Lêem semanalmente o Avante! em conjunto
Sessões de leitura
«André, temos mais uma coisa para ler: já nasceu um novo Avante!» Hoje, quinta-feira, Maria Lucília Estanco provavelmente telefonará a André Rodrigues e dirá uma frase como esta. Desse contacto nascerá mais uma sessão de leitura, ela impossibilitada de ler por motivos de saúde, ele esforçando-se por transmitir da melhor maneira o que lê. Estes encontros de leitura sucedem-se há três anos, normalmente duas vezes por semana, sempre em casa de Maria Lucília, num bairro calmo de Lisboa. Não há dias fixos, tal como não há leituras determinadas, à excepção do Avante!.
Lucília, antiga professora de História e Filosofia, e André, bibliotecário, foram apresentados por uma amiga comum, sem que um conhecesse a opção ideológica do outro. «Depois disso soubemos que éramos camaradas e o Avante! veio logo a talhe de foice e passou a constituir uma referência incontornável», recorda André. «Temos conversas afectivas e humanas que tornam muito agradável este convívio. Já temos agrupado outras pessoas. Os nossos encontros dão-nos força para nos firmarmos nas nossas convicções e na razão dessas convicções», comenta Lucília.
André está sentado num pequeno sofá, Maria Lucília fica numa pequena poltrona a meio metro de distância. Pelo meio, uma mesa com uma pilha de livros já iniciados noutras sessões, arrumados com delicadeza uns sobre os outros. Na sala há outros montes como esse, com obras tão diversas como As Rosas, de Eça de Queirós, A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn e as Metamorfoses, de Ovídio. Com o Avante! na mão, André vai lendo títulos e notícias, enquanto espreita Lucília para ver se o está a acompanhar e confirmar se o ritmo é o correcto. À volta, móveis confortáveis, fotografias pessoais, imagens de estátuas clássicas, desenhos de Álvaro Cunhal e livros, muitos livros.
«Olha, o Miguel Urbano Rodrigues tem um novo livro», comenta André e lê a notícia. Passam para as «Frases» e riem-se com cumplicidade, reagem com desagrado à notícia do encerramento de escolas, discutem informações apresentadas em várias peças, apreciam o Cartoon descrito por palavras... Umas notícias são logo lidas, outras ficam para uma segunda volta. André assinala as aspas e repassa algumas frases, numa leitura pausada mas não explicativa, por vezes quase em tom radiofónico. Lucília, atenta, por vezes de olhos fechados, escuta e só interrompe para colocar dúvidas ou para comentar no final. Aí, as palavras soltam-se, dando azo às ideias de ambos, à formação de opiniões novas ou ao aprofundamento de argumentos antigos. Não concordam em tudo, mas chegam muitas vezes a consensos através de posições sensatas e reflectidas.
Maria Lucília fala da diferença entre ler e ouvir ler. «Se não tivesse uma memória e um poder de atenção razoável, era uma desgraça. Assim, eu consigo apreender tudo. Têm sido raríssimos os ápices de tempo em que não ouço uma frase. Apreendo perfeitamente e sou capaz de jogar mais tarde com aquilo que ele leu, inclusive pormenores. Mas há sempre uma diferença de intensidade, de poder sentir, de ficar mais agarrada. No entanto, estas sessões satisfazem perfeitamente as necessidades de leitura e de informação.»
Retrato do País real
André Rodrigues vê o Avante! como a voz do povo português. «Encontramos isso muito fragmentariamente nos outros órgãos de comunicação social. Não quero esquecer algum cronista mais lúcido, mas no geral os grandes órgãos não nos dão um retrato do País tal como ele é. Esse País é a razão de ser do Avante!, porque ela não se esgota só no PCP», afirma. «Quem tem uma história tão longa como o Avante!, tem necessariamente mais problemas, no melhor sentido da palavra, tem mais questões a responder e mais respostas para mais questões do que outros jornais», acrescenta.
André responde facilmente a possíveis acusações de falta de imparcialidade do Avante!. «Essa é uma falsa questão, porque o Avante! não foi, não é e não será – mas também nunca tentou ser – um jornal imparcial. Os seus jornalistas e colaboradores assumem os seus pontos de vista, não tentam vender um produto e não há a promoção de não acontecimentos a acontecimentos. Não vejo no Avante! a operação plástica da Lili Caneças, por exemplo.»
Os preconceitos em relação ao jornal incomodam-no e conta o caso de um amigo que procurava o Avante!só para ler a página da televisão. «Como de estúpido ele não tem nada, queria ver a crítica que era feita à TV...»
Quando era mais novo, André tentou não ser comunista por os pais o serem. «Mas ia ler o que se dizia no Avante! sobre os vários assuntos, porque aquela voz me parecia mais lúcida, um retrato mais fiel da realidade. Havia algo que me chamava. Eu sentia uma afinidade com muitas das coisas que ali eram escritas», declara. Foi através dessas leituras que André inverteu o seu percurso político e se tornou militante do PCP: «A minha aproximação ao Partido fez-se muito através do Avante!. Aí encontrei o retrato do que eu sentia como o País real e as questões que eu pensava que deviam ser levantadas.»
Maria Lucília tem uma relação com o Avante! com muito mais tempo. Com menos de 20 anos já o vendia clandestinamente, no tempo em que frequentava a Faculdade de Letras e os passeios no Tejo com Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Bento de Jesus Caraça e outros intelectuais. Escondia os exemplares na palmilha do sapato e dava-os a pessoas de confiança.
«O Avante! faz a contrapartida do que aparece nos outros jornais e acabamos por ter um equilíbrio. Se queremos saber o que é a base militar e a prisão de Guantanamo, por exemplo, temos de ler o Avante!. Sem o Avante! ficamos com uma visão distorcida do mundo. Se queremos saber as razões de uma greve não é a ler a imprensa controlada pelo Balsemão ou pelo Belmiro de Azevedo que descobrimos», defende Lucília. André comenta de seguida: «É uma censura mais sinistra do que a censura pura, porque não é assumida.» Lucília completa, então: «O Avante! é indispensável para quem quer fazer um julgamento correcto do que se passa no País e no mundo.»
Hoje é quinta-feira e talvez a esta hora já Maria Lucília tenha comprado o Avante! numa banca perto de sua casa. Lamenta que o jornal esteja meio escondido, por baixo de outros, como se fosse uma presença incómoda. Abre o seu exemplar logo ali, lê alguns títulos e depois caminha com ele debaixo do braço. «São maneiras ingénuas e inocentes de fazer publicidade», comenta.
André está sentado num pequeno sofá, Maria Lucília fica numa pequena poltrona a meio metro de distância. Pelo meio, uma mesa com uma pilha de livros já iniciados noutras sessões, arrumados com delicadeza uns sobre os outros. Na sala há outros montes como esse, com obras tão diversas como As Rosas, de Eça de Queirós, A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn e as Metamorfoses, de Ovídio. Com o Avante! na mão, André vai lendo títulos e notícias, enquanto espreita Lucília para ver se o está a acompanhar e confirmar se o ritmo é o correcto. À volta, móveis confortáveis, fotografias pessoais, imagens de estátuas clássicas, desenhos de Álvaro Cunhal e livros, muitos livros.
«Olha, o Miguel Urbano Rodrigues tem um novo livro», comenta André e lê a notícia. Passam para as «Frases» e riem-se com cumplicidade, reagem com desagrado à notícia do encerramento de escolas, discutem informações apresentadas em várias peças, apreciam o Cartoon descrito por palavras... Umas notícias são logo lidas, outras ficam para uma segunda volta. André assinala as aspas e repassa algumas frases, numa leitura pausada mas não explicativa, por vezes quase em tom radiofónico. Lucília, atenta, por vezes de olhos fechados, escuta e só interrompe para colocar dúvidas ou para comentar no final. Aí, as palavras soltam-se, dando azo às ideias de ambos, à formação de opiniões novas ou ao aprofundamento de argumentos antigos. Não concordam em tudo, mas chegam muitas vezes a consensos através de posições sensatas e reflectidas.
Maria Lucília fala da diferença entre ler e ouvir ler. «Se não tivesse uma memória e um poder de atenção razoável, era uma desgraça. Assim, eu consigo apreender tudo. Têm sido raríssimos os ápices de tempo em que não ouço uma frase. Apreendo perfeitamente e sou capaz de jogar mais tarde com aquilo que ele leu, inclusive pormenores. Mas há sempre uma diferença de intensidade, de poder sentir, de ficar mais agarrada. No entanto, estas sessões satisfazem perfeitamente as necessidades de leitura e de informação.»
Retrato do País real
André Rodrigues vê o Avante! como a voz do povo português. «Encontramos isso muito fragmentariamente nos outros órgãos de comunicação social. Não quero esquecer algum cronista mais lúcido, mas no geral os grandes órgãos não nos dão um retrato do País tal como ele é. Esse País é a razão de ser do Avante!, porque ela não se esgota só no PCP», afirma. «Quem tem uma história tão longa como o Avante!, tem necessariamente mais problemas, no melhor sentido da palavra, tem mais questões a responder e mais respostas para mais questões do que outros jornais», acrescenta.
André responde facilmente a possíveis acusações de falta de imparcialidade do Avante!. «Essa é uma falsa questão, porque o Avante! não foi, não é e não será – mas também nunca tentou ser – um jornal imparcial. Os seus jornalistas e colaboradores assumem os seus pontos de vista, não tentam vender um produto e não há a promoção de não acontecimentos a acontecimentos. Não vejo no Avante! a operação plástica da Lili Caneças, por exemplo.»
Os preconceitos em relação ao jornal incomodam-no e conta o caso de um amigo que procurava o Avante!só para ler a página da televisão. «Como de estúpido ele não tem nada, queria ver a crítica que era feita à TV...»
Quando era mais novo, André tentou não ser comunista por os pais o serem. «Mas ia ler o que se dizia no Avante! sobre os vários assuntos, porque aquela voz me parecia mais lúcida, um retrato mais fiel da realidade. Havia algo que me chamava. Eu sentia uma afinidade com muitas das coisas que ali eram escritas», declara. Foi através dessas leituras que André inverteu o seu percurso político e se tornou militante do PCP: «A minha aproximação ao Partido fez-se muito através do Avante!. Aí encontrei o retrato do que eu sentia como o País real e as questões que eu pensava que deviam ser levantadas.»
Maria Lucília tem uma relação com o Avante! com muito mais tempo. Com menos de 20 anos já o vendia clandestinamente, no tempo em que frequentava a Faculdade de Letras e os passeios no Tejo com Álvaro Cunhal, Dias Lourenço, Bento de Jesus Caraça e outros intelectuais. Escondia os exemplares na palmilha do sapato e dava-os a pessoas de confiança.
«O Avante! faz a contrapartida do que aparece nos outros jornais e acabamos por ter um equilíbrio. Se queremos saber o que é a base militar e a prisão de Guantanamo, por exemplo, temos de ler o Avante!. Sem o Avante! ficamos com uma visão distorcida do mundo. Se queremos saber as razões de uma greve não é a ler a imprensa controlada pelo Balsemão ou pelo Belmiro de Azevedo que descobrimos», defende Lucília. André comenta de seguida: «É uma censura mais sinistra do que a censura pura, porque não é assumida.» Lucília completa, então: «O Avante! é indispensável para quem quer fazer um julgamento correcto do que se passa no País e no mundo.»
Hoje é quinta-feira e talvez a esta hora já Maria Lucília tenha comprado o Avante! numa banca perto de sua casa. Lamenta que o jornal esteja meio escondido, por baixo de outros, como se fosse uma presença incómoda. Abre o seu exemplar logo ali, lê alguns títulos e depois caminha com ele debaixo do braço. «São maneiras ingénuas e inocentes de fazer publicidade», comenta.