Dois dias em Junho

Correia da Fonseca
No breve tempo de 48 horas, entre a manhã de um sábado e a manhã de uma segunda-feira, a televisão trouxe-me a notícia da morte de dois homens raros de que se orgulhavam, de que continuam a orgulhar-se, muitos milhares de portugueses. Inevitavelmente vocacionada para estar atenta á TV e, tanto quanto saiba, reflectir acerca do permanente fluxo que ela constitui, a esta coluna cumpre registar os dois tristes factos e a forma como eles foram noticiados e comentados nos diversos canais. Não é uma tarefa feliz, mas não é uma tarefa difícil: tudo aconteceu como seria de esperar e não parece interessante nem frutuoso tentar pesquisar diferenças de tom, que sempre seriam minúsculas, entre o que foi dito e mostrado neste e naquele canal. Para lá das palavras de membros destacados do PCP e das declarações formais do próprio Partido, que sempre seriam de recolha e transmissão deontologicamente obrigatória, vieram as vozes de alguns dos que durante décadas se empenharam em transformar o seu combate ao PCP e a Álvaro Cunhal, num caso, a Vasco Gonçalves e ao seu empenhamento em transformar Portugal num país mais livre e mais justo, no outro caso, numa espécie de diploma de «boa cidadania» que para muitos seria facilitador de uma carreira de sucesso. Contudo, ninguém cometeu a imprudência de aproveitar este momento para reeditar sequer algumas das detracções e calúnias que sobre um e outro foram arremessadas ao longo de décadas. Também é certo que, tanto quanto me dei conta, nenhuma das estações decidiu ouvir alguma das figuras que nessa matéria se notabilizaram pelas vilezas maiores (numa conhecida estação de rádio, aí sim, foi ouvida com alguma prioridade uma das criaturas mais repugnantes da vida política portuguesa nas últimas décadas, por sinal figura feminina, mas nem essa encontrou coragem para se coibir de palavras laudatórias). É que as maldades, ou mesmo apenas as brutais discordâncias, não dispensam a utilização de dose q.b. de moderação e mesmo de hipocrisia quando as situações as aconselham.

Estímulo

Tanto quanto vi até ao momento em que escrevo e tanto quanto prevejo que continue, o que faltará à cobertura televisiva destas duas mortes será a reportagem que suficientemente informe o País da comoção e dor sentidas pelo povo que bem sabe que em Álvaro Cunhal e em Vasco Gonçalves teve dois amigos, dois corajosíssimos e indefectíveis defensores, de uma raríssima qualidade humana. Por mim, que não tenho a ilusão de poder ver quanto a TV vai transmitindo através dos seus diversos canais, mas tenho a de que consigo acompanhar o mais significativo, sinto-me obrigado a escrever que o depoimento mais emocionado e emocionante que ouvi quanto à morte de Vasco Gonçalves foi o que sublinhou que o General protagoniza o «momento mais luminoso» da História do nosso País. O mérito de com estas breves mas lúcidas palavras vir desmentir anos e anos de mentiras disparadas contra a Revolução de Abril não pode ser deixado sem registo numa coluna cuja específica tarefa é a de relevar o que de melhor e pior vai acontecendo na televisão portuguesa. Acresce que o destaque dado ao carácter «luminoso» de Abril, proferido apenas horas antes de Álvaro Cunhal ter de abandonar finalmente o seu posto de luta, foi perfeitamente coerente com o sentido de toda a vida do antigo secretário-geral do PCP: combater, esclarecer, repor verdades, sempre e em todas as circunstâncias. Na certeza de que estão enganados não os que lutam por um futuro justo, mas sim os que supõem que na consolidação de sociedades iníquas, e por isso mesmo permanentemente suscitadoras de repugnâncias e revoltas, está o inamovível termo do processo histórico.
Chegado a este ponto, resta-me corrigir uma inverdade que escrevi apenas umas linhas acima ao dizer que Álvaro Cunhal teve de abandonar o seu posto de luta. É que, como escreveu José Gomes Ferreira e cada um de nós bem o sabe, nesta batalha «até os mortos vão a nosso lado». E a sua efectiva presença é um poderoso estímulo para que dela não desertemos nunca.


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