A Convenção dos Tubarões

Jorge Messias
Realizou-se a segunda convenção do movimento Compromisso Portugal. Aparentemente, o acontecimento não teve grande projecção. Os predadores limitaram-se a recordar propostas antigas das suas associações e o encontro apenas durou um dia. Inocente, António Carrapatoso, presidente da Vodafone e cara mais visível do Compromisso, chegou a dizer em público: «O Compromisso é um lóbi, mas apenas de cidadania... Somos revolucionários!». É preciso ter completa falta de vergonha.
E disse mais. Declarou que a intenção do movimento não é política. O seu objectivo é reflectir e apontar caminhos. Ideias claramente copiadas dos manuais da SEDES e do Opus Dei. Mas Carrapatoso lá foi avançando com os 15 pontos que o Compromisso considera prioritários e cuja execução a curto prazo exige ao governo do PS. As principais mudanças ditadas pela Convenção dizem respeito às áreas da Segurança Social, da Educação, da Justiça e do Ambiente. Trata-se de poupar, garantem os patrões, qualquer coisa como 5 mil milhões de euros.
Na Função Pública despedem-se ou reformam-se 200 mil trabalhadores. Na Segurança Social criam-se dois níveis: o de cima, o mais rentável, é aquele que inclui os funcionários com maiores remunerações. Terá um financiamento misto, liberalizante, gerido pelo Estado e por grupos privados, nomeadamente os da banca e da gestão de fundos de pensões. Neste caso, todos os funcionários no activo com menos de 55 anos e vencimentos correspondentes a seis salários mínimos, saem do regime geral e passam a descontar para uma conta individual cuja solvência o Estado garantirá. Quanto aos outros trabalhadores, o seu destino será o de terem de continuar a apertar o cinto. Na Educação, exigem os nababos do Beato que se distingam duas grandes áreas, com prioridade absoluta para a primeira delas : a área da qualidade de ensino, participada pelas escolas, institutos e universidades de capitais privados, cujo o mérito o Estado deverá reconhecer e recompensar com o alargamento de subsídios e privilégios; e a área pública de prestação de serviços educacionais, cortando orçamentos e remetendo para uma segunda linha os compromissos que a Constituição assume em relação a todos os níveis do ensino. Na Justiça, propuseram os místicos defensores da Cidadania e da Sociedade Civil uma avaliação prévia da qualidade dos processos enviados aos tribunais. As funções da triagem seriam desempenhadas por gestores da qualidade, também responsáveis pela «gestão dos níveis de serviços, do pessoal administrativo e do orçamento judicial». Finalmente, nas áreas do Ambiente e Ordenamento Territorial, os plutocratas exigem o reforço da cooperação entre os ministérios da tutela, as universidades e as empresas, no sentido da instalação global das «boas práticas de gestão». É necessário, declaram os empresários publicar, quanto antes, o Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território.
Vaidoso, Bagão Félix cantou vitória antes de tempo: «O sistema misto da Segurança Social é a última trincheira da esquerda».

Algumas notas aparte

O governo do PS já veio dizer que estas exigências dos grandes senhores são demagógicas mas que o Executivo «está aberto a avaliar propostas compatíveis». Todos sabemos, por experiência própria, quanto valem as manifestações de indignação do governo do PS. Valem o que valem. Ou seja, não valem coisa nenhuma. Todo a política desenvolvida pela equipa de Sócrates vai no sentido desta imposição patronal. O mesmo acontece relativamente à igreja católica dependente da Conferência Episcopal e do Patriarcado. Estão publicados documentos eclesiásticos que fundamentam esta afirmação.
Na doutrina política do episcopado português vê-se com bons olhos o precipitado declínio do aparelho do Estado. A igreja portuguesa, se tudo correr à medida dos desejos da hierarquia, terá capacidade para substituir o Poder Local pela Sociedade Civil e os vínculos do emprego com garantias pelos da precariedade e do voluntariado, na segurança social, na saúde, no ensino, na infância e na velhice, pela alternativa da acção caritativa da igreja católica. Também nas outras áreas sociais as propostas dos cónegos regrantes do Beato se ajustam como uma luva às pretensões do Patriarcado. Abrem caminho à divisão do país entre os interesses laicos e religiosos, põem ponto final nos delírios democráticos e paralisam a sociedade na base da Santa Aliança entre o dinheiro, a tiara e o poder.
Aos católicos cabe em primeiro lugar dizer se vão tolerar, ou não, estas ambições dos seus bispos. Mas o problema é nacional. Cabe ao povo português chamar à pedra os que se dizem piedosos e pactuam com a fraude e a corrupção.
Basta de escândalos, artifícios e mentiras!


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