A RDP Coreia

Um alvo do imperialismo desde há 60 anos

Jorge Cadima
A República Democrática e Popular da Coreia é alvo de hostilidade na comunicação social e em alguns sectores da opinião pública. Mas muita desta hostilidade ignora factos fundamentais da História e da realidade do mundo em que vivemos.
Os planos de ataque militar em 1994


Em 1994 os EUA estiveram à beira de atacar a Coreia. «Oito anos antes do governo Bush ter decretado a sua estratégia de segurança nacional baseada na doutrina da pre-empção, os Estados Unidos estiveram à beira de desencadear uma guerra para impedir a Coreia do Norte de se vir a dotar de armas nucleares». Quem faz esta afirmação não é nenhuma «fonte propagandística norte-coreana»?, mas sim os autores desses planos «pre-emptivos» de guerra: William Perry e Ashton Carter, respectivamente Ministro e Vice-Ministro da Defesa dos EUA durante a primeira presidência Clinton. Esses dois guerreiros imperiais acrescentam, no artigo1 que escreveram no Washington Post de 20.10.02: «Nós os dois, [trabalhando] na altura no Pentágono, preparámos os planos de ataque às instalações nucleares da Coreia do Norte e de mobilização das centenas de milhar de soldados americanos para a guerra que provavelmente se teria seguido. [....] passámos boa parte da primeira metade de 1994 a preparar a guerra na Península Coreana». Os dirigentes imperialistas do único país que alguma vez usou armas nucleares confessam ter planeado um ataque a uma central de produção de energia nuclear – como as que existem em numerosos países, incluindo os EUA - poucos meses depois de ter vindo a público que algumas das armas nucleares que os EUA tinham apontado contra a URSS iriam passar a apontar contra a Coreia do Norte2.
Os ministros não ignoravam as consequências da sua agressão: «preparámos um plano pormenorizado de ataque contra as instalações de Yongbyon, utilizando bombas de precisão. Estávamos altamente confiantes em como seria destruída sem provocar uma fusão [do reactor] que libertasse radioactividade para a atmosfera. [...] Mas um ataque a Yongbyon, embora cirúrgico em si mesmo, seria tudo menos cirúrgico nos seus efeitos globais. O resultado provável dum tal ataque seria uma reacção das forças militares da Coreia do Norte [...] que atravessariam a Zona Desmilitarizada que separa a Coreia do Norte e a do Sul. [...] Na eventualidade dum ataque norte-coreano, as forças dos EUA [...] rapidamente destruiriam o exército e o regime norte-coreanos. [...] os combates numa nova Guerra da Coreia travar-se-iam nos subúrbios densamente povoados de Seul [...] Milhares de tropas dos EUA e dezenas de milhar de tropas da Coreia do Sul seriam mortos e milhões de refugiados encheriam as estradas. [...] A intensidade dos combates superaria tudo aquilo que o mundo já viu desde a anterior Guerra da Coreia». É aterradora a naturalidade criminosa com que se descarta a possibilidade de um desastre nuclear após um ataque militar a uma central atómica. E como é hábito, os fautores das guerras imperialistas nem se dignam referir os mortos civis que a sua agressão causaria. Recorde-se que na «anterior Guerra da Coreia» de 1950-53 morreram milhões de coreanos. Nas palavras do General estado-unidense Curtis Le May3, citado num muito interessante e informativo trabalho de outro norte-americano, Gregory Elich4, «arrasámos praticamente todas as cidades da Coreia do Norte e do Sul [...] matámos um milhão de civis coreanos e desalojámos vários milhões mais».

O Acordo-Quadro de 1994

O ataque dos EUA ao reactor civil norte-coreano não se concretizou. O governo sul-coreano insurgiu-se. A agência France Presse (24.5.00) cita o ex-Presidente da Coreia do Sul, Kim Young-Sam, que falou ao telefone com Clinton durante 32 minutos: «disse-lhe que não haveria uma guerra entre coreanos enquanto eu fosse Presidente. Clinton tentou persuadir-me a mudar de opinião, mas eu critiquei os Estados Unidos por prepararem o começo duma guerra na nossa terra». Por outro lado, o ex-Presidente dos EUA, James Carter «decidiu intervir pessoalmente, voando para Pyongyang numa missão não oficial para abrir negociações»5. Segundo Carter, os dirigentes norte-coreanos afirmaram-se dispostos a interromper os projectos de energia nuclear caso lhes fosse assegurada a construção de centrais energéticas alternativas, no âmbito de um acordo sujeito a inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica, e «se os EUA se comprometessem a não atacar o seu país com armas nucleares». Sem o conhecimento de Washington, Carter anuncia publicamente que existe uma base para acordo, retirando o tapete a quantos queriam desencadear a guerra. Segundo um funcionário do Departamento de Estado (o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA) «a coisa mais chocante a propósito da visita de Carter [...] foi que quando ele alcançou o congelamento, as pessoas aqui ficaram abatidíssimas».
Da visita de Carter surgiu o Acordo-Quadro de 21 de Outubro de 1994. O ex-embaixador dos EUA na Coreia do Sul, entre 1989 e 1993, Donald Gregg6, afirma claramente que a Coreia do Norte respeitou o Acordo-Quadro. E acrescenta que, da parte dos EUA, «houve algum arrastar dos pés». A verdade é que os EUA não cumpriram a sua parte dos acordos, que previa a construção de uma nova central de produção energética até 2003. E em 15 de Novembro de 2002 os EUA deixam de cumprir outro ponto de acordo, ao cortarem o fornecimento de petróleo à RDPC, medida a que se haviam comprometido enquanto não fossem concluídos os trabalhos de construção da nova central. Como confirma o Embaixador Gregg, foi Washington, e não Pyongyang, que pôs fim ao Acordo-Quadro de 1994.

As ameaças prosseguem

Os últimos anos confirmam as ameaças dos EUA à RDP da Coreia. Bush incluiu a Coreia do Norte na famigerada lista de países do «Eixo do Mal». O Presidente da Coreia do Sul, Roh Moo-hyun repete as palavras do seu predecessor quando declara à CNN em 19 de Janeiro de 2003 que «quando fui eleito [...] pessoas com posições de responsabilidade no governo dos EUA falavam da possibilidade de atacar a Coreia do Norte. Sentia-me realmente desesperado». Em 28.2.03 o jornalista do New York Times Nicholas D. Kristof afirma que «algum do trabalho mais secreto e mais assustador em curso no Pentágono diz respeito aos planos para um possível ataque militar contra as instalações nucleares na Coreia do Norte [...] até se fala da utilização de armas nucleares tácticas». O Plano 5030 do Pentágono, de que dá conta o US News and World Report de 21.7.03, é descrito como um plano de provocações conducentes à guerra contra a RDPC.

Solidariedade

O povo coreano tem todas as razões para se sentir ameaçado pela mais agressiva potência imperialista dos nossos dias. Como esquecer que os EUA ocupam militarmente a península coreana há mais de 60 anos, impondo a divisão do país? Como esquecer as atrocidades cometidas pelos EUA durante a guerra de 1950-53, com ameaças de utilizar a arma atómica7? Como esquecer as provocações e agressões ao longo de 60 anos8, de Democratas e Republicanos, de neo-cons e paleo-libs? Como não levar em conta os planos em curso para interceptar o tráfego marítimo da RDPC, que dá pelo nome de «Iniciativa de Segurança contra a Proliferação (PSI)» e à qual o governo português aderiu9? Como não ver no exemplo do Iraque que o desarmamento unilateral e as concessões ao imperialismo não impedem a agressão, baseada nas mais descaradas mentiras?
A distância entre Portugal e a Coreia é enorme. As diferenças políticas e culturais são igualmente grandes. São também evidentes as diferentes concepções de socialismo entre o PCP e o Partido do Trabalho da Coreia (cujo 60.º aniversário se comemora este mês). Mas tudo isto não pode fazer esquecer que, hoje como há 60 anos, o povo coreano está na primeira linha dos alvos do imperialismo norte-americano, o maior inimigo dos povos e da paz mundial. O povo coreano tem o direito soberano de decidir o seu futuro, sem ingerências externas, nem agressões imperialistas. Tem o direito soberano de alcançar a reunificação pacífica da sua pátria, libertando-a da ocupação pelo imperialismo norte-americano. Nessa batalha, o povo coreano e a RDP da Coreia devem poder contar com a solidariedade dos povos de todo o mundo. Incluindo a solidariedade do povo português.

1 - www.ksg.harvard.edu/news/poeds/2002/carter_korea_wp_1020.htm
2 -Gregory Elich «Alvejando a Coreia do Norte»,www.globalresearch.ca/articles/EL1212A.html
3 -Curtis Le May tornou-se famoso durante a guerra do Vietname ao defender que se bombardeasse o Vietname “de regresso à Idade da Pedra”.
4 -Gregory Elich, no já referido artigo.
5 -Esta descrição, e as citações seguintes, são tiradas do já referido artigo de Gregory Elich.
6 -Entrevista de Donald Gregg a Frontline, em 20.02.03, disponível na Internet em www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/kim/interview/gregg.html
7 -Ameaças confirmadas pelo Embaixador Donald Gregg, na referida entrevista.
8 -Algumas das quais relatadas no livro do jornalista australiano Wilfred Burchett «Novamente a Coreia?», com edição portuguesa da Seara Nova, 1969.
9 -Para um resumo de muitas notícias a este respeito, veja-se o texto de Peter Symonds, 19.7.03 no World Socialist Web Site (
www.wsws.org ).


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