A razão determinante e o precipício

Francisco Silva
Tudo a convergir sempre no mesmo ponto - isto é, no sentido do nó górdio.
O Primeiro-Ministro (PM) saiu a apelidar de demagogia - vejam lá - a posição da CGTP ao reivindicar, para 2010, um salário mínimo de 500 Euros - «esquecendo-se» de saltar também contra outras ainda maiores reivindicações sindicais de outros quadrantes - uns dirão que terá algo contra a CGTP, outros, menos «sectários», dirão que o PM ou não se apercebeu das outras reivindicações ou, só agora é que lhe teria chegado a mostarda ao nariz dos seus impulsos.
Mas, quem aqui escreve, procurando seguir o raciocínio do PM - Querem lá ver, somos pobres, dinheiro não há, vamos rebentar com as empresas que deixarão de vez de ser competitivas, o Trabalho «já» têm 40% do produto nacional (que é todo, aliás, produzido pelo trabalho - comentário de quem lê pela grelha marxista), ainda quer mais, nada mau o que recebe, o quê, é muito baixa a participação nos rendimentos totais, muito mais baixa que por aí à volta, nos nossos parceiros, e mesmo em relação ao que se costumava praticar em Portugal, paciência temos que fazer sacrifícios para «nos» desenvolvermos. Etc, etc.
Também a convergirem - Sim, porque só para o Estado vai mais de 40% do produto nacional, pouco sobrando para as empresas, incluindo os seus trabalhadores - Outra forma de fazer as contas da forma como o bolo é repartido, como se os trabalhadores da função pública, esses “privilegiados”, não produzissem nada, como se o seu trabalho não fosse necessário para a produção de bens transaccionáveis com o estrangeiro… os únicos que contariam porque os trabalhadores/consumidores cá do burgo são fracos compradores (Pudera, que valem os seus salários? - comentário do mesmo contestatário, sempre o mesmo, ou os mesmos).
Agora, vieram ainda a público com esta história dos fundos de pensões dos bancários serem integrados no esquema geral. E logo os gritos de alarme! Que os milhares de milhões, os «biliões» [, à americana], de Euros contabilizados no Orçamento de Estado poderiam dar, quase já, como resultado da operação, uma queda abrupta do défice público, acaba o rigor! Certo, no longo prazo, era bom - pareceu-me entender das mensagens especialistas na Comunicação Social -, ficavam todos normalizados (sempre por baixo, é claro), a «competitividade» da Banca aumentava, tralari, tralará…
Ah, agora apanhei-te! Pois então esta do défice público é muito estranho. O que ele verdadeiramente significa não é o que nos querem fazer crer - seria antes como o défice de cada um de nós, e das despesas de cada família, havendo sempre um saco cheio de moedas escondido a cada canto! E, então, basta ir tirando coelhos da cartola para ele variar a bel-prazer. O único objectivo da operação «défice público» parece ser mesmo o de diminuir a massa salarial total, neste caso através de cortes na função pública. Não só se transferem mais valias para o Capital, como, sendo o empregador público uma referência básica para o mercado de trabalho, alivia-se esta pressão sobre os empregadores privados.
Quer dizer, a campanha relativa ao défice público, no nosso País, adquire contornos muito específicos de campanha contra tudo o que possa significar o ter de abandonar o chamado modelo de «mão-de-obra barata». E, entre outras coisas, significa uma declaração de incompetência e medo por parte dos dirigentes económicos de não conseguirem dar o salto «inovador» para o «modelo» mais «competitivo» e «produtivo», que tantos apregoam. Mais, por tabela, isto do défice constitui uma cartilha para os que detêm as rédeas do Estado, estes ou os anteriores, pois o fundo da questão é sempre o mesmo, para além das alternâncias.
Um novo «modelo» - incluindo, para além de outras coisas, uma nova e muito mais elevada «intensidade» científica e tecnológica - que, para ser implementado, obriga, logo à partida, à própria cabeça. que os custos de trabalho empregues nessa transformação sejam pagos. Com efeito, não se trata apenas de produzir para «distribuir» mais depois (oh, vã propaganda da esmola!). Trata-se disto, de «distribuir» o rendimento alcançado, mas também se trata de ter de investir e suportar os custos salariais necessários «antes» para que os processos inovadores se iniciem e tenham lugar. É esta uma coisa que ELES sabem e da qual ELES a sete pés fogem.
Esta é a questão a esclarecer, caso não se queira apenas estar a falar de planos tecnológicos enquanto a capacidade produtiva nacional vai tombando no precipício.


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