Escreveu, ilustrou e paginou o Avante! clandestino
A arte de resistir
Margarida Tengarrinha nunca entrou numa tipografia clandestina do Avante! . Por razões de segurança, apenas os camaradas mais responsáveis conheciam a localização do aparelho clandestino de imprensa do Partido. Mas a vida desta comunista está indelevelmente ligada ao órgão central do PCP, do qual foi redactora, paginadora e ilustradora durante vários períodos da vida do jornal.
Funcionária do PCP desde 1955, Margarida Tengarrinha desde cedo começou a trabalhar em órgãos de imprensa clandestina. Com experiência profissional anterior na revista feminina Modas & Bordados, que fora antes dirigida por Maria Lamas, e com algum tempo disponível que a sua tarefa lhe deixava – trabalhava, juntamente com o seu companheiro de então, o escultor José Dias Coelho, na Oficina de Falsificações do Partido – foi incumbida de fazer o boletim interno A Voz das Camaradas, o primeiro material do Partido em que trabalhou.
Pouco tempo depois, em 1959, começa a trabalhar para o Avante! . Dada a natureza muito restrita das tarefas que mantinha na Oficina, não participou nas reuniões da redacção até 1960. Mas ficou encarregue da redacção dos artigos sobre a repressão e a vida prisional. Era mais fácil juntar a documentação, «entregar-me e eu fazer os artigos». Margarida Tengarrinha considera que tinha uma «sensibilidade especial» para esta questão. Enquanto estudante de Belas-Artes e membro do MUD Juvenil, tinha participado nas comissões de apoio aos presos políticos.
«A denúncia da repressão e a luta contra ela tinha um efeito muito importante mesmo sobre os nossos leitores que não eram membros do Partido mas que eram solidários com os presos», lembra a comunista. Além disso, o Avante! era o único jornal que analisava e desmascarava a violência repressiva do fascismo. Ainda hoje é assim, destaca. «Sem o Avante! não temos uma informação completa sobre o que se passa no País e no mundo.»
Em princípios de 1961, Margarida Tengarrinha e José Dias Coelho deixam a Oficina de Falsificações e Margarida passa a integrar a redacção do jornal. Mas seria por pouco tempo. Nos finais do ano, a repressão intensifica-se e são presos destacados militantes e dirigentes comunistas. José Dias Coelho, que assumia então a responsabilidade pelo Sector Intelectual de Lisboa, é assassinado pela PIDE em Alcântara. Ainda na redacção do jornal, Margarida Tengarrinha redige e pagina o artigo sobre a morte do seu companheiro: «Era óbvio que tinha que ser eu a fazer esse artigo, mas foi o que mais me custou a escrever em toda a minha vida.»
Dizer sempre a verdade
Nos primeiros meses de 1962, alteram-se as tarefas e Margarida Tengarrinha deixa a redacção do Avante! . A Oficina de Falsificações tinha sido capturada e havia que preparar um camarada para assumir essa tarefa e refazer todo o material. «Ficámos sem nada e o Partido nessa altura precisava urgentemente desse aparelho», realça. Pela sua experiência e talento, era a pessoa indicada. Meses depois, a oficina estava novamente operacional. Os selos brancos para os bilhetes de identidade e passaportes são refeitos e o Partido fica mais bem preparado para resistir à repressão. Até ter a oficina completamente operacional, a falsificação de documentos não pôde parar e Margarida Tengarrinha põe todo o seu talento de artista plástica ao serviço desta tarefa. Varetas de guarda-chuva polidas e agulhas de crochet serviram muitas vezes de instrumentos de trabalho.
Cumprida esta missão, Margarida sai do País. Depois de trabalhar directamente com Álvaro Cunhal, ruma a Bucareste, onde integra a redacção da Rádio Portugal Livre. Na sua estadia na rádio, colaborou com o Avante! . Enviada especial à União Soviética por ocasião do quinquagésimo aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro, é apresentada em todas as ocasiões como membro da redacção do Avante! . Em viagem pelo grande país, observa e toma notas, recolhe depoimentos e faz entrevistas. O pequeno jornal clandestino publica, nos três últimos números de 1967, as suas reportagens.
No ano seguinte, regressa a Portugal e assume novamente tarefas na redacção do Avante! . «Na altura, a redacção funcionava no Norte, no lugar de Fontelos. Era lá que tínhamos o arquivo.» Até 1970, fica só com esta tarefa. «Fazíamos duas maquetas e o material a triplicar. Ficávamos com um exemplar na redacção e dois exactamente iguais», conta. Um era entregue no Porto e outro ia para Lisboa. «Havia duas tipografias, uma em Lisboa e outra no Porto e os jornais não se destinguiam um do outro», lembra Margarida Tengarrinha, que entregava os materiais directamente aos tipógrafos.
Do trabalho na redacção, recorda as reuniões: «Discutia-se a situação política e a orientação do Partido, quais os temas essenciais e o que ia para a primeira página. O texto político principal era geralmente escrito pelo responsável político. O resto, era dividido pelos camaradas da redacção.»
Em 1970, torna-se companheira de Carlos Costa e ruma ao Porto, com tarefas na Direcção Regional do Norte. Mas prossegue a sua colaboração com o Avante! , escrevendo artigos sobre lutas às quais esteve ligada. Em Maio de 1974, com 20 anos de clandestinidade, é chamada ao Comité Central, no qual se manteve até à década de 90.
A arte ao serviço da luta
Se a sua colaboração para a redacção de artigos para o Avante! foi uma constante da vida de Margarida Tengarrinha, não é menos importante o seu papel na melhoria do aspecto gráfico do jornal. «Eu e o Zé (Dias Coelho) demos a opinião de que o Avante! poderia melhorar graficamente para ficar mais atractivo e todos os camaradas com quem falámos aceitaram a ideia», lembra. «Têm razão, façam», receberam como resposta dos mais responsáveis. «Contrariamente ao que muita gente pensa, todas as ideias inovadoras eram logo aceites. E com entusiasmo», destaca Margarida Tengarrinha. Nos dois períodos em que integrou a redacção, por diversas vezes fez a paginação do jornal.
«Eu fiz várias gravuras para o Avante! , mas aquelas que eu considero mais significativas são do Zé», afirma, realçando que algumas dessas gravuras têm «um valor histórico muito grande». De todas elas, destaca uma, muito pequenina, que pediu ao companheiro para fazer, de forma a ilustrar um texto sobre diversas lutas operárias. «Era uma forma de destacar textos compostos de factos. Não se pode aumentar um texto com estas características, pois a regra de trabalho na imprensa do Partido é dizer a verdade e não dizer “bonitinhos”. Eu tenho muito orgulho nesta gravura, porque teve um papel muito importante para destacar as lutas dos trabalhadores», afirma Margarida Tengarrinha.
Pouco tempo depois, em 1959, começa a trabalhar para o Avante! . Dada a natureza muito restrita das tarefas que mantinha na Oficina, não participou nas reuniões da redacção até 1960. Mas ficou encarregue da redacção dos artigos sobre a repressão e a vida prisional. Era mais fácil juntar a documentação, «entregar-me e eu fazer os artigos». Margarida Tengarrinha considera que tinha uma «sensibilidade especial» para esta questão. Enquanto estudante de Belas-Artes e membro do MUD Juvenil, tinha participado nas comissões de apoio aos presos políticos.
«A denúncia da repressão e a luta contra ela tinha um efeito muito importante mesmo sobre os nossos leitores que não eram membros do Partido mas que eram solidários com os presos», lembra a comunista. Além disso, o Avante! era o único jornal que analisava e desmascarava a violência repressiva do fascismo. Ainda hoje é assim, destaca. «Sem o Avante! não temos uma informação completa sobre o que se passa no País e no mundo.»
Em princípios de 1961, Margarida Tengarrinha e José Dias Coelho deixam a Oficina de Falsificações e Margarida passa a integrar a redacção do jornal. Mas seria por pouco tempo. Nos finais do ano, a repressão intensifica-se e são presos destacados militantes e dirigentes comunistas. José Dias Coelho, que assumia então a responsabilidade pelo Sector Intelectual de Lisboa, é assassinado pela PIDE em Alcântara. Ainda na redacção do jornal, Margarida Tengarrinha redige e pagina o artigo sobre a morte do seu companheiro: «Era óbvio que tinha que ser eu a fazer esse artigo, mas foi o que mais me custou a escrever em toda a minha vida.»
Dizer sempre a verdade
Nos primeiros meses de 1962, alteram-se as tarefas e Margarida Tengarrinha deixa a redacção do Avante! . A Oficina de Falsificações tinha sido capturada e havia que preparar um camarada para assumir essa tarefa e refazer todo o material. «Ficámos sem nada e o Partido nessa altura precisava urgentemente desse aparelho», realça. Pela sua experiência e talento, era a pessoa indicada. Meses depois, a oficina estava novamente operacional. Os selos brancos para os bilhetes de identidade e passaportes são refeitos e o Partido fica mais bem preparado para resistir à repressão. Até ter a oficina completamente operacional, a falsificação de documentos não pôde parar e Margarida Tengarrinha põe todo o seu talento de artista plástica ao serviço desta tarefa. Varetas de guarda-chuva polidas e agulhas de crochet serviram muitas vezes de instrumentos de trabalho.
Cumprida esta missão, Margarida sai do País. Depois de trabalhar directamente com Álvaro Cunhal, ruma a Bucareste, onde integra a redacção da Rádio Portugal Livre. Na sua estadia na rádio, colaborou com o Avante! . Enviada especial à União Soviética por ocasião do quinquagésimo aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro, é apresentada em todas as ocasiões como membro da redacção do Avante! . Em viagem pelo grande país, observa e toma notas, recolhe depoimentos e faz entrevistas. O pequeno jornal clandestino publica, nos três últimos números de 1967, as suas reportagens.
No ano seguinte, regressa a Portugal e assume novamente tarefas na redacção do Avante! . «Na altura, a redacção funcionava no Norte, no lugar de Fontelos. Era lá que tínhamos o arquivo.» Até 1970, fica só com esta tarefa. «Fazíamos duas maquetas e o material a triplicar. Ficávamos com um exemplar na redacção e dois exactamente iguais», conta. Um era entregue no Porto e outro ia para Lisboa. «Havia duas tipografias, uma em Lisboa e outra no Porto e os jornais não se destinguiam um do outro», lembra Margarida Tengarrinha, que entregava os materiais directamente aos tipógrafos.
Do trabalho na redacção, recorda as reuniões: «Discutia-se a situação política e a orientação do Partido, quais os temas essenciais e o que ia para a primeira página. O texto político principal era geralmente escrito pelo responsável político. O resto, era dividido pelos camaradas da redacção.»
Em 1970, torna-se companheira de Carlos Costa e ruma ao Porto, com tarefas na Direcção Regional do Norte. Mas prossegue a sua colaboração com o Avante! , escrevendo artigos sobre lutas às quais esteve ligada. Em Maio de 1974, com 20 anos de clandestinidade, é chamada ao Comité Central, no qual se manteve até à década de 90.
A arte ao serviço da luta
Se a sua colaboração para a redacção de artigos para o Avante! foi uma constante da vida de Margarida Tengarrinha, não é menos importante o seu papel na melhoria do aspecto gráfico do jornal. «Eu e o Zé (Dias Coelho) demos a opinião de que o Avante! poderia melhorar graficamente para ficar mais atractivo e todos os camaradas com quem falámos aceitaram a ideia», lembra. «Têm razão, façam», receberam como resposta dos mais responsáveis. «Contrariamente ao que muita gente pensa, todas as ideias inovadoras eram logo aceites. E com entusiasmo», destaca Margarida Tengarrinha. Nos dois períodos em que integrou a redacção, por diversas vezes fez a paginação do jornal.
«Eu fiz várias gravuras para o Avante! , mas aquelas que eu considero mais significativas são do Zé», afirma, realçando que algumas dessas gravuras têm «um valor histórico muito grande». De todas elas, destaca uma, muito pequenina, que pediu ao companheiro para fazer, de forma a ilustrar um texto sobre diversas lutas operárias. «Era uma forma de destacar textos compostos de factos. Não se pode aumentar um texto com estas características, pois a regra de trabalho na imprensa do Partido é dizer a verdade e não dizer “bonitinhos”. Eu tenho muito orgulho nesta gravura, porque teve um papel muito importante para destacar as lutas dos trabalhadores», afirma Margarida Tengarrinha.