Alinhamento e partilha

Jorge Messias
Sempre que se tornam conhecidas as medidas dos ministros de Sócrates, fica a certeza de estamos em presença de um pelotão terrorista de demolição. Destruições aparte, nada do que depois dizem faz sentido. Mas não nos iludamos. Sócrates dispõe de um projecto capitalista bem elaborado. Só que em Portugal, como no Iraque, as coisas não correm para os agressores tal como eles desejariam. De qualquer modo, as coisas vão correndo...
Os planos capitalistas contêm sempre duas etapas: numa, destrói-se; na outra (a mais apetecida para os negócios lucrativos) constrói-se.
No Iraque, o que dificulta as coisas aos americanos é não serem capazes de passar da primeira à segunda fase. Em Portugal, verifica-se o mesmo. Sócrates é bom demolidor mas mete os pés pelas mãos quando se trata de arrumar e dar ordem à mobília neoliberal.
De entre as várias reformas do sistema que o governo se propõe introduzir, muitas merecem atenta vigilância, mas uma há que atrai as atenções daqueles que se interessam pela ofensiva capitalista na área social. O que, naturalmente, implica estar-se atento às relações entre a Igreja e o Estado. São duas situações que vão sempre a par.

A reorganização administrativa do País

Há poucos dias atrás, o Governo anunciou publicamente ir avançar com novas implosões. Extingue 13 governos civis e 120 organismos públicos, faz desaparecer 19 regiões de turismo, acaba com o Instituto Português de Museus e com a Polícia Militar, muda a tutela de 30 organismos, decreta avaliações de 75 mil funcionários públicos e a extinção de 70% das chefias, ordena a redução de 30% das despesas da Administração, encerra 9 maternidades, 4500 escolas, 13 Centros Distritais da Segurança Social e 13 sub-regiões da Saúde, fecha as portas de 2 direcções regionais da Agricultura, etc.
À primeira vista, tudo isto parece história de loucos. Num país cuja economia é uma anedota, como pode um governo tomar medidas que excedem, visivelmente, a força de execução de que dispõe ? Esta resposta, no entanto, não satisfaz completamente. A verdade, é que a história, tal como nos é contada, não está completa. A Igreja vai ser o trunfo oculto com que Sócrates poderá jogar.
De entre as principais intervenções registadas nas recentes Semanas Sociais católicas, uma devia ser observada à lupa. Foi quando um dos homens fortes da chamada «economia social da igreja» e professor do ISCTE, Rogério Roque Amaro, se levantou para declarar que as actividades e grupos de acção caritativa da Igreja Católica - Paróquias, Cáritas, IPSS, etc. – terão que se converter rapidamente em grupos de desenvolvimento ao serviço da economia social católica. Só assim será rentabilizada a imensa malha social de que a igreja dispõe ao longo do território nacional. Mas a Igreja, acrescentou Roque Amaro, «não se esgota nesta perspectiva». A sua «vocação humanista» provada pelos factos da história, tem de eliminar os «becos sem saída», os efeitos da crise do Estado-providência, a noção de que o mercado não resolve mas agrava os grandes problemas sociais e a ideia, responsável por muitos regionalismos, de que a globalização é impraticável. Toda a sociedade civil tem que ser chamada a colaborar com a economia social solidária que se traduz pela decisão voluntária do cidadão de assumir responsabilidades de risco financeiro, pela generalização dos sistemas de microcrédito ou na criação de novos postos de trabalho. Estes objectivos só podem ser atingidos através da coesão social e da diversidade cultural de alternativas sustentadas. «As iniciativas de desenvolvimento local e a economia solidária» – concluiu Roque Amaro – «representam as respostas da sociedade civil a estes desafios».
Todas estas afirmações têm aspectos de propaganda interna que não devem ser valorizados. Mas o facto é que atestam, numa fase de crise aguda do sistema, uma renovação dos votos de fidelidade da igreja católica ao capitalismo. São música celestial para os ouvidos de Sócrates e de Cavaco Silva. A reforma administrativa do Estado, tal como é proposta, será de facto loucura se não sobrevier um verdadeiro milagre, de há muito aguardado. Porque a igreja tem em carteira uma Reforma das Paróquias que se alinha perfeitamente, segundo o que dela se conhece, com o conjunto de alterações que o governo anuncia para a administração do Estado. Se o Estado se retirar da área social, o espaço será imediatamente preenchido pelas instituições católicas. Não é dinheiro que falta à igreja. E dominar a segurança social, o ensino, a saúde, o turismo, o património cultural, corresponde a dominar o país. Sem ter de gastar um centavo do capital. Apenas com as mais-valias dos negócios que irá patrocinar.


Mais artigos de: Argumentos

Uma máscara?

Será o plano Tecnológico do governo PS uma máscara para ganharem tempo? Quanto mais tempo passa, mais se vai vendo do governo Sócrates sobre esta questão, mais com a sensação se fica que aqui há gato. Na verdade o que estará por trás desta imensa montagem mediático-política? De que máscara se trata este plano tecnológico...

Um serão para a cultura

Não me considero, nem de longe, eventual candidato à presidência de um imaginário «clube e fans» de Isabel Pires de Lima, ministra da Cultura, mas não deixei de indignar-me com a forma como ela foi tratada no «Prós e Contras» da passada segunda-feira. É que a forma específica de batota que também é designável por...