À procura de «O Maior»
«Os Grandes Portugueses», grande programa/plebiscito da Radiotelevisão Portuguesa, é apresentado por Maria Elisa, forçada a regressar de Londres para a televisão. Não parece muito bem, muito adequado: embora Maria Elisa seja uma das figuras mais antigas da RTP (estreou-se em 73 num programa que terá tentado aproveitar, embora sem exageros, algum sopro da suposta brisa primaveril do consulado de Marcelo), não é suficientemente antiga para dar imagem e voz a um programa que reedita de facto uma ideia quase arcaica, a de que o importante na História de um povo não é esse povo mas sim as figuras que vetustos manuais escolares acolhem e a quem chamam «heróis» com armas ou sem elas. Em verdade, já se supunha que esse entendimento estaria irremediavelmente arquivado, teria sido coisa para o Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro, quando muito para os manuais de História de José Mattoso (e ainda assim…). Mas não: pelos vistos é também coisa para o dr. Almerindo Marques ou para alguém por ele. Com uma atenuante que é de elementar justiça registar: também noutros países a mesma eleição popular se realizou, também por lá aparentemente se regressou ao culto oficioso, se não oficial, da grande figura, do herói, como objecto de culto nacional e, naturalmente, patriótico. Mas o que se viu? Viu-se que em França o nome mais votado como o maior francês de sempre não foi Descartes, nem Pasteur, nem Victor Hugo, mas sim o general Charles De Gaule, isto é, um sujeito que se diria ter estado na TV francesa ainda há poucos dias. E na Grã-Bretanha o homem designado como o maior inglês de sempre não foi Newton, sem Shakespear, nem sequer Alexander Fleming, mas sim William Churchill. E na Alemanha não foi Beethoven, nem Goethe, nem Kant, mas sim o chanceler Konrad Adenauer. Quanto aos Estados Unidos que, como se sabe, têm a história muito curta e não exageradamente atulhada de grandes figuras, poderia ter sido escolhido Franklin, Faulkner ou Gershwin, mas foi eleito Ronald Reagan! Em suma, os escolhidos pelo voto popular foram sempre sujeitos do nosso tempo ou pelo menos de tempos recentes, de onde se depreende que a massa votante se esteve razoavelmente nas tintas para a História, com perdão da expressão um pouco desrespeitosa.
Uma lista sem o Botas?
Em face disto, é natural que se preveja que o eleitorado lusitano chamado a designar o maior português de sempre não se vai lembrar muito de Pedro Nunes, de Damião de Góis, de Carlos Seixas, de Domingos Bontempo, mesmo de Eça, de gente assim. Vai lembrar-se de Amália, isso é garantido, e até o dr. Vasco Pulido Valente já botou crónica a propósito de um cartaz que por aí anda e que propõe, a título de exemplo, a escolha entre a diva e D. Afonso Henriques (quem diria que o olhar do senhor doutor também pousava sobre cartazes olhados pela generalidade da população medíocre que ele manifestamente despreza!). Aliás, nas entrevistas de rua incluídas no programa apresentado por Maria Elisa muitos cidadãos abordados citaram nomes que deram saborosa prova do apego da memória daqueles eventuais votantes à contemporaneidade ou pelo menos a tempos recentes: Eusébio, Vasco Santana, Alfredo Marceneiro, António Variações, a par de Figo e de Cristiano Ronaldo, foram alguns dos citados como «o maior português de sempre». Era patusco se não fosse ridículo, era ridículo se não fosse tristíssimo. Mas é por esta absoluta falta de perspectiva histórica e cultural que alguns rapazes de boa vontade decidiram tentar relançar também por esta via o processo de branqueamento da imagem pública do doutor Salazar. Com alguns argumentos possíveis e interessantes, devo confessá-lo: foi Salazar o português que introduziu na nossa História a realidade dos campos de concentração, que conferiu à política um estatuto de serviço público internacionalizado graças à sua cooperação com os assassinos franquistas e, em fase posterior, com a Gestapo irmã. Terá sido por isso, suponho, que alguns sujeitos se sentiram incomodados pela suposta exclusão do Botas de uma lista de candidatos prévios que afinal nunca existiu, ao contrário do que o desatento professor Marcelo terá crido. Porém, tudo isto são condimentos complementares em torno do grande sentido que está inevitavelmente subjacente ao plebiscito: a substituição do povo pelos «senhores», da malta das naus pelos capitães, dos peões de Aljubarrota por D. Nuno. O regresso a um entendimento da História em que, dos portugueses, contam apenas os «grandes» e são omitidos os pequenos. Isto é, os que sofreram, lutaram, pagaram.
Uma lista sem o Botas?
Em face disto, é natural que se preveja que o eleitorado lusitano chamado a designar o maior português de sempre não se vai lembrar muito de Pedro Nunes, de Damião de Góis, de Carlos Seixas, de Domingos Bontempo, mesmo de Eça, de gente assim. Vai lembrar-se de Amália, isso é garantido, e até o dr. Vasco Pulido Valente já botou crónica a propósito de um cartaz que por aí anda e que propõe, a título de exemplo, a escolha entre a diva e D. Afonso Henriques (quem diria que o olhar do senhor doutor também pousava sobre cartazes olhados pela generalidade da população medíocre que ele manifestamente despreza!). Aliás, nas entrevistas de rua incluídas no programa apresentado por Maria Elisa muitos cidadãos abordados citaram nomes que deram saborosa prova do apego da memória daqueles eventuais votantes à contemporaneidade ou pelo menos a tempos recentes: Eusébio, Vasco Santana, Alfredo Marceneiro, António Variações, a par de Figo e de Cristiano Ronaldo, foram alguns dos citados como «o maior português de sempre». Era patusco se não fosse ridículo, era ridículo se não fosse tristíssimo. Mas é por esta absoluta falta de perspectiva histórica e cultural que alguns rapazes de boa vontade decidiram tentar relançar também por esta via o processo de branqueamento da imagem pública do doutor Salazar. Com alguns argumentos possíveis e interessantes, devo confessá-lo: foi Salazar o português que introduziu na nossa História a realidade dos campos de concentração, que conferiu à política um estatuto de serviço público internacionalizado graças à sua cooperação com os assassinos franquistas e, em fase posterior, com a Gestapo irmã. Terá sido por isso, suponho, que alguns sujeitos se sentiram incomodados pela suposta exclusão do Botas de uma lista de candidatos prévios que afinal nunca existiu, ao contrário do que o desatento professor Marcelo terá crido. Porém, tudo isto são condimentos complementares em torno do grande sentido que está inevitavelmente subjacente ao plebiscito: a substituição do povo pelos «senhores», da malta das naus pelos capitães, dos peões de Aljubarrota por D. Nuno. O regresso a um entendimento da História em que, dos portugueses, contam apenas os «grandes» e são omitidos os pequenos. Isto é, os que sofreram, lutaram, pagaram.