Prática e proveito da Caridade

Jorge Messias
Em Portugal, ler os jornais assusta. Por entre uma nuvem espessa de escândalos e falsas promessas, o governo prepara novos instrumentos de saque. Vão diminuir os salários reais. Tudo o resto vai aumentar: água, luz, transportes, rendas, telefones, alimentação, saúde, vestuário, desemprego. Tão graves consequências trará esta política ao nosso povo que fácil é resumi-las numa curta expressão : a miséria vai bater à porta dos trabalhadores e das camadas sociais mais indefesas. Veremos se assim não é.
Não se trata de actos isolados do poder, de erros ou distracções. O actual governo e os grandes patrões têm estratégias bem definidas. Prometeram erguer uma Aldeia global e, afinal, construíram duas: a Aldeia de Cima e a Aldeia de Baixo. O fosso que as separa é cada vez maior. É-lhes necessário explorar todas as fontes de rendimento, ainda que seja a da miséria. É neste sentido que o governo e o patronato aplanam caminhos. Os políticos dizem-se socialistas, sociais-democratas e cristãos. Os banqueiros proclamam-se campeões da ética e declaram que o Homem se encontra no centro das suas preocupações. Aplaudem-se uns aos outros enquanto organizam em seu proveito o Mercado Global da Miséria.

O combate à pobreza

A questão central é que, na política ou nas finanças, o capitalista não pode ser caridoso, como o cidadão comum. A miséria deve ser olhada objectivamente, como qualquer outra fatia de mercado. E se a considerarmos nesses termos, facilmente veremos que a miséria entre as massas pode também tornar-se um motor da economia. Deve dar lucros, tal como a ética cristã empresarial. Por isso, as principais forças vivas da sociedade civil - o grande patronato, a banca privada, os institutos financeiros e o movimento religioso e caritativo - preparam activamente a fusão das suas estratégias com as do governo socialista, no sentido da privatização da miséria e da passagem a um estádio superior das formas globais da sua exploração. O governo, porque receia a explosão social da população miserável. A banca e a finança, por estarem conscientes de que a existência de camadas totalmente exploradas não contribui para a formação de um poder de compra compatível com as exigências da sociedade de consumo. O movimento religioso e caritativo confessional participa activamente no «lobby da miséria» por diversas razões, todas elas respeitáveis para as igrejas: o conceito de caridade está desacreditado; as comunidades têm de acertar o passo com o mundo da globalização; o lucro e os privilégios são valores que não devem ser desbaratados ; as igrejas e outras forças espirituais têm de manter a sua imagem divina, face aos explorados e oprimidos. Tudo isto une as forças interessadas num pretenso combate à pobreza.
É certo que na Europa a igreja católica dispõe da esmagadora maioria da rede caritativa que vai da Alemanha aos países do Sul ; que os ortodoxos dominam no Leste da Europa; que as igrejas islâmicas dirigem um poderoso sistema assistencial privado no mundo muçulmano; e que, na fase presente da globalização, há falhas graves de coordenação que fazem perder a estas estruturas religiosas parte importante do seu esmagador potencial. Não é satisfatória a forma como se dirige e usa o voluntariado ; o modo como se combate a anarquia reinante nas ONGS e nas IPSS e se impõe a sua racionalização; ou se melhoram os níveis efectivos de interpenetração dos grupos económicos privados e religiosos. O Ecumenismo pode representar para estes ajustamentos um instrumento interessante.
Neste sentido registou-se, há poucos dias, uma manobra de sedução que não foi minimamente explicada à opinião pública. O fabuloso Aga Khan mongol deu um salto a Portugal e assinou, pela calada, um protocolo com o governo socialista e laico que se comprometeu a entregar a islamitas e católicos, uma enorme área de funções que a lei fundamental atribui ao Estado: o combate à pobreza em todo o território nacional, incluindo creches para crianças pobres, lares para idosos desfavorecidos, instituições para doentes mentais, erradicação das barracas e integração na sociedade de minorias de imigrantes. Católicos e eslamitas trabalharão lado a lado. A Fundação Aga Khan (Ismamat Ismaili) colaborará intimamente com as Misericórdias e com o Banco Alimentar, comprometendo-se a financiar integralmente este gigantesco esforço que caberia ao Estado.
É frequente que negócios deste tipo não sejam, depois, cumpridos.
Neste caso, sejam ou não respeitados os compromissos assumidos, fica deles a clara evidência da corrupção, do compadrio e do desprezo por qualquer vestígio de respeito pela Constituição democrática que dominam na esfera de poder da governação e das igrejas.


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