O tonto e o Resto

Correia da Fonseca
Foi, no passado domingo, um breve momento de reportagem que contudo foi chamado para o título de abertura dos grandes telenoticiários da noite: o candidato Mário Soares fora alvo de uma agressão. Minutos depois, vistas as imagens e ouvidos os sons, verificar-se-ia que a agressão havia sido mínima, aparentemente irrelevante, e que por várias razões seria excessivo e injustificado evocar o «caso da Marinha Grande», como alguns fizeram talvez por cedência à tentação da facilidade, talvez com uma pontinha de intenções maldosas. Contudo, apesar da dimensão minúscula do incidente, talvez não nos faça mal reflectir um poucochinho sobre ele. Começando por notar e acentuar que enquanto na Marinha Grande, há já bem mais de um par de anos, o motor da agressão ao candidato, algo naturalmente sempre inaceitável, foi a indignação relativamente a uma política lesiva dos trabalhadores, neste domingo a agressão foi acompanhada por evidentíssimos sinais de saudade pela vertente colonialista do fascismo, por palavras conotáveis com a guerra colonial e o racismo. Ali, explícita ou implicitamente, Mário Soares foi mais uma vez acusado de ser o responsável pela descolonização. Acusação injusta, aliás, só possível na cabeça dos que não sendo muito espertos à partida, têm a sua inicial burrice muito agravada pela ignorância, pela absorção em doses maciças da propaganda colonial-fascista, por alguma desonestidade mental própria e alheia. Na verdade, a responsabilidade pela descolonização é da resistência heróica dos povos colonizados, das obstinadas cegueira e surdez do salazarismo, da generalizada condenação pela opinião pública internacional da obsoleta e criminosa guerra que o fascismo português prosseguia, da solidariedade e apoio que os independentismos africanos recebiam de todas as forças democráticas de todo o mundo, da encíclica papal que afirmava a legitimidade do recurso à resistência armada quando se tratava da libertação de povos oprimidos. É claro que o desgraçado que em Barcelos tentou agredir Soares não sabe nada disto e, para mais, estaria intoxicado pelas imposturas de um velho jornal de escândalos de que se disse em tempos, talvez sem justificação, estar ligado a elementos da extinta PIDE/DGS. Porém, uma coisa é o sujeito ser ignorante e desgraçado, e outra coisa é não ter o seu gesto nenhum significado. E esta é uma distinção sobre a qual talvez devamos demorarmo-nos um pouco.

Pergunta e resposta

O homem estava, está ainda, de uma maneira evidente e pelos vistos com consequências agressivas, com a caixa craniana ainda atafulhada de velhas patranhas. Acredita de certo que esteve em África a arriscar a vida para defender Portugal, quando na verdade o que terá ajudado a fazer foi a comprometer a honra de uma pátria naqueles tristes anos salpicado pelo sangue de portugueses e africanos imolados numa guerra injusta, criminosa e inviável. Ao contrário do que o sujeito crê, a honra portuguesa foi resgatada, isso sim, pelos que finalmente cumpriram a descolonização em coerência com os deveres da justiça e da civilização verdadeiramente cristã. Contudo, a questão que se suscita agora, perante esta tonta e significativa agressão, a de perguntarmos como é ela ainda possível depois de mais de trinta anos de democracia política. E de encontrarmos resposta. A criatura que surgiu em Barcelos no caminho de Soares, de boina militar ridiculamente inadequada, lembrou aqueles soldados japoneses que décadas depois do fim da guerra ainda se mantinham acoitados em montanhas, ignorantes de tudo quanto se passara, sem notícias do mundo. Só que Barcelos não é a montanha. Sendo assim, como é que àquele sujeito nunca chegou a notícia de que a guerra colonial foi injusta e criminosa, que a honra portuguesa esteve na paz e não na repressão armada, que os infamemente chamados «turras» eram homens que se batiam pela terra que era sua? A resposta, sabemo-la que tem andado muito escondida porque poucas ou nenhumas vezes foi dita. O homem estava assim porque nunca os competentes órgãos do Estado se esforçaram para que a verdade lhes fosse dita. Ao longo de mais de trinta anos, os media públicos, e também os privados que não têm os deveres que ao Estado incumbe mas, dizendo-se democráticos, têm os que são impostos pela decência em liberdade, nunca fizeram chegar àquele homem a verdade sobre o colonialismo e a sua guerra. Por isso o vimos, ao desgraçado, ridículo mas inchado de colonial-fascismo. Por isso vimos que pelo menos naquela variante, porventura noutras mais, o velho fascismo ainda tenta morder. O velho fascismo, saudoso de farda e tudo. Por isso pudemos pressentir que, para além daquele, haverá outros mais, porventura não tão tontos nem tão obsoletos. Mas é escusado esperar que os grandes media e os poderes públicos e democráticos se importem muito com isso.


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