Cerco à Venezuela

Pedro Campos
A Venezuela enfrenta nova ameaça contra a sua principal fonte de receitas. Fracassados o golpe de Estado, as sucessivas greves gerais patronais e as «guarimbas» – foquismo urbano de extrema-direita – a reacção muda de táctica e ataca a indústria dos hidrocarbonetos, numa tentativa desesperada de aniquilar o processo de transformações encabeçado pelo presidente bolivariano.
A partir dos meios de comunicação nacionais e internacionais (CNN, Fox News, Wall Street Journal, Washington Times, Washington Post, Miami Herald e outros, entre eles El País, de Espanha) ganha corpo uma estratégia destinada a satanizar a imagem de Chávez e a desprestigiar a empresa/bandeira do Estado venezuelano - Petróleos de Venezuela, S.A. (PDVSA) -, que continua, pelo menos parcialmente, infiltrada por lacaios do imperialismo.
Esta campanha de desprestígio, acompanhada por acções de sabotagem, não nasce por acaso. Em Novembro de 2004, a Venezuela subiu de um ridículo um por cento para 20 por cento as «regalias» (impostos) que devem pagar as multinacionais, uma correcção que permitirá ao fisco receber 2500 milhões de dólares adicionais.
Por outro lado, trabalhos de pesquisa e inteligência permitiram «encontrar», no estrangeiro, alguns contratos entre os antigos administradores de PDVSA e as
multinacionais, cuja finalidade era a evasão fiscal maciça. «A desmontagem deste mecanismo de perdas, revelou o presidente Chávez, permite-nos recuperar 270 milhões de dólares, que nos serão úteis para avançar com vários projectos.»
Cinicamente, a oposição antibolivariana, caixa de ressonância do Império, pretendeu aproveitar esta situação para atacar, não os verdadeiros responsáveis, mas as novas autoridades da empresa, num código comunicacional que inclui misturar meias verdades com mentiras descaradas sobre, por exemplo, os níveis produção.
É certo que existem alguns problemas na filial ocidental de PDVSA, que está cerca de 100 barris abaixo da meta. Mas a reacção esconde as outras verdades. A primeira é que, tal como afirmou o especialista Mazhar al Shereidan, a greve patronal de Dezembro 2002/ Fevereiro 2003 provocou danos patrimoniais calculados em 18 mil milhões de dólares, o que impediu a rápida recuperação da capacidade instalada. Segundo, foram detectados desvios nos processos e normativas da empresa, o que levou à destituição, por suspeitas de corrupção, de 40 gerentes, cujos casos passaram à esfera judicial. Terceiro, nas filiais de Oriente e outras, a produção supera as metas fixadas
originalmente.

Operação Ouro Negro

Para responder adequadamente aos casos de corrupção e sabotagem na distribuição
eléctrica, produção e infra-estrutura, o governo, numa afirmação de soberania nacional sobre o seu principal recurso económico, desenhou a operação ‘Ouro Negro’ para que a Reserva da Força Armada Nacional reforce a vigilância e controlo das instalações da PDVSA, de forma a garantir que a produção se mantenham nos 3,3 milhões de barris diários actuais. Este é o volume de produção necessário para cumprir com os acordos internacionais, entre eles os compromissos com os Estados Unidos, que tudo fazem para que tal seja impossível e se abra a porta a uma intervenção militar por «falta de cumprimento dos convénios bilaterais». Desculpas piores já se viram com resultados sobejamente conhecidos.
A petrolífera é o coração económico do país. No passado, esteve ao serviço do imperialismo e da oligarquia nacional. Hoje, pela primeira vez na sua história, está ao lado das grandes maiorias e é factor fundamental para manter as «missões» bolivarianas nas áreas da saúde, educação, desenvolvimento e várias outras mais. Dito de outra maneira, PDVSA é o coração e a alma do projecto bolivariano. Destruí-la é aniquilar a esperança de uma Venezuela diferente e, de passagem, as de todo um continente que vê na experiência venezuelana uma referência para a solução dos seus próprios problemas de dependência e colonialismo neoliberal.
Na Venezuela, muito mais do que jogar-se o destino de um país, está em jogo o futuro da América Latina, que, depois de muitas décadas, vê uma luz no fundo do túnel. O facto de que, na Organização dos Estados Americanos, Washington tenha sido obrigado a aceitar um secretário-geral que não o seu – um não foi além dos primeiros passos e o outro retirou-se para evitar a humilhação da derrota – diz-nos que algo está a mudar nas terras de Bolívar, Martí, O’Higgins, San Martín e Artigas.


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