Os filantropos

Jorge Messias
De uma coisa podemos estar certos. A globalização mostra-se incapaz de deter a vaga de fundo que a sua ganância de saque desencadeou.
Cresce o número dos desempregados e agrava-se a crise económica e financeira. A multidão dos pobres não cessa de aumentar. Há biliões de seres entregues à morte e ao sofrimento. Multiplicam-se as guerras e os que fogem às guerras. O mundo parece prestes a explodir.
Uma outra coisa, no entanto, não devemos também ignorar. Os senhores do dinheiro têm estratégias globais e sectoriais minuciosamente pensadas. Porém, o seu projecto é rígido e irreversível, com etapas faseadas no tempo e calendarizadas. Quer isto dizer que, com condições favoráveis ou sem elas, essas tácticas têm de avançar. E é justamente para um desses sectores em avaliação que devemos olhar com atenção. O Mercado da miséria organiza-se activamente e é portador de generosas margens de mais-valias.
Ao arrepio da lógica tradicional, os senhores das maiores fortunas mundiais surgem a proclamar terem decidido optar pela filantropia que reclama o bem-estar de todos e o combate global à pobreza. Pode citar-se o exemplo recente de Bill Gates, o poderoso senhor da Microsoft, um grupo que factura mensalmente mais de 1 bilião de dólares e debita um volume de negócios da ordem dos 400 mil milhões. Pois agora, o banqueiro, podre de rico, anunciou que em breve iria abandonar a presidência do lobby informático para se dedicar a acções filantrópicas sem fins lucrativos. Neste sentido, Bill Gates estabeleceu uma fundação (Fundação Melinda Gates) dotada com um financiamento anual de 30 mil milhões de dólares e tendo em vista instalar nos países do terceiro mundo programas humanitários, em áreas como as do ensino e da saúde. É claro que o multimilionário não se reforma da Microsoft que é propriedade sua, da sua mulher e do seu pai. Delega apenas poderes e promete que, dentro de dois anos, se dedicará a tempo inteiro às acções filantrópicas.
O neocapitalismo é, como se reconhece, a principal causa da miséria, material e moral, que alastra nas sociedades humanas. Enganam-se, entretanto, aqueles que pensam que o capitalismo apenas produz miséria. É certo haver, nos EUA, de entre 30 a 40 milhões de pobres. Mas também já se contam, entre os norte-americanos, perto de 3 milhões de milionários. Em África e no Médio Oriente – palcos de tantos horrores – no espaço de um só ano (2005) detectaram-se mais 300 mil novas fortunas, com rendimentos pessoais superiores a 800 mil euros. Estão nessas condições, em todo o mundo, quase 9 milhões de especuladores, traficantes e financeiros.

Nova Ordem e Economia Social de Mercado

Como é evidente, 9 milhões de ricos representam uma percentagem ínfima dos 7 biliões de seres que habitam a terra. Mas, caso este pensamento nos tranquilize, correremos o risco de avaliarmos mal o potencial desta nova situação. Das trevas da exploração e do saque vão surgindo os ricos «arrependidos». Forma-se, então, uma nova base social de apoio ao capital, nos cenários desoladores do terceiro mundo. A estes dados acrescentou-se, recentemente, a informação insuspeita do Relatório Worldwach de que os consumidores dos mercados de amanhã habitam actualmente nos países em desenvolvimento.
Calcula-se, por outro lado, que quaisquer banais 50 biliões de dólares poderiam atenuar as necessidades básicas dos pobres (saúde, fome e mal nutrição, água potável, literacia, vacinação) e comprar a sua passividade política. A questão consiste em saber-se se os ricos conseguem organizar a tempo esta fatia do Mercado da Miséria.
A Nova Ordem permite ao mundo financeiro esconder interesses e intenções nos labirintos dos lobbys, sub-lobbys, sociedades anónimas, paraísos fiscais, etc. Aí, os lobos transformam-se em cordeiros. Bill Gates pode comprar, por pouco dinheiro, a aura da santidade. Mas quem saberá, ao certo, quais as verdadeiras dimensões da Microsoft, quantas empresas domina e em que contrapartidas irá ter a sua filantropia?
A Igreja Católica, empresta a alma ao capitalismo global com as ambiguidades da sua «Economia Social de Mercado» onde as instituições podem, simultaneamente, ser lucrativas, capitalistas, caritativas e cristãs, e aos patrões é reservado espaço ético para aparentarem mudar de campo segundo as conveniências de momento, através de um movimento de alma que apenas os próprios certificam.
Não nos enganemos. Entre os ricos muito ricos não há rapazes bons. Nos negócios, a filantropia é simples manobra populista de engano. O Combate à Pobreza e a Economia Social de Mercado encerram contravalores que geram a miséria. Organizemo-nos na luta contra a pobreza e contra a exploração mas saibamos rejeitar falsos engodos e ilusões.


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