De mineiro a grande futebolista

José Augusto
Alguns pensamentos do famoso Raymond Kopa

Há cerca de vinte anos comprei, numa livraria de Moscovo, um livro intitulado «Mon football», da autoria de Raymond Kopa, para muitos um dos melhores futebolistas franceses de todos os tempos.
Filho e neto de mineiros polacos, ele próprio conta sobre a sua adolescência: «A partir dos 14 anos, comecei a trabalhar numa mina do norte de França, a mais de 600 metros de profundidade, no meio do pó, da água e da escuridão. Tornei-me no que se chama um galibot, mineiro em calão do norte.
«No dia de folga, fazia tudo para jogar futebol. Por fim, consegui treinar à tarde no meu clube. Sabia que era a minha única arma para me escapar da mina. E logo depois daquela cidade...»
Feita a primeira apresentação do autor, que muitos dos mais velhos de nós conhecem de ver ou ouvir falar, passemos à brochura, a qual encerra dois factos de muito interesse: primeiro, o ter sido lançada na versão original, o francês, pela «Escola Superior», assim se chamava uma editora de Moscovo que trabalhava para os estudantes que cursavam línguas estrangeiras. Sendo o futebol uma das modalidades desportivas mais populares da URSS, esta era uma forma de atrair a atenção dos estudantes para o idioma que estudavam.
Segundo, as desassombradas opiniões de Raymond Kopazswski, o famoso Kopa, elemento preponderante do lendário Real Madrid, esse realmente constituído por atletas de outra galáxia, por força do virtuosismo de jogadores como Di Stéfano, Puskas, etc. Escreveu Kopa sobre o mundo do futebol de então:
«A maior parte dos dirigentes caem de pára-quedas sem perceberem grande coisa de futebol. A presidência de um clube, para eles, representa, sobretudo, uma posição social. Fala-se deles. Tornam-se célebres, porque são adulados, entrevistados. Tornam-se personalidades. Ora, a maior parte deles não conhece nada, é incapaz de ajuizar sobre o jogo, os jogadores ou treinadores.»
E prossegue o ex-mineiro, que viria a ganhar, já como jogador profissional, a Taça do Mundo de 1958, pela França, a Taça dos Clubes Campeões Europeus nos anos de 1957, 58 e 59, pelo Real Madrid, e quatro Campeonatos de França, em 1953, 55, 60 e 62, pelo Reims: «O raciocínio desses dirigentes é simples. Dizem ao treinador: “Temos confiança no senhor, com uma condição: que obtenha resultados”. Se tal acontecer, não há problemas. Mas logo que surgem as primeiras contrariedades, o visado é sempre o treinador. Como quereis que, em risco de perder o lugar a qualquer momento, o infeliz conserve a serenidade indispensável? Trabalhar em profundidade? Ele pensa é no resultado imediato. E como, para ele, o essencial não é ganhar, mas não perder, adopta tácticas cautelosas, evita correr riscos, está-se nas tintas para a qualidade do jogo.»
E pondera: «Se os antigos jogadores se ocupassem mais da sua modalidade preferida, não a deixando cair nas mãos de dirigentes pouco capazes, talvez o futebol não tivesse entrado em crise. Mas o que acontece é que os dirigentes dos clubes são escolhidos por tudo, menos pelo seu passado desportivo, pela sua competência desportiva.»
É óbvio que estas palavras de Kopa, que têm décadas, se referem ao futebol francês daquele tempo. Mas pergunto eu o seguinte: não alcançariam elas actualização se tivessem sido proferidas por um dos futebolista que pisam, actualmente, os relvados portugueses?


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