Cesário Verde e a Lisboa real

Isabel Araújo Branco
Em 2005, ano em que se assinalou 150 anos sobre o nascimento de Cesário Verde, usamos a sua poesia para recuperar a imagem de Portugal, em especial de Lisboa, e encontrar uma cidade do passado mas que ainda hoje sobrevive nas ruas, nos prédios e principalmente na população. Somos outros, somos os mesmos? Usamos outras roupas, temos hábitos muito diferentes, ritmos variados, outras perspectivas, mas talvez o essencial se mantenha. Será possível uma rapariga de 18 anos que vive nos primeiros anos do século XXI ter semelhanças com as moças da segunda metade do século XIX? As ambições, as vivências, os costumes, as posturas, as mentalidades são sem dúvida muito diversas, mas e a cidade onde cresceram, a luz do céu, os ruídos na rua, as referências culturais, a atracção das águas do rio?
Lemos «O Sentimento de um Ocidental», um dos poemas mais aclamados do Livro de Cesário Verde, e podemos reconhecer algumas ruas da capital, da nossa, da mais pacata, da mais autêntica, da nossa Lisboa de 2005: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / despertam-me um desejo absurdo de sofrer.»
Temos já toda a urbanidade presente, talvez mais do que actualmente. Recuperamos a cidade viva, com população permanente, que a habita inteiramente, nela vive, nela trabalha, nela dorme, nela respira, em casas decadentes, sim, mas dentro de Lisboa, viva por dentro, não a cidade oca, vazia depois das 19 horas, de ruas desertas e frias, em que hoje se transformou, cidade quase morta à noite, aparentemente viva de dia graças aos habitantes das periferias, homens e mulheres que habitam mais no vai e vem do transporte do que nos dois pólos da viagem.
O poema dá-nos personagens que são nossas não apenas no imaginário: os operários que saem dos arsenais à tardinha; as varinas que se juntam «num cardume negro, hercúleas, galhofeiras»; os lojistas às portas dos estabelecimentos entretidos a espreitar quem passa. E refere-se o passado, outro mais distante, mas tão nosso como o era destas pessoas, tão nosso como são estas pessoas: «E evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!»

A dor humana

Mas, avançando, temos mais da nossa Lisboa. Temos os cafés e as tascas, as «íngremes subidas» e as «construções rectas, iguais, crescidas», os bancos de namorados e os largos das igrejas, tudo isto numa «estrutura ambulatória que reflecte o movimento do observador solitário», como refere Hélder Macedo em Nós. São percepções do sujeito que tudo regista, o que vê e o que sente, o que pensa e o que recorda, em gradações constantes de uma cidade que vai mudando ao longo do dia, ao longo das ruas, à medida que o tempo passa e os habitantes se movimentam.
Também o sujeito viaja para ver e analisar e reconhece a coragem do povo, a sua força, o seu vigor, a sua coragem, gestos e observações fugazes mas registados nas percepções visuais da cor, das gradações de luz, dos movimentos dos homens, dos sorrisos expressivos e das frases típicas, da verdadeira Lisboa, da cidade do quotidiano, do dia após dia, da cidade real. São fragmentos do mundo, que surgem através do sujeito, das imagens que cria, dos quadros verbais que formula, dos sentidos que transmite, como um flaneur que passeia sem rumo, com o único objectivo de deambular pelas ruas e praças, andando e observando, sentindo e projectando.
Mas, se encontramos um retrato de certo modo agradável deste povo de Lisboa, temos ao mesmo tempo um protesto contra a sua vida pobre, faminta e desventurada, produto da urbanidade e do mundo industrial, que o prende o oprime, que permite que o único futuro dos filhos das varinas seja «naufragar nas tormentas». O poema acaba com um misto de protesto e lamento: «E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / a Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!»
Como defende Hélder Macedo, «é a visão de um mundo às avessas, de enormes “prédios sepulcrais” projectando sombras sobre o vale escuro onde a dor humana, aprisionada pelas vastas muralhas do seu cerco esmagador, procura os “amplos horizontes”». É a cidade da tragédia, da miséria, do sofrimento, da injustiça, das heranças da pobreza, mas também da busca de soluções, de desfechos mais felizes, de esperanças fundamentadas, de uma vida melhor.


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