Investigação básica e inovação
Li recentemente numa entrevista feita a Murteira Nabo, neste caso na sua qualidade de responsável da COTEC PORTUGAL - Associação Empresarial para a Inovação -, uma associação criada, e com nome idêntico, à semelhança das que existiam já noutros países, nomeadamente em Espanha e Itália, se não estou em erro, pois percebi dessa entrevista que o entrevistado reprovava as actividades de investigação básica - ou, como também se lhe chama, investigação fundamental - por parte dos nossos universitários. Isto, claro, de um ponto de vista de desenvolvimento económico e - diria eu - interpretando do resto da entrevista, sendo lícito fazê-lo - e penso que é sempre lícito, sobretudo se for feito de boa fé, pois os textos são deixados ao público, para que todos prossigamos nas actividades de formação de opinião e participação, fazendo as ideias ir avançando -, entendi que, neste mundo de «irreversível globalização» - como síntese de entendimento das suas afirmações - alguns sectores já não têm saída, porque estão prisioneiros de um modelo insustentável e os outros, os novos, terão que ser construídos segundo um modelo em que deverá primar a inovação - aqui estaremos de acordo, pelo menos enquanto não formos aos detalhes, e é nestes que o diabo desempenha as suas actividades!
A COTEC, sabe-se - para ulterior ilustração podem os leitores interessados, por exemplo, consultar www.cotec.pt - é uma organização que, sob o alto patrocínio do Presidente da República, agrupa a «nata» das empresas e empresários portugueses, para além de incluir no seu Conselho Consultivo uma grande quantidade de Professores Universitários, em geral dirigentes de organizações de I&D (1) sem fins lucrativos, em boa parte associadas com as Universidades respectivas.
Ora, como Murteira Nabo, na entrevista citada, se referiu negativamente ao facto serem empregues recursos de investigação em actividades relativas ao avanço do conhecimento científico, a menos - penso eu - que tal aconteça como um subproduto dos projectos tecnológicos e, em geral, de aplicações para casos concretos - se bem entendi, claro, o sentido da sua afirmação -, e o fez - insisto - na qualidade de Presidente da COTEC, pressuponho que esta opinião, ou melhor, esta orientação, será corroborada pelos membros do Conselho Consultivo da mesma associação. Ou, pelo menos deve tal opinião constituir um seu consenso.
O que acho um pouco estranho. Pelo menos.
Antes de tudo é estranho que se queira reduzir, em Portugal, a Ciência & Tecnologia (C&T) a uma entidade que só funcionaria no sentido da Tecnologia para a Ciência, e casualmente, isto é, através de subprodutos. Em consequência, é também estranho que se creia poder dispor-se de um sistema de C&T normal, dirigido, num sentido restrito, de obtenção de resultados para alimentar as empresas portuguesas. Em seguida, não entendo - mesmo que tal se tratasse de uma orientação provisória - como é que um tecido económico como o português - isto é, um tecido baseado num modelo de salários baixos, baseado em geral na produção de bens e serviços inventados algures, ou em moda noutros sítios «desenvolvidos» -, e em particular tendo em atenção os empresários e quadros dirigentes de que dispõe, possa vir a gerar projectos tecnológicos para serem desenvolvidos em centros por excelência universitários. Por outro lado: É normal pedir a estes centros e cientistas que desempenhem papeis que são, antes, os próprios de centros de inovação - e, portanto, de I&D - das empresas, pois estas é que devem, para ser sustentáveis, conseguir ir construindo as suas próprias - endógenas - trajectórias de evolução tecnológica ou, no caso de o não fazerem, irão continuando a desaparecer a todos os mais mínimos intentos de «deslocalização»?
Sendo hoje os processos de deslocalização - para a «grande» China e também para a Índia - particularmente intensos em termos de I&D, e sobretudo nas áreas menos básicas de Investigação, como se poderá advogar que os cientistas portuguesas abdiquem da investigação básica, da criação de conhecimento científico?
Não foi um avanço como a Teoria da Informação, elaborada por Shannon numa empresa - a operadora (e fabricante) AT&T -, e sancionada por um doutoramento, um avanço necessário à «criação?» do rentável conglomerado das Tecnologias da Informação e Comunicação?
Podem os cientistas do Conselho Consultivo da COTEC, na sua lucidez, estarem solidários com uma visão contra a investigação básica?
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1) I&D – Investigação e Desenvolvimento
A COTEC, sabe-se - para ulterior ilustração podem os leitores interessados, por exemplo, consultar www.cotec.pt - é uma organização que, sob o alto patrocínio do Presidente da República, agrupa a «nata» das empresas e empresários portugueses, para além de incluir no seu Conselho Consultivo uma grande quantidade de Professores Universitários, em geral dirigentes de organizações de I&D (1) sem fins lucrativos, em boa parte associadas com as Universidades respectivas.
Ora, como Murteira Nabo, na entrevista citada, se referiu negativamente ao facto serem empregues recursos de investigação em actividades relativas ao avanço do conhecimento científico, a menos - penso eu - que tal aconteça como um subproduto dos projectos tecnológicos e, em geral, de aplicações para casos concretos - se bem entendi, claro, o sentido da sua afirmação -, e o fez - insisto - na qualidade de Presidente da COTEC, pressuponho que esta opinião, ou melhor, esta orientação, será corroborada pelos membros do Conselho Consultivo da mesma associação. Ou, pelo menos deve tal opinião constituir um seu consenso.
O que acho um pouco estranho. Pelo menos.
Antes de tudo é estranho que se queira reduzir, em Portugal, a Ciência & Tecnologia (C&T) a uma entidade que só funcionaria no sentido da Tecnologia para a Ciência, e casualmente, isto é, através de subprodutos. Em consequência, é também estranho que se creia poder dispor-se de um sistema de C&T normal, dirigido, num sentido restrito, de obtenção de resultados para alimentar as empresas portuguesas. Em seguida, não entendo - mesmo que tal se tratasse de uma orientação provisória - como é que um tecido económico como o português - isto é, um tecido baseado num modelo de salários baixos, baseado em geral na produção de bens e serviços inventados algures, ou em moda noutros sítios «desenvolvidos» -, e em particular tendo em atenção os empresários e quadros dirigentes de que dispõe, possa vir a gerar projectos tecnológicos para serem desenvolvidos em centros por excelência universitários. Por outro lado: É normal pedir a estes centros e cientistas que desempenhem papeis que são, antes, os próprios de centros de inovação - e, portanto, de I&D - das empresas, pois estas é que devem, para ser sustentáveis, conseguir ir construindo as suas próprias - endógenas - trajectórias de evolução tecnológica ou, no caso de o não fazerem, irão continuando a desaparecer a todos os mais mínimos intentos de «deslocalização»?
Sendo hoje os processos de deslocalização - para a «grande» China e também para a Índia - particularmente intensos em termos de I&D, e sobretudo nas áreas menos básicas de Investigação, como se poderá advogar que os cientistas portuguesas abdiquem da investigação básica, da criação de conhecimento científico?
Não foi um avanço como a Teoria da Informação, elaborada por Shannon numa empresa - a operadora (e fabricante) AT&T -, e sancionada por um doutoramento, um avanço necessário à «criação?» do rentável conglomerado das Tecnologias da Informação e Comunicação?
Podem os cientistas do Conselho Consultivo da COTEC, na sua lucidez, estarem solidários com uma visão contra a investigação básica?
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1) I&D – Investigação e Desenvolvimento