O erro

Anabela Fino
Toda a gente sabe que as bruxas não existem, mas em caso de dúvida mais vale jogar pelo seguro. Não foi o que fez o Governo PS. Desafiando toda a prudência e bom senso, o executivo mandou entregar na Assembleia da República, ao cair da meia-noite - hora fatídica! -, o Orçamento Rectificativo mais aguardado da história doméstica.
O resultado foi o que se sabe. Três meses depois de Sócrates ter clamado que «rigor, transparência e verdade têm que ser as palavras-chave no domínio das contas públicas» (discurso da tomada de posse, a 12 de Março); que «a credibilidade das nossas contas públicas (...) é absolutamente indispensável para uma economia de prestígio (apresentação do programa do Governo, a 21 de Março); e apenas escassas horas depois de garantir que, com o dito Orçamento, «os portugueses ficam a saber a verdade sobre as contas pública e termina o monumental embuste que foi o Orçamento passado» (25 de Junho), rebentou a bagunça.
Garantem os especialistas que há «erros» nas contas. Assevera o ministro Campos Cunha que não se trata de erros mas de «incorrecções». O mapa da Despesa Pública é apresentado como «fundamental» por uns e como «irrelevante» por outros. O Orçamento Rectificativo do «rigor e da verdade» é retirado de circulação para ser corrigido. A versão «rectificada» do Rectificativo não parece convencer ninguém a não ser o próprio ministro, que considera não estar em causa a credibilidade do seu Ministério nem o prestígio das contas públicas.
Santana Lopes não faria melhor.
O curioso neste episódio surrealista - que sendo de números não é uma abstracção - é que, salvaguardadas as raras e honrosas excepções do costume, não ocorreu aos muitos comentadores pronunciar-se sobre a questão de fundo do Orçamento Rectificativo, cuja é saber o que é que rectifica e quanto e à custa de quem.
Minudências dessas são para a «populaça», evidentemente, que sem ter lido o Orçamento já percebeu que o «erro» é outro e sabe bem quem vai receber a factura e ser intimado a pagar o défice que sucessivos governos «dos mesmos» acumularam sem que daí tivesse resultado benefício para o País.
Essa mesma «populaça» chamada a trabalhar mais, por mais tempo e com menos direitos e a quem o primeiro-ministro José Sócrates acusa de andar a protestar nas ruas em defesa de «interesses corporativos».
Essa populaça que cerra fileiras em torno dos mesmos sindicatos que o deputado Manuel Alegre, dito paladino do Estado social, acusa de estarem a prestar um mau serviço aos trabalhadores com os protestos de rua.
Essa populaça, enfim, que o Governo PS quer enganar com a papa dos tolos ao trazer de novo para a agenda política o referendo sobre o aborto, única promessa eleitoral que parece disposto a cumprir e porventura a única que não necessitava ter feito, visto bastar uma maioria simples no Parlamento para resolver de vez uma questão que diz ser prioritária e se empenha em adiar sistematicamente quando está no poder.
Vendo bem, é injusto meter as bruxas neste caso. Com amigos destes, perdão, com socialistas destes, bem se pode dispensar as histórias de terror.


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