Em Penacova, responde-se…

Para que serve o Partido?

Gustavo Carneiro e Jorge Cabral
Para que serve um Partido Comunista? Esta é a pergunta a que, todos os dias, os comunistas de Penacova tentam dar resposta, com uma intensa intervenção junto das populações para a resolução dos seus problemas.
Partido da classe operária e de todos os trabalhadores, o PCP não existe só nos grandes centros operários da cintura industrial de Lisboa nem no Alentejo do latifúndio. Onde há uma injustiça, um problema por resolver, algo a melhorar, muito provavelmente lá estarão comunistas, lá estará o PCP.
Penacova não é zona de latifúndio. Muito menos será uma zona operária. Situado no coração do distrito de Coimbra, o concelho conta com pouco mais de 16 mil habitantes, praticamente nenhuma indústria e uma economia muito ligada ao rio Mondego, que rompe o concelho ao meio. Mas nem por isso deixa de ter uma organização partidária muito activa e fortemente ligada às lutas da população do concelho.
Para Eduardo Ferreira, a organização tem vindo a crescer. Só em 2002, lembra, entraram para o Partido mais de vinte novos militantes. Para este militante, este crescimento está ligado a um conjunto de medidas, decididas na Assembleia de Organização Concelhia, realizada em 2001, tendentes a, como diz, «virar o Partido para fora». Em sua opinião, de pouco vale ter uma organização partidária «muito arrumadinha, com as quotas todas pagas e organizadas» se não for para «intervir lá fora, nas lutas».
Não seguindo nenhuma «cartilha» para desenvolver a luta social no concelho, os comunistas de Penacova têm sabido aproveitar a luta institucional para apoiar a luta de massas, na rua. Desde tomadas de posição nos órgãos autárquicos do concelho até requerimentos na Assembleia da República, a tudo têm recorrido para levar a bom termo os seus objectivos de luta. Com a intervenção na Assembleia Municipal – aliada, claro, à contestação na rua – conseguiram travar uma extracção de areias no Mondego, ao fazer aprovar a obrigatoriedade de qualquer extracção de areias ter se ser aprovada pelos órgãos autárquicos. Através de requerimentos na Assembleia da República, conseguiram reforçar a luta pela escada de peixe no Mondego, para conseguir que a lampreia suba o rio para desovar. Este objectivo ainda não foi atingido, mas a exigência não pára.
Outro ensinamento que adquiriram foi a necessidade de divulgar, através de comunicados próprios, a posição do Partido sobre vários assuntos. Este ensinamento surgiu durante a luta pelo reforço do pontão de Valbom, que suporta uma estrada, e que se encontrava em sério estado de degradação. Depois de várias movimentações e alertas, as autoridades viram-se forçadas a intervir e o presidente da câmara, que nada tinha feito, surgiu como o grande responsável pela denúncia do caso. «Queremos os problemas resolvidos, claro, mas não queremos dar mérito a quem não só não merece como esteve calado estes anos todos», afirmam os comunistas, que tiram uma conclusão: «Temos que fazer comunicados à população, é um pouco como registar a patente.»
À volta da mesa do primeiro andar do Centro de Trabalho do Partido em Penacova, sentam-se, em conversa com o Avante! – para além de Eduardo Ferreira –, Manuel Tomé, Jorge Neves, Rosa Rodrigues, Valdemar Amante, Álvaro Capelo, e a jovem Telma Silva, da JCP. E falam, com orgulho mas sem vaidade, das experiências de luta que têm travado desde 2001, um ano tão próximo mas que parece tão distante, tantas que foram e são as batalhas travadas.

Um primeiro teste

A segurança no IP-3 foi um dos primeiros «testes» à capacidade de intervenção dos comunistas de Penacova. Teste no qual, diga-se em abono da justiça, «passaram com distinção». Tudo começou em 2001, durante a preparação das eleições autárquicas. Ao realizarem uma iniciativa exigindo a abertura de um nó de entrada no IP-3, a partir do Lorvão, aperceberam-se que o principal problema daquela estrada não era esse, mas o da segurança. «A zona de Penacova era um verdadeiro cemitério», conta Eduardo Ferreira, recordando os despistes e choques frontais, que eram frequentes na zona.
«O comandante dos Bombeiros de Penacova aparecia muito na televisão a comentar os acidentes ocorridos aqui», lembra o comunista, que rejeita a «desculpa» do excesso de velocidade e da falta de cuidado dos condutores. Eduardo Ferreira prefere responsabilizar a construção das estradas, do tempo dos governos PSD/ Cavaco Silva, que colocou curvas apertadas a seguir a rectas largas. «Os condutores que conduzem mal no quilómetro 69 não conduzem melhor no quilómetro 70. Então porque é que era aqui, no 69, que todos morriam?», questiona.
Confrontados com a dramática situação que se vivia naquele troço da estrada, que ganhou o apelido de «morte», militantes do Partido começaram a recolher assinaturas exigindo a construção de um separador central para impedir os choques frontais. A adesão das pessoas foi tal que se decidiu pela criação da Comissão de Utentes e Sobreviventes do IP-3. Depois de abaixo-assinados, operações «STOP» para sensibilizar os condutores, e várias outras acções, o objectivo foi alcançado e o IP-3 já tem um separador central na zona de Penacova.

Outras lutas

Mas esta não foi a única batalha travada pelos comunistas do concelho de Penacova. Outras houve, vitoriosas ou não, em que o PCP e os seus militantes estiveram envolvidos.
Tal como grande parte das povoações do interior, Penacova carece de transportes públicos que sirvam todo o concelho. A situação prometia agravar-se com a decisão da empresa rodoviária de Coimbra de extinguir a carreira que servia a freguesia do Lorvão. Mas os comunistas locais vieram para a rua recolher assinaturas reclamando a manutenção da carreira.
Com a significativa adesão da população a essa reivindicação, a movimentação evoluiu para a criação da Comissão de Utentes dos Transportes do Lorvão, que alargou e intensificou o protesto. Após várias acções de denúncia e protesto e diversas idas às reuniões das câmaras e assembleias municipais de Coimbra e Penacova, a luta deu resultados. Eduardo Ferreira recorda-os. «Não conseguimos impedir a extinção daquela carreira, mas conseguimos substituí-la por outra, embora de menor qualidade, prestada por outra empresa.» Mas, realça, a população do Lorvão continua a ter uma carreira rodoviária. Também a luta pela manutenção da escola primária numa aldeia do concelho saiu vitoriosa. Conhecidas as intenções do governo – puramente economicistas – de encerrar a escola, tratou-se de envolver os pais e dinamizar o seu protesto. A escola manteve-se!
Os problemas laborais não passam ao lado da organização do Partido de Penacova, que se envolveu nas reivindicações dos enfermeiros do Hospital, bem como de empresas locais.
Para Eduardo Ferreira, «se as pessoas vêm ter com o PCP, não podemos assobiar para o ar como se não fosse nada connosco. Temos que tomar posição. Não podemos fazer o mesmo que os outros, senão éramos iguais a eles.»
E assim, com os relatos da intervenção prática dos comunistas de Penacova, respondeu-se à pergunta inicial… Para que serve um Partido Comunista? Serve para organizar. E organiza para intervir. E intervém para transformar.

«As pessoas passaram a vir ter connosco»

A intervenção dos comunistas de Penacova nas lutas das populações locais deu-lhes visibilidade. Com a sua persistência em denunciar os problemas sentidos pela população e mobilizar para a sua resolução, os militantes comunistas passaram a ser procurados pelas pessoas, quando estas assistiam a alguma coisa que considerassem menos correcta. Assim nasceu uma das maiores lutas travadas em Penacova nos últimos anos: a luta contra a extracção de areias do Mondego.
Depois de terem conseguido, por via institucional, impedido uma extracção de areia em Janeiro (por intervenção dos eleitos do PCP nos órgãos autárquicos), em Junho impediram outra. Conta Eduardo Ferreira que uma noite estava no Centro de Trabalho do Partido quando recebe uma chamada de uma mulher, que habitava junto do rio, a denunciar a extracção de areia no local. Em conversa, a mulher confessa que as populações locais estavam «desesperadas», pois tinham já alertado o presidente da câmara e os vereadores da oposição (do PS), o ministério do ambiente, a GNR, e a Quercus e que ninguém tinha feito nada. «Disseram-lhe que só o PCP podia fazer alguma coisa», lembra Eduardo Ferreira. «Fui para o rio mais o Tomé à noite», recorda.
Chegados ao rio, os dois comunistas reúnem com mais uns habitantes do local. Nessa reunião, na praia, decidem impedir a extracção, bloqueando a via com carros e não deixando, dessa forma, passar as camionetas. «Achámos interessante e foi isso que fizemos. Não era uma proposta que eu fosse fazer, mas surgiu e nós apoiámos», lembrou Eduardo Ferreira, sorrindo.
No dia seguinte, bloqueada a estrada surgem as televisões e o presidente da câmara, pressionado pela contestação, acaba por dizer que não tinha autorizado nenhuma extracção, «o que era mentira». Seja como for, afirma Eduardo Ferreira, às dez e meia da manhã, estava parada a extracção.

A subir nas eleições

O reconhecimento que os membros do PCP passaram a usufruir pela sua empenhada participação nas lutas da população de Penacova não deixou de se reflectir nas votações alcançadas em sucessivas eleições. Quando o Avante! falou com os comunistas de Penacova ainda faltavam uns meses para as eleições autárquicas do passado dia 9, onde a CDU aumentou a sua votação para os órgãos autárquicos (mais trezentos votos para as freguesias do que em 2001, num universo de 9 mil votantes) e ficou a muito poucos votos de eleger um vereador para a câmara municipal.
Mas mesmo em anteriores actos eleitorais, nas alturas em que a tendência nacional apontava para o decréscimo de votação na CDU – o que não foi claramente o caso destas eleições autárquicas nem das legislativas de Fevereiro –, em Penacova a coligação aumentava o número de votos e, por vezes, de eleitos. Em 2001, a CDU conseguiu eleger dois elementos para a Assembleia Municipal – tinha apenas um eleito –, bem como aumentado o número de eleitos, passando de dois para três na freguesia do Lorvão e de nenhum para um eleito na freguesia de Penacova. Em Oliveira do Mondego, passou-se de maioria relativa para maioria absoluta.
Os candidatos apresentados pela CDU às eleições autárquicas não serão também alheios aos bons resultados alcançados. Nas lutas travadas, muitas foram as pessoas que reconheceram no PCP e na CDU preciosos aliados para a resolução dos seus problemas. Nas lutas, em defesa do Mondego, pela segurança no IP-3 ou pela garantia de transportes públicos, muita gente se aproxima do PCP e da CDU, e alguns tornam-se candidatos autárquicos. É o caso de Rosa Rodrigues, uma das entrevistadas. Membro activo da Comissão de Utentes dos Transportes do Lorvão, próxima do PS, aproximou-se das posições dos comunistas e foi candidata da CDU nas passadas autárquicas.


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