Silêncio de Vidro
Silêncio de Vidro é um belo livro de poemas de Maria Eugénia Cunhal agora reeditado pela Editorial Escritor, cuja primeira publicação data de 1962, quando o neo-realismo produzia ainda os seus últimos frutos. Ecos de Sidónio Muralha, especialmente no tratamento solidário do tema de infância, podem rastrear-se em muitos dos poemas deste conjunto sem dúvida harmonioso, onde uma voz feminina, delicada mas firme, se afirma de modo pessoal na descoberta da vida e na comovida indignação perante as desigualdades sociais e a humilhação dos mais fracos.
À realidade feia e triste contrapõe-se a esperança, um pouco à maneira de Mário Dionísio. As imagens do povo que Maria Eugénia Cunhal nos dá nada tem de artificial, de falsamente embelezado; são contundentes, por vezes apelam à revolta. Há alguns poemas particularmente comunicativos e até mesmo originais, que ao longo do livro se repetem em situações distintas. Cito, para exemplo, este:
À realidade feia e triste contrapõe-se a esperança, um pouco à maneira de Mário Dionísio. As imagens do povo que Maria Eugénia Cunhal nos dá nada tem de artificial, de falsamente embelezado; são contundentes, por vezes apelam à revolta. Há alguns poemas particularmente comunicativos e até mesmo originais, que ao longo do livro se repetem em situações distintas. Cito, para exemplo, este:
Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti.
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
- Menino que sonhava estrelas iguais às minhas
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios,
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
Mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.