Onde se fala da qualidade da fruta ou

Os célebres russos do Benfica

José Augusto
Kariaka proferiu declarações, a semana passada, que levantaram grande celeuma na imprensa desportiva portuguesa. O que o jogador russo do Benfica disse, está dito. E disse-o a um jornal de referência, o Sovietski Sport, e disse-o a Alexandre Boiarski, um jornalista cuja reputação não pode ser posta em causa.

Não vou procurar justificar as declarações do atleta. Ele não me passou procuração para tal, além de cada um ser responsável pelos seus actos e o seu verbo. Sem as aceitar ou condenar, direi apenas que semelham, acima de tudo, o desabafo de um jovem que desembarcou na nossa terra com a mente carregada de sonhos, quotidianamente empobrecidos nas intrincadas relações que regem o mundo do futebol.
No entanto, acho anormal o que se escreveu a propósito das acusações de Kariaka. Entre um alto representante da entidade patronal, sendo aquele o treinador e esta o clube, e um atleta que vive do futebol e se sentiu lesado nos seus interesses profissionais, muitos jornalistas com responsabilidades nos respectivos periódicos assumiram-se até ao insulto ao lado da parte dos mais fortes. Aliás, se o fazem com maior ou menor empenho em outras áreas onde empregador e empregado jogam forças, estranho seria que não o fizessem no domínio do pontapé na bola.
Houve até quem relembrasse os russos do Benfica, essas «maçãs podres», como alguém lhes chamou. Ora, eu acho que o que se passou – e quero trazer isto a lume, porque se cometeram então muitas injustiças - é que o clube não soube integrá-los numa sociedade com hábitos e posturas que eles desconheciam completamente. Gaspar Ramos, antigo dirigente do clube da Luz, é também dessa opinião. Pelo menos, foi isso que me disse certa vez que nos encontrámos por acaso.
Foi em Portugal que, pela primeira vez, Iuran, Mostovoi e Kulkov exerceram a sua actividade no estrangeiro. Esbarraram numa realidade totalmente diferente daquela em se formaram como grandes futebolistas. E cometeram erros, que a imprensa e comentadores avulso não lhes perdoaram. O primeiro artigo contra «os russos do Benfica» saiu num jornal generalista. Mas o interessante, no começo dessa longa campanha de perseguição, é que alguém viu sair de um bar os atletas estrangeiros. Um alguém que viu entrar futebolistas do mesmo clube nesse mesmo estabelecimento, quando os outros regressavam a penates. Só que escreveu sobre uns e esqueceu os outros. Foi o início de tudo.
Kulkov e Iuran foram campeões nacionais por dois clubes portugueses. Mostovoi tornou-se o «czar» de Vigo, um ídolo das gentes do Celta, quando a equipa galega brilhava nos relvados espanhóis e europeus. Kulkov ainda regressou ao seu Spartak, mas sequelas de graves lesões nos dois joelhos afastaram-no do futebol, porventura, prematuramente.
Iuran, esse conquistava a simpatia e o calor dos adeptos desde o primeiro jogo. No Benfica, foi menino bonito do terceiro anel; no Porto, foi o ai jesus do tribunal das Antas; no alemão Bochum, os sócios impediram que os dirigentes rescindissem o contrato com o russo. Quem o viu jogar sabe que deixava tudo em campo, que disputava qualquer jogada como se fosse a última, que colocava toda a sua rebeldia na luta pela vitória. Era de uma entrega e generosidade incomparáveis.
Uma generosidade que ressaltava no seu quotidiano, nas suas relações com as pessoas. Quando Cherbakov foi abandonado pelo clube, depois do estúpido acidente que o arredou para sempre dos campos de futebol, foi Iuran quem lhe pagou a viagem, a estadia e o internamento numa das mais conceituadas clínicas da África do Sul. A consciência doía-me se não relatasse este episódio.
Foi também a sua generosidade em campo que lhe acabou com a carreira desportiva. Num jogo ao serviço do seu clube austríaco, tentou recuperar com a cabeça uma bola onde outros meteram o pé. Ao cabo de meses, tentou ainda voltar a jogar, mas perdia o equilíbrio. Abandonou.
Se isto é fruta podre, onde está a boa?


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