Mudanças de rumo
Como é próprio da sua natureza e do seu passado, Ratzinger começa a revelar pendor para o exercício da autoridade pessoal na cátedra romana. Há sinais seguros de que isso já está a acontecer.
Navarro-Valls, um poderoso senhor do Opus Dei, leigo da confiança total de João Paulo II, foi porta-voz do Vaticano (cargo semelhante ao de ministro da Informação) durante 22 anos. Após a mudança de papas, Bento XVI despediu-o abruptamente e substituiu-o por monsenhor Lombardi, director da Rádio Vaticano e ex-Provincial da Companhia de Jesus. As razões da mudança não foram esclarecidas embora possam sugerir estarem reabertas as lutas pelo poder eclesiástico que marcaram o início do papado de João Paulo II, quando este decidiu substituir no Vaticano o quadro habitual de colaboradores jesuítas por tecnocratas do Opus Dei e por integristas liderados pelo poderoso clã polaco. Outros cenários confirmam que Ratzinger aceitou agora a aventura de «arrumar a casa», profundamente descrente e desunida.
Noutro caso relatado pela imprensa espanhola, fala-se nos Legionários de Cristo. Foi seu fundador o padre Marcial Maciel, homem extremamente poderoso na Santa Sé, ao longo do magistério do papa polaco. Fundou um poderoso movimento católico ultrafundamentalista que rapidamente se expandiu, conquistou a adesão de dezenas de milionários espanhóis e instalou uma importante rede de seminários, colégios e universidades. A Legião conta actualmente com 500 sacerdotes inscritos, 2500 seminaristas e 65 000 leigos. O padre Maciel, com 86 anos de idade é, segundo se diz, sério candidato ao altar, após a sua morte, nos termos em que foram beatificados homens como Escrivá de Balaguer, Inácio de Loyola ou Francisco de Assis. A força efectiva dos Legionários de Cristo está cotada, no mundo católico, a par do tentacular Opus Dei, da Comunhão e Libertação e dos Catecumenais. Pois foi justamente este intocável que Ratzinger chamou há poucos dias para o demitir de todos os cargos públicos eclesiásticos e para puni-lo com a proibição do exercício dos sacramentos. Isto, porque o padre é reconhecidamente pederasta. Maciel esteve na mira da Congregação para a Defesa da Fé, presidida por Ratzinger, mas sempre foi salvo, no último momento, pela protecção incondicional que João Paulo II nunca lhe recusou.
Os ajustes da História
Um terceiro acontecimento pode ajudar-nos a compreender as mudanças de rumo que se combinam, em segredo, nos bastidores do Vaticano. Nas últimas semanas, antes de ir a Valência, Bento XVI fez uma visita à Polónia. A viagem podia antever-se triunfal, dada a memória recente do papel da igreja no desmembramento do Estado socialista polaco. O que não aconteceu. Na Polónia, a igreja oficial é forte, conservadora e obscurantista. O governo polaco formou-se a partir do Movimento «Lei e Justiça», dominado pelos Padres Redentoristas cujo Superior é um norte-americano, de Detroit. Governa em coligação com outras duas formações católicas ligadas à extrema-direita: a «Liga das Famílias Polacas» e o «Partido da Autodefesa». Sendo certo que o Clã Polaco perdeu influência no Vaticano após a morte de João Paulo II, a sua força continua no entanto bem viva, sobretudo quando colada à ala opusdeísta do Colégio dos Cardeais. Para os polacos, o papa inesquecível continua a ser Wojtyla e não Ratzinger. Bento XVI tem necessariamente consciência desta situação mas optou por desafiar a igreja polaca. Quando o seu avião aterrou em Varsóvia tinha já deliberadamente ateado fogo ao país. Através de uma mensagem que o Núncio Apostólico, seu representante pessoal na Polónia, dirigiu à Conferência Episcopal, o Vaticano censurou a igreja nacional por se imiscuir na vida política enquanto descura os seus deveres pastorais. Política é, para Ratzinger, foro da Cúria. As igrejas locais praticam a Caridade.
Percebe-se que intenções tem Bento XVI. O papa deve ter mão nas forças internas da igreja. Fazer com que cresçam controladamente. Não permitir que se percam nos corredores do mercado. Injectar nos tecnocratas a fé e a obediência ao Papa, em vez da prática corrente que os leva a transferir para o mercado os valores sagrados. E reforçar os acordos com o sistema capitalista, de forma a salvaguardar os privilégios da igreja.
Ratzinger vai tentar impor a sua autoridade. Veremos se tem condições para se fazer obedecer. O autoritarismo, como se sabe, está na base das sociedades que naufragam. Mas para a humanidade também são evidentes os riscos que o avanço paralelo da autoridade pessoal numa igreja amorfa e do império de um só Estado sobre os outros estados mundiais encerra. Seria a Nova Ordem Global, teocrática e monopolista.
Importa resistir, combater, construir de novo.
Navarro-Valls, um poderoso senhor do Opus Dei, leigo da confiança total de João Paulo II, foi porta-voz do Vaticano (cargo semelhante ao de ministro da Informação) durante 22 anos. Após a mudança de papas, Bento XVI despediu-o abruptamente e substituiu-o por monsenhor Lombardi, director da Rádio Vaticano e ex-Provincial da Companhia de Jesus. As razões da mudança não foram esclarecidas embora possam sugerir estarem reabertas as lutas pelo poder eclesiástico que marcaram o início do papado de João Paulo II, quando este decidiu substituir no Vaticano o quadro habitual de colaboradores jesuítas por tecnocratas do Opus Dei e por integristas liderados pelo poderoso clã polaco. Outros cenários confirmam que Ratzinger aceitou agora a aventura de «arrumar a casa», profundamente descrente e desunida.
Noutro caso relatado pela imprensa espanhola, fala-se nos Legionários de Cristo. Foi seu fundador o padre Marcial Maciel, homem extremamente poderoso na Santa Sé, ao longo do magistério do papa polaco. Fundou um poderoso movimento católico ultrafundamentalista que rapidamente se expandiu, conquistou a adesão de dezenas de milionários espanhóis e instalou uma importante rede de seminários, colégios e universidades. A Legião conta actualmente com 500 sacerdotes inscritos, 2500 seminaristas e 65 000 leigos. O padre Maciel, com 86 anos de idade é, segundo se diz, sério candidato ao altar, após a sua morte, nos termos em que foram beatificados homens como Escrivá de Balaguer, Inácio de Loyola ou Francisco de Assis. A força efectiva dos Legionários de Cristo está cotada, no mundo católico, a par do tentacular Opus Dei, da Comunhão e Libertação e dos Catecumenais. Pois foi justamente este intocável que Ratzinger chamou há poucos dias para o demitir de todos os cargos públicos eclesiásticos e para puni-lo com a proibição do exercício dos sacramentos. Isto, porque o padre é reconhecidamente pederasta. Maciel esteve na mira da Congregação para a Defesa da Fé, presidida por Ratzinger, mas sempre foi salvo, no último momento, pela protecção incondicional que João Paulo II nunca lhe recusou.
Os ajustes da História
Um terceiro acontecimento pode ajudar-nos a compreender as mudanças de rumo que se combinam, em segredo, nos bastidores do Vaticano. Nas últimas semanas, antes de ir a Valência, Bento XVI fez uma visita à Polónia. A viagem podia antever-se triunfal, dada a memória recente do papel da igreja no desmembramento do Estado socialista polaco. O que não aconteceu. Na Polónia, a igreja oficial é forte, conservadora e obscurantista. O governo polaco formou-se a partir do Movimento «Lei e Justiça», dominado pelos Padres Redentoristas cujo Superior é um norte-americano, de Detroit. Governa em coligação com outras duas formações católicas ligadas à extrema-direita: a «Liga das Famílias Polacas» e o «Partido da Autodefesa». Sendo certo que o Clã Polaco perdeu influência no Vaticano após a morte de João Paulo II, a sua força continua no entanto bem viva, sobretudo quando colada à ala opusdeísta do Colégio dos Cardeais. Para os polacos, o papa inesquecível continua a ser Wojtyla e não Ratzinger. Bento XVI tem necessariamente consciência desta situação mas optou por desafiar a igreja polaca. Quando o seu avião aterrou em Varsóvia tinha já deliberadamente ateado fogo ao país. Através de uma mensagem que o Núncio Apostólico, seu representante pessoal na Polónia, dirigiu à Conferência Episcopal, o Vaticano censurou a igreja nacional por se imiscuir na vida política enquanto descura os seus deveres pastorais. Política é, para Ratzinger, foro da Cúria. As igrejas locais praticam a Caridade.
Percebe-se que intenções tem Bento XVI. O papa deve ter mão nas forças internas da igreja. Fazer com que cresçam controladamente. Não permitir que se percam nos corredores do mercado. Injectar nos tecnocratas a fé e a obediência ao Papa, em vez da prática corrente que os leva a transferir para o mercado os valores sagrados. E reforçar os acordos com o sistema capitalista, de forma a salvaguardar os privilégios da igreja.
Ratzinger vai tentar impor a sua autoridade. Veremos se tem condições para se fazer obedecer. O autoritarismo, como se sabe, está na base das sociedades que naufragam. Mas para a humanidade também são evidentes os riscos que o avanço paralelo da autoridade pessoal numa igreja amorfa e do império de um só Estado sobre os outros estados mundiais encerra. Seria a Nova Ordem Global, teocrática e monopolista.
Importa resistir, combater, construir de novo.