Mentir no Natal

Correia da Fonseca
Foi mesmo no Dia de Natal que, já se sabe, é tempo de fraternidade e partilha, de anunciada Paz na terra aos homens de boa vontade. Por sinal sempre me impressionou, desde miúdo, que as vozes e letreiros celestiais que eu bem conhecia por vê-los em presépios armados e em cenários de cinema, com a óbvia autoridade decorrente do facto de virem de onde vinham, desde logo nos prevenissem da circunstância de haver homens de boa vontade, mas também os outros, os que não a têm. Mais tarde, inclinei-me a crer que o aviso corresponde à percepção havida Lá em Cima da existência da luta de classes e da exploração de homens por outros homens, parecendo-me curioso que o que é reconhecido num plano transcendente ainda não o seja por alguns sujeitos muitíssimo imanentes que se obstinam em dizer que isso, classes e exploração, são pérfidas invenções de um sujeito chamado Karl. Mas adiante. Ou melhor, voltemos ao princípio. Foi no Dia de Natal. E na TV, que este ano me pareceu ter-se esquecido da existência de pobres e excluídos aqui, no nosso país, como ocorrera em anos anteriores, para sobretudo se lembrar, e aliás muito simpaticamente, do tsunami acontecido há um ano e das suas vítimas. Também se lembrou das criancinhas, e não apenas para lhes impingir a publicidade dos mais desvairados, caros e deseducativos brinquedos. E também, é claro, dos doentes hospitalizados, elemento indispensável para a realização dos diversos Natais nos Hospitais, desta vez até com direito à repetição de espectáculos de anos passados, com beneméritas consequências para os telespectadores desvalidos e também para as estações que assim ocuparam as antenas com baixos custos de emissão. Mas deixemo-nos definitivamente de rodeios e complementos para anunciar o que comecei por descrever: Foi no Dia de Natal.

132 Países

Foi no Dia de Natal, embora tenha havido repetição no dia seguinte, que a televisão me disse, nos disse, que em diversos lugares do mundo estavam forças militares «para defender a Paz». É mentira, bem o sabemos. É mentira, e mesmo sabendo que o destino provável da generalidade dos pecados é serem perdoados desde que se verifiquem certas condições que seria ocioso elencar aqui, até porque isto não é um catecismo, é uma coluna de comentários à TV e ao que nela se vê e ouve, receio que esta mentira seja das de perdão mais difícil. É que arranca de um momento especialmente festivo, com raízes na esperança e no amor pela verdade, e isso torna a mentira mais grave e crivada por circunstâncias agravantes. Para mais, quando a TV nos estava a dizer isso da Paz a ser defendida por soldados armados até aos dentes e espalhados pelos quatro cantos do mundo, mostrava-nos imagens com soldados norte-americanos julgo que no Afeganistão, mas é claro que também poderia ser no Iraque ou, dizendo-o de um modo mais amplo, em qualquer dos 132 países onde, em todo o mundo, drapeja a bandeira das listas e das estrelas, que são agora 50 depois da anexação do Hawai no final da Segunda Guerra Mundial. Ora, muita gente na Terra sabe, por vezes em trágicas condições, que o que esses rapazes, essas sofisticadas armas, essas ogivas nucleares (entre as quais duas mil em alerta permanente) estão a fazer não é a defender a Paz, é a ocupar rotas de petróleo, a assegurar um completo cerco aos territórios que integraram a URSS, a fazerem do Pacífico uma espécie de gigantesco lago norte-americano. Aliás, isto não é segredo que se queira bem guardado: é sabido que os dirigentes norte-americanos proclamam regularmente que as suas forças armadas estão onde é preciso garantir os «interesses estratégicos» dos Estados Unidos, não onde a Paz esteja ameaçada. Para falar com franqueza, o discurso da Paz não é nada típico dos Estados Unidos, foi-o muitíssimo mais do derrotado Bloco Socialista, o que bem se compreende porque a Paz é um projecto subversivo da prática política USA. Mas invocá-la serve menos mal para maquilhar a realidade, e é a essa maquilhagem que se prestam as estações de TV que pelo Natal vêm contar estorinhas falsas sobre a presença militar norte-americanas no mundo. É um muito feio pecado, como acima se disse. E note-se que não se acrescentou a suspeita de poder ser um serviço consignado, com recompensa possível e não necessariamente em dinheiro ou em espécie. Essa reflexão complementar fica por conta do leitor, se tanto lhe apetecer. Bastando, quanto a nós, sublinhar que essa estorieta é mentirosa, e que a TV no-la instila gota a gota, regularmente. Para isso se servindo até do Natal, o que parece razoavelmente desrespeitoso, se não sacrílego.


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