A impostura

Correia da Fonseca
Na coluna que Joana Amaral Dias mantém no «DN», leio que Cavaco Silva informou o País de que ele próprio e o Major Tomé foram «as únicas vítimas do fascismo». Peço muita desculpa, mas não posso acreditar. Joana Amaral Dias deve andar a dormir pouco, a ter pesadelos, há-de ter imaginado este desvario na maior das boas-fés, mas o senhor Professor não pode ter dito isto, não consta que já tenha enlouquecido de todo, e uma coisa é só saber falar de Economia & Finanças (e ainda assim pouco, ainda assim num certo sentido de uma rua estreita), e coisa diferente é o estado de sandice mesmo que apenas episódica. O que ele fez, isso sim, porque eu tive a oportunidade de ver na televisão em que quotidianamente me afundo, foi tentar cantar a «Grândola». O que ele gritou, isso sim, porque o ouvi na mesmíssima televisão, foi que «o povo é quem mais ordena». Quer dizer: o que ele tentou foi sugerir que entre ele próprio, Cavaco, e José Afonso haveria como que uma remota identificação, que entre ele e Abril de 74 haveria algum acordo profundo. Mas não é de crer que o tenha feito propriamente num instante de loucura, embora seja certo que a tentativa pode implicar algum défice de lucidez na medida em que corresponda à expectativa de que com ela conseguirá enganar muita gente. Porém, não nos felicitemos, ou não felicitemos o senhor Professor, por o seu acto não ser um puro desvario. É que é qualquer coisa de muito pior: é uma aldrabice. «Grândola» na boca de Cavaco, a invocação da vontade do povo nas suas palavras, assentam-lhe tão mal quanto um fato seu no corpo volumoso do doutor Mário Soares. Ainda assim, porém, ele tentou a mistificação na esperança de que alguns poderão cair nessa modalidade específica de conto-do-vigário. E terá alguma razão quanto a isso: serão poucos, mas serão alguns, e «alguns» num universo de milhões de eleitores poderão não ser quantidade irrelevante. Não irei ao extremo pessimista de admitir que neste caso o crime vai compensar. Mas sei que, após trinta anos de intensos trabalhos de despolitização do povo português, de clorofórmios mediáticos e outros que sobre ele fossem lançados, haverá quem queira acreditar que, afinal, Cavaco também foi um antifascista, também sentiu a «Grândola» a percorrer-lhe as veias, também está ali para cumprir a vontade do povo. E não a do magote de grandes fortunas que são o cerne dos apoios recebidos.

Sem escrúpulos

Estes dois momentos televisivos, o do professor a entoar a «Grândola» e o da citação do verso de José Afonso, parecem insignificantes mas não o são, por relevadores. Confirmaram que Cavaco Silva, ao querer passar pelo que nunca foi, não tem escrúpulos de ética perante a possibilidade de quem o ouve e que, na circunstância e graças às câmaras de televisão presentes, seria tendencialmente todo o povo português. Por acaso ou talvez não, em nenhuma das numerosas entrevistas que lhe foram feitas, todas naturalmente com todo o respeito e precaução devidos ao putativo PR, designado para o cargo não pela graça de Deus, como acontecia com os antigos monarcas, mas sim pelo poder do grande capital, nunca ninguém lhe fez a pergunta que Baptista-Bastos celebrizou: - Onde estava no 25 de Abril? Pergunta que, como se sabe e se compreende, é tacitamente completada com uma outra: - Onde estava e o que fazia antes do 25 de Abril? É fácil imaginar que, perante tais perguntas, o senhor professor responderia que estava a estudar. E é verdade. Mas é legítima a suspeita de que estaria a estudar pouco, a estudar, digamos estreitinho. É certo que meteu na cabeça todas as sebentas do thatcherismo/reaganismo, seus complementos e derivações. Mas, tanto quanto nos é permitido avaliar pelas provas práticas já dadas ao longo de mais de dez anos, não aprendeu nada de jeito sobre os deveres de solidariedade, sobre o interior de uma máquina financeira que funciona para engordar estreitas minorias sob promessa de deixar escapar, um dia, para melhor remedeio das maiorias espoliadas, algumas migalhas do bolo acumulado, se porventura algumas migalhas houver. Aliás, não sofre dúvida séria que o próprio Cavaco sabe, ou pelo menos pressente, as suas drásticas limitações. De onde o discurso fechado quando não o silêncio. De onde o temeroso afastamento da área cultural. De onde também, à falta de argumentos, a impostura «light» que se arrisca, sem escrúpulos, no trauteio da canção de Abril e no ab(uso) de um verso de José Afonso. Vemos, ouvimos, sabemos. Não podemos ignorar.


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