O «Grande Zero»

Henrique Custódio
No início da semana a cidade de Beirute beneficiou com algumas horas de acalmia nos intensos bombardeamentos que Israel fez desabar sobre ela, exactamente as horas que foram necessárias para a deslocação à cidade da secretária de Estado dos EUA, a sra. Condolleza Rice, a fingir que está a «mediar» uma guerra desencadeada por Israel contra o Líbano a pretexto de «liquidar» o Hezzbolah e apoiada pela administração Bush, com enorme entusiasmo e empenho.
Como não podia deixar de ser, os três canais generalistas, todos à uma e passando as mesmas imagens enviadas pelas grandes agências norte-americanas, deram a notícia e apresentaram uma novidade: mostraram vários registos da destruição que se abateu sobre Beirute. O caos já é de tal ordem, que um repórter português que se deslocou à cidade martirizada, José Manuel Rosendo da Antena 1 e ao serviço da RTP, citou uma revista libanesa publicada em inglês, que chamava a Beirute «The Ground Zero». A imagem que ilustrava a capa não deixava dúvidas: era de uma semelhança aterradora com as fotos da destruição das Torres Gémeas de Nova Iorque, no atentado de 11 de Setembro…
Assim, o horror da destruição e mortandade que Israel está a lançar em Beirute - mas também já em Tiro e noutras cidades libanesas, além de no Sul do país invadido por tropas terrestres – é de tal dimensão, que os noticiários dos três canais generalistas portugueses, à semelhança do que estão a fazer os seus congéneres na Europa e nos próprios EUA, se viram na inevitabilidade de espelhar a tragédia, acrescentando números que dizem tudo: cerca de 400 mortos libaneses já contabilizados, pelo menos meio milhão de deslocados sem tecto, abrigo, alimento ou sequer água, uma catástrofe humanitária em progresso e ao ritmo de bombardeamentos maciços e constantes há 14 dias consecutivos pela aviação e artilharia israelitas sobre civis indefesos, lançando «bombas inteligentes» vindas às carradas e expressamente dos EUA para os arsenais sionistas.
A contabilidade das vítimas e consequências do lado israelita é também elucidativa dos «equilíbrios» que Israel visa e pratica com esta agressão: meia dúzia de mortos e «algumas dezenas de feridos», segundo a esforçada contabilidade de Márcia Rodrigues, a correspondente enviada pela RTP à cidade israelita de Haifa e que já é a única jornalista portuguesa no terreno que continua, aplicadamente, a ilustrar quanto pode o sofrimento e a angústia vividos nas cidades israelitas por causa dos manifestamente erráticos disparos do Hezzbolah - sobretudo quando comparados com as «bombas inteligentes» -, que nem sequer chegam a desorganizar o trânsito, quanto mais a arrasar por completo quarteirões inteiros, estradas e pontes, como se vê em Beirute, transformando realmente o Líbano num novo e gigantesco «Grande Zero».
Mas como não é em Nova Iorque, quem se importa?

As «manhãs» vão para férias

Como estamos fartos de saber, os três canais generalistas emitem todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, programas de entretenimento que cada vez mais se parecem uns com os outros. A matriz é da RTP, que os começou há mais de uma década, tendo sido imitada rapidamente tanto pela SIC como pela TVI e hoje é o que se vê: na RTP pontifica o Bom Dia Portugal liderado por Jorge Gabriel, na SIC reina o Fátima, da responsabilidade de Fátima Lopes e na TVI está o Você na TV! com José Luís Goucha, o veterano destas andanças que transitou da RTP para a TVI sem que nenhum dos canais ganhasse grande coisa com isso.
Todos se preparam para ir de férias e bem precisados estão: bastou assistir a uma destas suas «manhãs» para se confirmar que todos, mas todos, precisam de profundas reciclagens por tão iguais se apresentarem, incluindo na mediocridade…
Reparem só: todos convidam grupos musicais ou de dança para uns saracoteios em directo, todos levam uns convidados avulso para dar «variedade» ao programa, todos apresentam uns «comentadores» especialistas em fofocas e banalidades, todos animam a festa com «astrólogas ao vivo» e cómicos residentes e, finalmente, todos exibem um paternalismo insuportável com tudo o que lidam e uma alegria empalhada em tudo o que mostram.
Esperemos que as férias os reanime e renove.


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