foi sobretudo a partir do início da guerra colonial que passou a desempenhar um papel insubstituível como elo de ligação entre os núcleos de antifascistas portugueses em todo o continente americano e simultaneamente como órgão de informação e opinião sobre a realidade portuguesa.
Em nenhum outro jornal português colaboraram tantos exilados como no PD. Nas suas colunas escreveram, entre outros, Humberto Delgado, Rui Luís Gomes, João Sarmento Pimentel, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Manuel Sertório, Fernando Lemos, Castro Soromenho, José Morgado, Vítor da Cunha Rego, Piteira Santos, Pedro Soares, Ramos de Almeida, Zaluar Nunes.
A relação entre o PD e a intelligentsia revolucionária brasileira foi tão íntima que, quer através de artigos quer em iniciativas do jornal, participaram personalidades brasileiras de envergadura internacional como Florestan Fernandes, Álvaro Lins, Fernando Henrique Cardoso, António Cândido, Paulo Duarte, Lígia Fagundes Telles, Helena Silveira, Mário Schemberg e Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
Dirigentes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas foram também colaboradores do PD, com destaque para Amílcar Cabral, que assinava os seus artigos com o pseudónimo de Abel Djassi.
Com a implantação da ditadura dos generais, em Abril de 64, a continuação do jornal colocou ao seu colectivo problemas cada vez mais complexos. A decisão de prosseguir era muito arriscada e provocou afastamentos. Foi correcta. Com um Conselho de Redacção renovado, o PD, ao manter a sua linha ideológica progressista, de defesa da unidade e de combate intransigente ao fascismo, ao colonialismo e ao imperialismo, adquiriu um grande prestígio entre as forças democráticas do Brasil. Na Universidade de São Paulo, professores e estudantes, saudando a nossa combatividade e firmeza, diziam que o PD era então o único jornal de esquerda legal no país…
Os mosqueteiros
O comentário não traduzia com rigor a realidade. O jornal era formalmente legal, mas a organização que o produzia era clandestina e o Conselho de Redacção constituído quase exclusivamente por militantes do Partido Comunista Português. Nesses anos de repressão violenta, sobretudo após o Acto Institucional n.º 5, passaram pelo Conselho de Redacção Augusto Aragão, Vítor Ramos, Joaquim Barradas de Carvalho, Manuel Sertório, Joaquim Quitério, Bidarra da Fonseca, Francisco Vidal e eu próprio. Mas a cooperação entre os que escreviam e os que desempenhavam tarefas fundamentais na administração, o Manuel Rocheta e o Joaquim José, na revisão e paginação, o Hélder Costa, na distribuição e recolha de fundos, o Alexandre Pereira e o Alfredo Masson era permanente, íntima.
A equipa era, aliás, mais ampla. Na certeza de que não menciono todos, cito, pela contribuição prestada na promoção e defesa do PD, Álvaro Veiga de Oliveira, Myre Dores, Alexandre Leal, Silvério Letra, Manuel Rodrigues, Manuela Antunes, Manuel Soares, António Baia, Algodres, Abílio Rodrigues, Ildefonso Garcia, Lenine de Jesus, Ramos, Mário Bodas, Eugénio Mercês, António Bravo, Lourenço Neto. Nem todos eram comunistas, mas nos anos mais difíceis foram exemplares na dedicação ao jornal. Dois amigos brasileiros que foram maravilhosos na solidariedade: Octávio Moura e, depois, Edison Rodrigues Chaves, directores legais do PD, e Sylvio Band e Dulce Ramos, proprietários do jornal, também para cumprimento da lei brasileira. Rodolfo Konder ajudou muito após o 25 de Abril.
Poucos desses combatentes vivem ainda. Alguns, por motivos diferentes, distanciaram-se da opção revolucionária.
Mas, como já escrevi algures, naqueles anos em que o terrorismo de Estado no Brasil lembrava o do III Reich nazi, a circunstância histórica e o espírito militante contribuíram para fazer do colectivo do PD uma organização de combatentes que ali desenvolveram as suas melhores potencialidades como homens e revolucionários. Formamos uma força de batalha. Esse núcleo, «sempre disponível para a luta, de uma solidariedade granítica, tornando real a máxima ‘todos por um, um por todos’, conseguiu fazer da camaradagem amizade». Em são Paulo aparecíamos à juventude revolucionária como «os mosqueteiros do Partido Comunista Português».
Aquele maravilhoso colectivo permaneceu no meu imaginário como a confirmação de que, em períodos excepcionais, o sonho do homem novo quase se faz realidade.
O 25 de Abril significou o fim do exílio para alguns desses combatentes que logo regressaram a Portugal para se colocarem à disposição do Partido. Mas o PD, mantido pelos que permaneceram no Brasil, só publicou o seu último número transcorrido um ano, mo primeiro aniversário da Revolução.