os colonialistas voltaram à violência
A fúria dos protestantes
O processo de paz na Irlanda do Norte, iniciado, auspiciosamente, após os acordos da Sexta-feira santa de 1998, continua suspenso. O caminho para a democracia, e usamos esta palavra com relutância dado não existir democracia no capitalismo e muito menos quando o imperialismo britânico está no poder, em vez de avançar, recuou.
O parlamento de Stormont está fechado às actividades políticas normais. Os partidos não só não se entendem como, pelo menos um deles, o ‘Ulster Unionist Party’ do reverendo Ian Paisley, mantém posições provocatórias constantes contra os partidos católicos, o ‘Sinn Fein’, particularmente, e o IRA (Exército Republicano Irlandês).
Para desbloquear o imobilismo e o interesse da reacção em que a situação actual se mantenha, o IRA anunciou estar pronto a proceder à destruição de todo o seu arsenal bélico. E assim tendo acontecido, o general canadiano, John de Chastelain, presidente da comissão que supervisiona a sensível questão dos armamentos, achou-se habilitado a declarar, publicamente: «As armas do IRA foram, finalmente destruídas. Acreditem no que vos digo!» O general assistiu, na companhia de autoridades religiosas católicas e protestantes, à efectiva destruição de 1000 espingardas metralhadoras, 500 outras armas ligeiras, 40 morteiros, seis lança-chamas, 600 detonadores de bombas, um ‘míssil’ terra-ar e três toneladas de explosivos ‘Semtex’. Poderia esperar-se que o IRA dispusesse de mais do que isto dada a pequena extensão dos seus efectivos regulares? O governo britânico aceitou esta nova situação e concordou em levar à prática certas condições postas pelos republicanos a saber: o desmantelamento de torres de controlo militar, a redução dos efectivos do Exército Britânico em toda a Irlanda do Norte, o retorno ao território de um grande número de activistas fugidos às autoridades britânicas por terem participado em acções militares e patrióticas e refugiados em diversos países. Nesta nova conjuntura, Tony Blair, declarou: «Chegou o momento por todos longamente esperado. Vivemos anos de grande paciência, perseverança e também de desapontamento para aqui chegarmos. Mas tentámos sempre não perder a esperança de que a Irlanda do Norte tem na sua frente um futuro melhor».
Os paramilitares protestantes, a Ordem de Orange e os activistas do partido de Paisley, entraram imediatamente em acção. E Belfast assistiu às mais violentas desordens dos últimos 10 anos. Com efeito, aqueles que afirmavam ser falsa a paz enquanto o IRA continuava armado, mostravam-se, agora, perante o povo do Ulster, de toda a Irlanda, da Grã-Bretanha e da Europa como verdadeiras organizações militares, a ‘Ulster Volunteer Force’ e a ‘Ulster Defence Association’. Civis armados atacaram a própria polícia, os bombeiros, soldados britânicos. Belfast e as províncias de Antrim e Down foram pasto das chamas e de múltiplas manifestações de ódio dos protestantes. As crianças tiveram de ser afastadas das escolas, mantendo-se em casa, os transportes públicos foram suspensos. As áreas católicas da capital (Belfast) foram objecto de violentos ataques levados a cabo por voluntários da Ordem de Orange. Estabelecimentos comerciais foram incendiados, tal como centenas de automóveis. Peter Hain, o ministro britânico destacado no Ulster, declarou: «A comunidade protestante tem o dever de apoiar a polícia e os bombeiros. Tem de rejeitar a anarquia. Este é o momento em que uma séria escolha tem de ser feita».
Assim trabalham os amigos da democracia
Grandes manobras
Todos recordamos que a suspensão do parlamento de Stormont teve lugar em Outubro de 2002 por exigência dos dois partidos protestantes. Alegaram, então, não lhes ser possível, como partidos democráticos, trabalhar lado a lado com o ‘Sinn Fein’, o partido dos católicos republicanos que luta pela união de toda a Irlanda, devido a que este não passaria de uma filial do IRA cujo potencial militar e estratégico desequilibrava toda a situação no Ulster. Posteriormente, os mesmos partidos de persuasão calvinista e presbiteriana, declararam que, escandalosamente, funcionava no parlamento um ninho de espiões do ‘Sinn Fein’ cujo trabalho consistia na apropriação de documentos que comprometessem os outros partidos assim como as relações destes com o poder britânico. Há cerca de um ano, o IRA era acusado de haver levado a efeito o maior assalto a um Banco em toda a história do Ulster. Semanas mais tarde, o IRA era, igualmente, acusado de ter ordenado a militantes seus a execução de dois inocentes cidadãos, num ‘pub’ em Belfast. A morte de um deles deu lugar a uma intensa campanha de propaganda anti-republicana por parte da noiva e de três irmãs do falecido que percorreram o mundo a insultar os dirigentes do ‘Sinn Fein’, Gerry Adams e Martin McGuinness acusando-os de pertencerem ao Estado-Maior do IRA.
Mas soube-se, agora, que um dos funcionários em quem Gerry Adams confiava, Denis Donaldson, era, no fim de contas, um agente secreto às ordens dos serviços de espionagem britânicos. Ficou estabelecido, portanto, que este Donaldson chefiava a administração dos serviços parlamentares do ‘Sinn Fein’ em Stormont, mas ele próprio admitiu que há 20 anos trabalhava para o governo de Londres. Nestes termos, a alegação dos protestantes de que havia um ninho de ‘espiões’ no parlamento deu lugar àquilo que pretendiam, o fim das actividades democráticas parlamentares. Mas os espiões, afinal, eram outros. E soube-se, mais tarde, que o assalto ao Banco fora perpetrado por ‘gangsters’ pertencentes a organizações leais ao colonialismo britânico e hostis à República da Irlanda (Dublin) enquanto as irmãs e a noiva de Robert McCartney, que diziam ter ele sido executado pelo IRA, após tantas viagens, já se calaram, finalmente.
Adeus George Best
Ao sucumbir no Cromwell Hospital em Londres, aquele que foi, talvez, o maior futebolista do Reino Unido, levou o mundo a olhar a Irlanda do Norte de maneira mais cândida e sentida. George Best foi o maior inimigo de si próprio. Viveu em alta velocidade. E tendo a Irlanda, a Inglaterra, a Europa a seus pés, fez tudo para morrer praticamente só. Não diremos abandonado, mas só, enquanto o cirurgião especialista que o assistiu, magnificamente, durante alguns anos, se confessava apaixonado pela bela mulher de quem o paciente se divorciara, há meses. Best era a tragédia à vista. A tragédia em si. Era a decadência anunciada em plena glória. Artista do futebol, figura de rebelde, também maravilhou Lisboa em 1966. Da Belfast afluente, sua terra natal, viu o melhor, logo desde a adolescência. Total acesso, evidentemente, às bebidas alcoólicas que o matariam. De miúdas e ‘pubs’ se fez a sua existência antes de os olheiros do Manchester United descobrirem que estava ali um futebolista de génio. A partir de aí, conheceu a glória mas abraçou-se, rapidamente, à desgraça e à aventura.
O funeral de Best saiu da casa paterna na Belfast protestante. O grande jogador provinha, de facto, da cidade protestante. Mas a sua fama e o seu contacto com o mundo levaram-no a reconhecer que a Irlanda é só uma e o povo irlandês só um. Por isso a sua grandeza era celebrada, também, em toda a Irlanda católica e republicana, tal como em Manchester e nos seus subúrbios, em toda a Inglaterra desportista e trabalhadora. A cerimónia religiosa que acolheu o funeral no próprio palácio de Stormont, de carácter nitidamente protestante foi vista pelo mundo inteiro porque George Best era, de facto, um herói da vida. Ficou no cemitério de Rosewall, nas colinas de Castlereagh, onde se reencontrou com a mãe, ali, também, depositada.
Para desbloquear o imobilismo e o interesse da reacção em que a situação actual se mantenha, o IRA anunciou estar pronto a proceder à destruição de todo o seu arsenal bélico. E assim tendo acontecido, o general canadiano, John de Chastelain, presidente da comissão que supervisiona a sensível questão dos armamentos, achou-se habilitado a declarar, publicamente: «As armas do IRA foram, finalmente destruídas. Acreditem no que vos digo!» O general assistiu, na companhia de autoridades religiosas católicas e protestantes, à efectiva destruição de 1000 espingardas metralhadoras, 500 outras armas ligeiras, 40 morteiros, seis lança-chamas, 600 detonadores de bombas, um ‘míssil’ terra-ar e três toneladas de explosivos ‘Semtex’. Poderia esperar-se que o IRA dispusesse de mais do que isto dada a pequena extensão dos seus efectivos regulares? O governo britânico aceitou esta nova situação e concordou em levar à prática certas condições postas pelos republicanos a saber: o desmantelamento de torres de controlo militar, a redução dos efectivos do Exército Britânico em toda a Irlanda do Norte, o retorno ao território de um grande número de activistas fugidos às autoridades britânicas por terem participado em acções militares e patrióticas e refugiados em diversos países. Nesta nova conjuntura, Tony Blair, declarou: «Chegou o momento por todos longamente esperado. Vivemos anos de grande paciência, perseverança e também de desapontamento para aqui chegarmos. Mas tentámos sempre não perder a esperança de que a Irlanda do Norte tem na sua frente um futuro melhor».
Os paramilitares protestantes, a Ordem de Orange e os activistas do partido de Paisley, entraram imediatamente em acção. E Belfast assistiu às mais violentas desordens dos últimos 10 anos. Com efeito, aqueles que afirmavam ser falsa a paz enquanto o IRA continuava armado, mostravam-se, agora, perante o povo do Ulster, de toda a Irlanda, da Grã-Bretanha e da Europa como verdadeiras organizações militares, a ‘Ulster Volunteer Force’ e a ‘Ulster Defence Association’. Civis armados atacaram a própria polícia, os bombeiros, soldados britânicos. Belfast e as províncias de Antrim e Down foram pasto das chamas e de múltiplas manifestações de ódio dos protestantes. As crianças tiveram de ser afastadas das escolas, mantendo-se em casa, os transportes públicos foram suspensos. As áreas católicas da capital (Belfast) foram objecto de violentos ataques levados a cabo por voluntários da Ordem de Orange. Estabelecimentos comerciais foram incendiados, tal como centenas de automóveis. Peter Hain, o ministro britânico destacado no Ulster, declarou: «A comunidade protestante tem o dever de apoiar a polícia e os bombeiros. Tem de rejeitar a anarquia. Este é o momento em que uma séria escolha tem de ser feita».
Assim trabalham os amigos da democracia
Grandes manobras
Todos recordamos que a suspensão do parlamento de Stormont teve lugar em Outubro de 2002 por exigência dos dois partidos protestantes. Alegaram, então, não lhes ser possível, como partidos democráticos, trabalhar lado a lado com o ‘Sinn Fein’, o partido dos católicos republicanos que luta pela união de toda a Irlanda, devido a que este não passaria de uma filial do IRA cujo potencial militar e estratégico desequilibrava toda a situação no Ulster. Posteriormente, os mesmos partidos de persuasão calvinista e presbiteriana, declararam que, escandalosamente, funcionava no parlamento um ninho de espiões do ‘Sinn Fein’ cujo trabalho consistia na apropriação de documentos que comprometessem os outros partidos assim como as relações destes com o poder britânico. Há cerca de um ano, o IRA era acusado de haver levado a efeito o maior assalto a um Banco em toda a história do Ulster. Semanas mais tarde, o IRA era, igualmente, acusado de ter ordenado a militantes seus a execução de dois inocentes cidadãos, num ‘pub’ em Belfast. A morte de um deles deu lugar a uma intensa campanha de propaganda anti-republicana por parte da noiva e de três irmãs do falecido que percorreram o mundo a insultar os dirigentes do ‘Sinn Fein’, Gerry Adams e Martin McGuinness acusando-os de pertencerem ao Estado-Maior do IRA.
Mas soube-se, agora, que um dos funcionários em quem Gerry Adams confiava, Denis Donaldson, era, no fim de contas, um agente secreto às ordens dos serviços de espionagem britânicos. Ficou estabelecido, portanto, que este Donaldson chefiava a administração dos serviços parlamentares do ‘Sinn Fein’ em Stormont, mas ele próprio admitiu que há 20 anos trabalhava para o governo de Londres. Nestes termos, a alegação dos protestantes de que havia um ninho de ‘espiões’ no parlamento deu lugar àquilo que pretendiam, o fim das actividades democráticas parlamentares. Mas os espiões, afinal, eram outros. E soube-se, mais tarde, que o assalto ao Banco fora perpetrado por ‘gangsters’ pertencentes a organizações leais ao colonialismo britânico e hostis à República da Irlanda (Dublin) enquanto as irmãs e a noiva de Robert McCartney, que diziam ter ele sido executado pelo IRA, após tantas viagens, já se calaram, finalmente.
Adeus George Best
Ao sucumbir no Cromwell Hospital em Londres, aquele que foi, talvez, o maior futebolista do Reino Unido, levou o mundo a olhar a Irlanda do Norte de maneira mais cândida e sentida. George Best foi o maior inimigo de si próprio. Viveu em alta velocidade. E tendo a Irlanda, a Inglaterra, a Europa a seus pés, fez tudo para morrer praticamente só. Não diremos abandonado, mas só, enquanto o cirurgião especialista que o assistiu, magnificamente, durante alguns anos, se confessava apaixonado pela bela mulher de quem o paciente se divorciara, há meses. Best era a tragédia à vista. A tragédia em si. Era a decadência anunciada em plena glória. Artista do futebol, figura de rebelde, também maravilhou Lisboa em 1966. Da Belfast afluente, sua terra natal, viu o melhor, logo desde a adolescência. Total acesso, evidentemente, às bebidas alcoólicas que o matariam. De miúdas e ‘pubs’ se fez a sua existência antes de os olheiros do Manchester United descobrirem que estava ali um futebolista de génio. A partir de aí, conheceu a glória mas abraçou-se, rapidamente, à desgraça e à aventura.
O funeral de Best saiu da casa paterna na Belfast protestante. O grande jogador provinha, de facto, da cidade protestante. Mas a sua fama e o seu contacto com o mundo levaram-no a reconhecer que a Irlanda é só uma e o povo irlandês só um. Por isso a sua grandeza era celebrada, também, em toda a Irlanda católica e republicana, tal como em Manchester e nos seus subúrbios, em toda a Inglaterra desportista e trabalhadora. A cerimónia religiosa que acolheu o funeral no próprio palácio de Stormont, de carácter nitidamente protestante foi vista pelo mundo inteiro porque George Best era, de facto, um herói da vida. Ficou no cemitério de Rosewall, nas colinas de Castlereagh, onde se reencontrou com a mãe, ali, também, depositada.