Lavar o cupão<br>coleccionando obras de arte (2)
A colecção Berardo tem a particularidade curiosa do número de obras que a integram variar conforme as fontes de informação, não haverá um inventário? Também não há coincidências entre o número de obras que se consideram significativas. Os números, entre setecentas e novecentas, variam conforme os informantes, sendo acreditável que esse número seja dependente dos critérios pessoais e do relativismo dos padrões que os determinam.
As certezas são escassas e outras. O interesse do comendador Berardo pela arte tem sido narrado das mais diversas maneiras, algumas bastante fantasiosas. A mais curiosa talvez seja a relatada por Maria João Seixas num programa da Antena 2, em que fazia a defesa da necessidade da colecção Berardo ficar sediada em território nacional. Contou a jornalista cultural que num jantar em que participou com o comendador, na continuidade de uma inauguração de uma exposição temática da colecção, que Berardo explicara que tendo decidido preencher uns vazios das paredes lá de casa, incumbiu a mulher de o fazer, o que ela fez recorrendo a reproduções, o que muito o indignou. Não querem lá ver, então um homem de tantos cabedais ia ter nas paredes reproduções? Não senhor, venham de lá os originais. E assim começou a colecção, estorieta que muito enlevou os presentes e a João Seixas, alumbrados com a simplicidade e as ingenuidade do comendador, rapidamente corrigidas com o contributo de muito bons, na sua opinião, conselheiros.
Esta história de encantar deve ser substituída por uma outra que se ficciona a partir de factos reais e em que não se acredita nem em simplicidades nem em ingenuidades do comendador: Estava a Cinderela Berardo ocupadíssima a lavar o cupão, tarefa em que era reconhecidamente exímia, usando as máquinas de lavar da corretora Pedro Caldeira, marca que estava na berra nos idos anos 90, quando a fada Capelo, que também trabalhava nos milagres que saiam das chaminés da dita corretora, apareceu à atarefadíssima Cinderela para a avisar que a madrasta e as meias-irmãs estavam a furar as canalizações por onde circulavam alegremente os milhões reluzentes de limpeza. O cofre iria transformar-se definitivamente em abóbora e os escudos em pevides. A alarmadíssima Cinderela fugiu a sete pés da lavandaria Caldeira e aconselhada pela Fada Capelo começou a comprar obras de arte. Um deslumbramento. Mais coloridos, com formatos mais diversos, até em relevo o que fazia parecer cinzentos os papéis das acções. Eram muito mais divertidos e, sobretudo, estavam sempre a valer mais e livres de impostos. Quando transbordaram das casas onde eram guardados foram parar a Sintra a um museu que a autarquia arranjou para ter um Museu de Arte Contemporânea que agora parece ir deixar de ter. Eram um acervo de obras dominado pela arte pop e minimalista. Orientador, a Fada Capelo que também tinha saído espavorida da lavandaria Pedro Caldeira com os bolsos recheados por suados trabalhos em engenharias financeiras que transformavam geneticamente gatos em lebres, como o nosso primeiro em vigor na época, publicamente alertou, produzindo grande pânico.
E a colecção crescia, crescia até que em Outubro de 1999, Francisco Capelo com grande estrondo abandonou a colecção e o Comendador avisando o mundo que a colecção poderia “ vir a ser alvo de eventual dispersão e destruição” porque Berardo tinha a “lógica perversa de sempre mais dinheiro” e blalala seguem-se outros senhores a orientarem o benemérito na compra de mais obras de arte.
Um mimo de espertalhice
Uma circunstância tinha sofrido alteração de vulto. Quando se compraram as primeiras obras para a colecção Berardo o mercado internacional de arte estava deprimido. Comprava-se a preços baixos que rapidamente se valorizavam. Agora a música era outra, saia mais caro e valorizava-se mais lentamente. O Comendador habituado a especular no mercado bolsista e conhecido por realizar grossas mais valias, a essas variações estava habituado. Mas Berardo também é sobejamente conhecido por cortar com os negócios que não lhe estão a render o dinheiro que ele previa, mesmo que o investimento tenha sido muito grande. A tal lógica perversa, no dizer de Capelo. É essa lógica e as alterações entretanto havidas no mercado da arte que deve explicar o afã do comendador nas negociações que empreendeu com o Governo, entrando como um tanque pelos corredores do poder, arremetendo com uma variedade de golpes, altos, baixos e médios, manobrando 5.as colunas, tudo para instalar a sua colecção em lugar onde adquirisse uma visibilidade que nunca tinha tido o que, na sua perspectiva, deve permitir forçar a rentabilização do investimento feito que deveria andar abaixo das suas previsões. Subsidiariamente o Comendador, homem fino e avisado, percebeu que a colecção de arte lhe tinha dado uma corte e um estatuto para-intelectual a uma velocidade interessante, colocando-o entre as pessoas mais importantes do mundo da arte e isto só por ter dinheiro fresco para ir às compras, o que muito o deve divertir, sem distrair o olho da coluna das mais valias. Quanto às obras que comprou é claro que não sabe o que são, interessar-lhe-á? Veja-se a resposta que deu a Ana Sousa Dias, no programa Por Outro Lado, quando inquirido sobre as que mais prezava: “ Todas. É como os filhos, você prefere algum dos seus filhos?” São uns 4000 filhos! É obra amá-los a todos por igual…Um mimo de espertalhice que não responde a nada e responde a tudo. Com este panorama a ministra da Cultura ainda sonhava com uma qualquer doação? Proposta saloia, proclamou alto e bom som o Comendador, sentado em cima dos seus milhões.
As certezas são escassas e outras. O interesse do comendador Berardo pela arte tem sido narrado das mais diversas maneiras, algumas bastante fantasiosas. A mais curiosa talvez seja a relatada por Maria João Seixas num programa da Antena 2, em que fazia a defesa da necessidade da colecção Berardo ficar sediada em território nacional. Contou a jornalista cultural que num jantar em que participou com o comendador, na continuidade de uma inauguração de uma exposição temática da colecção, que Berardo explicara que tendo decidido preencher uns vazios das paredes lá de casa, incumbiu a mulher de o fazer, o que ela fez recorrendo a reproduções, o que muito o indignou. Não querem lá ver, então um homem de tantos cabedais ia ter nas paredes reproduções? Não senhor, venham de lá os originais. E assim começou a colecção, estorieta que muito enlevou os presentes e a João Seixas, alumbrados com a simplicidade e as ingenuidade do comendador, rapidamente corrigidas com o contributo de muito bons, na sua opinião, conselheiros.
Esta história de encantar deve ser substituída por uma outra que se ficciona a partir de factos reais e em que não se acredita nem em simplicidades nem em ingenuidades do comendador: Estava a Cinderela Berardo ocupadíssima a lavar o cupão, tarefa em que era reconhecidamente exímia, usando as máquinas de lavar da corretora Pedro Caldeira, marca que estava na berra nos idos anos 90, quando a fada Capelo, que também trabalhava nos milagres que saiam das chaminés da dita corretora, apareceu à atarefadíssima Cinderela para a avisar que a madrasta e as meias-irmãs estavam a furar as canalizações por onde circulavam alegremente os milhões reluzentes de limpeza. O cofre iria transformar-se definitivamente em abóbora e os escudos em pevides. A alarmadíssima Cinderela fugiu a sete pés da lavandaria Caldeira e aconselhada pela Fada Capelo começou a comprar obras de arte. Um deslumbramento. Mais coloridos, com formatos mais diversos, até em relevo o que fazia parecer cinzentos os papéis das acções. Eram muito mais divertidos e, sobretudo, estavam sempre a valer mais e livres de impostos. Quando transbordaram das casas onde eram guardados foram parar a Sintra a um museu que a autarquia arranjou para ter um Museu de Arte Contemporânea que agora parece ir deixar de ter. Eram um acervo de obras dominado pela arte pop e minimalista. Orientador, a Fada Capelo que também tinha saído espavorida da lavandaria Pedro Caldeira com os bolsos recheados por suados trabalhos em engenharias financeiras que transformavam geneticamente gatos em lebres, como o nosso primeiro em vigor na época, publicamente alertou, produzindo grande pânico.
E a colecção crescia, crescia até que em Outubro de 1999, Francisco Capelo com grande estrondo abandonou a colecção e o Comendador avisando o mundo que a colecção poderia “ vir a ser alvo de eventual dispersão e destruição” porque Berardo tinha a “lógica perversa de sempre mais dinheiro” e blalala seguem-se outros senhores a orientarem o benemérito na compra de mais obras de arte.
Um mimo de espertalhice
Uma circunstância tinha sofrido alteração de vulto. Quando se compraram as primeiras obras para a colecção Berardo o mercado internacional de arte estava deprimido. Comprava-se a preços baixos que rapidamente se valorizavam. Agora a música era outra, saia mais caro e valorizava-se mais lentamente. O Comendador habituado a especular no mercado bolsista e conhecido por realizar grossas mais valias, a essas variações estava habituado. Mas Berardo também é sobejamente conhecido por cortar com os negócios que não lhe estão a render o dinheiro que ele previa, mesmo que o investimento tenha sido muito grande. A tal lógica perversa, no dizer de Capelo. É essa lógica e as alterações entretanto havidas no mercado da arte que deve explicar o afã do comendador nas negociações que empreendeu com o Governo, entrando como um tanque pelos corredores do poder, arremetendo com uma variedade de golpes, altos, baixos e médios, manobrando 5.as colunas, tudo para instalar a sua colecção em lugar onde adquirisse uma visibilidade que nunca tinha tido o que, na sua perspectiva, deve permitir forçar a rentabilização do investimento feito que deveria andar abaixo das suas previsões. Subsidiariamente o Comendador, homem fino e avisado, percebeu que a colecção de arte lhe tinha dado uma corte e um estatuto para-intelectual a uma velocidade interessante, colocando-o entre as pessoas mais importantes do mundo da arte e isto só por ter dinheiro fresco para ir às compras, o que muito o deve divertir, sem distrair o olho da coluna das mais valias. Quanto às obras que comprou é claro que não sabe o que são, interessar-lhe-á? Veja-se a resposta que deu a Ana Sousa Dias, no programa Por Outro Lado, quando inquirido sobre as que mais prezava: “ Todas. É como os filhos, você prefere algum dos seus filhos?” São uns 4000 filhos! É obra amá-los a todos por igual…Um mimo de espertalhice que não responde a nada e responde a tudo. Com este panorama a ministra da Cultura ainda sonhava com uma qualquer doação? Proposta saloia, proclamou alto e bom som o Comendador, sentado em cima dos seus milhões.