A Igreja e a Mulher ou o eclipse da Razão
A Igreja Católica tem um novo papa e sem dúvida irá em breve chamar à Cúria homens da confiança de Bento XV, eventualmente capazes de fazer avançar os grandes projectos do Vaticano. A igreja portuguesa sente a pressão do momento histórico que atravessamos e tenta acelerar o processo de modernização das estruturas eclesiásticas. Mas os problemas essenciais da igreja, nacional ou mundial, mantêm-se e aprofundam-se. Um desses quebra-cabeças é o da emancipação da mulher.
Para a Santa Sede, esta questão tem duas vertentes. A da mulher católica que se sente mal numa igreja autocrática e machista; e a da mulher profana que, num mundo de profundos contrastes consegue, ainda que a muito custo, fazer avançar a luta pela sua completa emancipação.
É certo que, aparentemente, os problemas da mulher católica só a esta dizem respeito. São disto exemplos, o caso do acesso feminino ao sacerdócio, o celibato obrigatório das religiosas professas ou as dificuldades que o dogma continua a levantar à dissolução do casamento religioso. Só as próprias católicas poderão contribuir para a solução definitiva destes problemas.
Mas, mesmo nestes casos, há dúvidas nunca esclarecidas cuja importância extravasa as fronteiras da igreja. Porque, na realidade, é inegável que continua a funcionar um jogo de espelhos entre a igreja e a sociedade. Nos assuntos que respeitam à mulher, por exemplo, outra seria a imagem da instituição religiosa no mundo, se o Vaticano ouvisse e entendesse os protestos das leigas e das religiosas católicas.
Porém, as aspirações das mulheres que participam no universo eclesial também não podem ser consideradas como episódios isoladas da vida da igreja, só a esta dizendo respeito. A experiência permite verificar que a consciência feminina de luta, numa estrutura fechada como é a católica, se afirma ou atenua de acordo com os êxitos ou com os recuos que saldam as batalhas travadas pela emancipação total da mulher, em todo o mundo não crente. Entre leigas e católicas estabeleceu-se, deste modo, um ideário espontâneo comum, com base nos conceitos universais de liberdade, igualdade e fraternidade entre as mulheres.
Repare-se que é sobretudo em ambientes terrivelmente classistas, como os actuais, que surgem a cada passo razões práticas para uma aproximação sólida entre mulheres com religiões ou convicções diferentes mas que são, também, motivadas por preocupações de justiça social. É a própria natureza imperialista do capitalismo que, contraditoriamente, garante a vitalidade destas situações de crescente proximidade entre os combates separadamente travados pelas mulheres. Visando esmagá-las nos seus direitos, o capitalismo voraz aproxima-as.
Assim, é para todos evidente que a causa das situações de grandes injustiças se relacionam, sempre, com a sede insaciável de poder. As formas insidiosas de esmagamento dos fracos e dos humildes organizam-se, na igreja, através da imposição do dogma e da tradição, com abandono do direito natural à crítica sistemática; e consolidam-se na sociedade civil com o reforço das instituições autocráticas e reaccionárias que se ocultam sob a máscara da democracia.
Como se sabe, a organização das forças femininas na sociedade é, ainda, frágil. Razão suficiente para que se tornem alvo do desprezo das elites que comandam o poder. A mulher é humilhada na igreja, no mercado de trabalho, na cultura, na política, na educação, na sexualidade, no processo legal de interrupção da gravidez, na família, a todos os níveis da organização social. Ainda que as mulheres sejam maioria no mundo católico, nem na sua igreja encontram espaço de realização. E embora constituam a esmagadora maioria entre as comunidades ditas democráticas, também, a esse nível, são segregadas no emprego, no salário, no acesso às chefias, na formação profissional ou superior, na educação e em tudo o mais.
Esta rígida e comprometida atitude em relação à mulher, por parte das hierarquias laicas ou religiosas, é surpreendente. Políticos, bispos, cardeais, acirram-se contra a mulher como grupo social, ainda que saibam claramente (ou tenham a obrigação de saber) que, a médio prazo, a batalha que travam está perdida. É só questão de tempo. E percebem (ou têm a obrigação de perceber), ainda mais: que quando a derrota do machismo for declarada, pesados serão os custos culturais para as forças que perderem essa guerra.
Tendo embora a noção da realidade, constata-se que os comandos conservadores, na igreja e no mundo, não alteram uma vírgula às suas intenções. A organização retrógrada da sociedade moderna permite encher de armadilhas a legislação que exibe, entretanto, como progressista e libertadora. A hierarquia católica vai ainda mais longe na sua hipocrisia verbal: quando fala em defesa da vida, são os direitos da mulher na igreja e no mundo que ela procura amordaçar. As posições do clero em relação à Mulher, são verdadeiramente lamentáveis.
Resultam de um negativismo fanático indisfarçável, sem lógica, sem fé e sem razão.
Para a Santa Sede, esta questão tem duas vertentes. A da mulher católica que se sente mal numa igreja autocrática e machista; e a da mulher profana que, num mundo de profundos contrastes consegue, ainda que a muito custo, fazer avançar a luta pela sua completa emancipação.
É certo que, aparentemente, os problemas da mulher católica só a esta dizem respeito. São disto exemplos, o caso do acesso feminino ao sacerdócio, o celibato obrigatório das religiosas professas ou as dificuldades que o dogma continua a levantar à dissolução do casamento religioso. Só as próprias católicas poderão contribuir para a solução definitiva destes problemas.
Mas, mesmo nestes casos, há dúvidas nunca esclarecidas cuja importância extravasa as fronteiras da igreja. Porque, na realidade, é inegável que continua a funcionar um jogo de espelhos entre a igreja e a sociedade. Nos assuntos que respeitam à mulher, por exemplo, outra seria a imagem da instituição religiosa no mundo, se o Vaticano ouvisse e entendesse os protestos das leigas e das religiosas católicas.
Porém, as aspirações das mulheres que participam no universo eclesial também não podem ser consideradas como episódios isoladas da vida da igreja, só a esta dizendo respeito. A experiência permite verificar que a consciência feminina de luta, numa estrutura fechada como é a católica, se afirma ou atenua de acordo com os êxitos ou com os recuos que saldam as batalhas travadas pela emancipação total da mulher, em todo o mundo não crente. Entre leigas e católicas estabeleceu-se, deste modo, um ideário espontâneo comum, com base nos conceitos universais de liberdade, igualdade e fraternidade entre as mulheres.
Repare-se que é sobretudo em ambientes terrivelmente classistas, como os actuais, que surgem a cada passo razões práticas para uma aproximação sólida entre mulheres com religiões ou convicções diferentes mas que são, também, motivadas por preocupações de justiça social. É a própria natureza imperialista do capitalismo que, contraditoriamente, garante a vitalidade destas situações de crescente proximidade entre os combates separadamente travados pelas mulheres. Visando esmagá-las nos seus direitos, o capitalismo voraz aproxima-as.
Assim, é para todos evidente que a causa das situações de grandes injustiças se relacionam, sempre, com a sede insaciável de poder. As formas insidiosas de esmagamento dos fracos e dos humildes organizam-se, na igreja, através da imposição do dogma e da tradição, com abandono do direito natural à crítica sistemática; e consolidam-se na sociedade civil com o reforço das instituições autocráticas e reaccionárias que se ocultam sob a máscara da democracia.
Como se sabe, a organização das forças femininas na sociedade é, ainda, frágil. Razão suficiente para que se tornem alvo do desprezo das elites que comandam o poder. A mulher é humilhada na igreja, no mercado de trabalho, na cultura, na política, na educação, na sexualidade, no processo legal de interrupção da gravidez, na família, a todos os níveis da organização social. Ainda que as mulheres sejam maioria no mundo católico, nem na sua igreja encontram espaço de realização. E embora constituam a esmagadora maioria entre as comunidades ditas democráticas, também, a esse nível, são segregadas no emprego, no salário, no acesso às chefias, na formação profissional ou superior, na educação e em tudo o mais.
Esta rígida e comprometida atitude em relação à mulher, por parte das hierarquias laicas ou religiosas, é surpreendente. Políticos, bispos, cardeais, acirram-se contra a mulher como grupo social, ainda que saibam claramente (ou tenham a obrigação de saber) que, a médio prazo, a batalha que travam está perdida. É só questão de tempo. E percebem (ou têm a obrigação de perceber), ainda mais: que quando a derrota do machismo for declarada, pesados serão os custos culturais para as forças que perderem essa guerra.
Tendo embora a noção da realidade, constata-se que os comandos conservadores, na igreja e no mundo, não alteram uma vírgula às suas intenções. A organização retrógrada da sociedade moderna permite encher de armadilhas a legislação que exibe, entretanto, como progressista e libertadora. A hierarquia católica vai ainda mais longe na sua hipocrisia verbal: quando fala em defesa da vida, são os direitos da mulher na igreja e no mundo que ela procura amordaçar. As posições do clero em relação à Mulher, são verdadeiramente lamentáveis.
Resultam de um negativismo fanático indisfarçável, sem lógica, sem fé e sem razão.