Comentário

O país real e a União Europeia

Ilda Figueiredo
Para quem é membro de um órgão aparentemente tão distante da realidade portuguesa como é o Parlamento Europeu, a funcionar em Bruxelas e Estrasburgo, uma das actividades mais emotivas é o contacto com as populações, os problemas e sonhos de quem enfrenta o esquecimento do poder político fora dos períodos eleitorais, de quem trabalha a terra ou tenta tirar do mar o que ainda é possível, de quem se empenha diariamente no seu trabalho por aquilo que representa, mesmo que o salário seja magro no fim do mês, de quem enfrenta a ameaça do desemprego e da deslocalização de empresas ou já vive a angústia da procura de trabalho sem ver uma luz ao fundo do túnel, de quem quer produzir e aumentar a riqueza do país mas não consegue ultrapassar a concorrência crescente, a falta de apoios à comercialização, ou se sente traído pelo não cumprimento das promessas de investimento e falha de fundos comunitários.
Embora o contacto com os trabalhadores e as populações seja uma prática habitual dos eleitos do PCP, quisemos assinalar os 20 anos da adesão de Portugal à então CEE, agora União Europeia (UE), com jornadas de trabalho nas diversas zonas do país, numa colaboração estreita entre as organizações regionais do PCP e os dois deputados comunistas no Parlamento Europeu.
Desta forma, visitamos a realidade nua e crua de vastas zonas do interior do país, cada vez mais ameaçadas de desertificação, a quem não já não bastavam as angústias provocadas pela incúria e abandono de que, muitas vezes, os incêndios florestais são uma das consequências mais graves, como, agora, ainda têm de enfrentar ameaças de novos abandonos resultantes do encerramento de escolas, maternidades, serviços públicos que são essenciais para manter a seiva da vida, mesmo em zonas onde a emigração foi a única saída para muitos portugueses que encontro por essa Europa fora, sempre à espera de uma oportunidade para regressar às suas terras.
Nestas jornadas de trabalho, visitamos também as zonas urbanas e a complexidade do seu desenvolvimento a várias velocidades, as carências de infra-estruturas e equipamentos, o crescimento das desigualdades, os obstáculos à inclusão social de vastas camadas da população, as consequências de uma política de cortes orçamentais cegos justificados com um Pacto de Estabilidade irracional, resultado de uma precipitada adesão ao euro.
Nas reuniões e debates com as mais diversas organizações produtivas e sociais, instituições públicas e privadas, há um rico intercâmbio de informações sobre as políticas da União Europeia e as suas consequências na vida das pessoas, as ameaças que persistem em torno da dita «directiva Bolkestein» ou do projecto da impropriamente dita «constituição europeia», as liberalizações e a flexibilidade laboral contidas na Estratégia de Lisboa, os desajustamentos das políticas comunitárias com a realidade portuguesa, seja na agricultura, seja nas pescas ou no âmbito do comércio internacional.
Deste trabalho de visitas, contactos, reuniões e debates, resulta um conjunto de perguntas à Comissão Europeia, de propostas de alteração nos mais diversos relatórios e decisões que os deputados comunistas no Parlamento Europeu apresentam.
Mesmo que não haja os holofotes da comunicação social nacional, mesmo que seja totalmente silenciado pelos grandes órgãos da imprensa, há sempre um ou outro órgão da imprensa local que o noticia. Mas o trabalho vale por si próprio. Corresponde a um projecto político que privilegia o diálogo permanente com as pessoas, que coloca no centro das suas posições políticas os problemas dos trabalhadores, as aspirações das populações, a produção da riqueza e a sua justa repartição, a melhoria do bem-estar e o desenvolvimento equilibrado.
O Portugal com futuro que queremos ajudar a construir exige este maior conhecimento das consequências das políticas praticadas, uma maior reflexão sobre as medidas que se impõem e os rumos que é preciso dar, seja no plano interno, seja nas políticas comunitárias.
Por isso, depois das jornadas de trabalho no Alentejo e Algarve, segue-se a Região Autónoma da Madeira, Leiria e o distrito de Setúbal. Nos meses seguintes serão as outras zonas do país. Em Dezembro, haverá um encontro nacional de aprofundamento da reflexão sobre os 20 anos de adesão à CEE/UE, o ponto da situação em que nos encontramos e as perspectivas futuras.


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