A Igreja como força de mercado

Jorge Messias
Aos olhos dos católicos honestos, o que se passou na recente Semana Social de 2006, realizada em Braga, foi pura e simplesmente vergonhoso. O tema proposto era «Uma sociedade criadora de emprego». Foi a festa dos ricos e dos seus capatazes. O momento escolhido pelos altos funcionários da igreja católica e da alta finança para lançarem às urtigas a sua máscara beata e piedosa e se mostrarem tal como na realidade são. Os católicos progressistas (se algum deles ainda sobrevive) hão-de sentir-se ultrajados ao verem as suas Semanas Sociais, que já foram trincheira das forças reformadoras da igreja e da sociedade, serem usadas por uma vil hierarquia para acolher festivamente os corruptos representantes do «capitalismo selvagem». Braga foi, por três dias, capital da reacção e dos estrategos do saque. Lá estiveram os «príncipes da Igreja», como os cardeais Renato Martino e José Policarpo, a corte de bispos e arcebispos, os «europeístas» liderados por Jacques Delors e António Guterres, os banqueiros e tecnocratas do sistema neoliberal (António Borges, Vítor Constâncio, Silva Lopes, Augusto Mateus, Arlindo Cunha, Braga da Cruz, Valente de Oliveira, Roque Amaro, Barbosa de Melo, António Vaz Pinto, Marçal Grilo, Mário Pinto, Roberto Carneiro) e se sentaram, lado a lado, os responsáveis pelas pastorais sociais e os mentores da exploração do homem pelo homem, os secretos membros do Opus Dei, os fundamentalistas da igreja catecumenal e os sempre disponíveis e serviçais manipuladores da opinião. Nem um homem ou uma mulher livre esteve presente para dar voz à sua indignação.

Um milagre que vai de vento-em-popa ...

Todas estes actores de alto coturno deixaram os seus negócios e acorreram ao Minho. E não foi, de certeza, por razões místicas ou para «verem Braga por um canudo» que o fizeram. Nem foi nos confessionários que gastaram o seu precioso tempo. Padres, leigos e financeiros aproveitaram as Semanas Sociais para estreitarem entendimentos e alianças nos mega-processos de fusão de capitais em curso, na divisão dos lucros entre a banca e a igreja e nas contrapartidas políticas que o Vaticano exige e das quais jamais recuará. Por isso, não é de estranhar que tanto a Conferência Episcopal como a generalidade dos órgãos de comunicação social tenham dado tão pouca projecção a tomadas de posição claramente assumidas pelos principais intervenientes nos debates.
A nota geral foi dada pelo presidente da Conferência Episcopal, D. Jorge Ortiga que afirmou acerca do desemprego e das relações entre trabalho e capital: «Será o fenómeno do desemprego uma catástrofe inevitável? Não acredito que nos tenhamos de sujeitar à sua tirania!» E concluiu que a solução para o desemprego estava no uso da inteligência(!): «O capital, submetendo-se ao exercício da inteligência, ultrapassa os limites do interesse pessoal e entra nos circuitos de uma solidariedade efectiva, capaz de proporcionar dignidade a todos», acrescentou Jorge Ortiga (que é, também, arcebispo de Braga), em louvor do capitalismo. Destaque-se, igualmente, a opinião de Daniel Bessa, antigo ministro da Economia no consulado de António Guterres: «O emprego não é o maior problema que a vida pública deve assumir ... a criação de postos de trabalho significa dinheiro deitado à rua». A solução passa pela educação, pelo estímulo ao investimento estrangeiro e à formação de novas empresa. À intervenção na sociedade do exercício da caridade cristã. Porém, advertiu Roque Amaro, um economicista profundamente católico: «As actividades e grupos caritativos da Igreja têm que se converter em grupos de desenvolvimento, ajudando ao incremento da economia social. A Igreja deve valorizar a malha social que possui territorialmente - paróquias, Cáritas, grupos e IPSS - para afirmar que essa é uma das potencialidades de ajuda ao desenvolvimento. A Sociedade Civil está a mexer!» Quanto ao cardeal enviado pelo papa a Portugal, Renato Martino, limitou-se a invocar a descida de uma alma ética sobre a economia, palavra que para o Vaticano apenas significa capitalismo. Mas à capital minhota chegou também a voz do Papa Ratzinger dizendo, enfadado, que a pobreza é intolerável. Impávidos, informavam os jornais que a fortuna de Belmiro de Azevedo tinha aumentado, em 2005, 400 milhões de euros. Falavam das maravilhas operadas pelas OPAS entre bancos liderados pelo Opus Dei e da solidariedade que inspira a alma ética dos Millenios, BPIS, Itaús, Cajas, Populares e Santanderes, cujo alvo principal é, como se sabe, o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar de todos nós! Anunciavam também que o desemprego em Portugal não cessava de crescer e que iam ser fechadas mais escolas e mais hospitais.


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