Armas de destruição maciça
Fui assistir no outro dia - ali ao «novo» Teatro Aberto - a uma versão portuguesa da peça «Copenhaga». O Rui1 já se tinha referido a esta peça teatral num artigo que escreveu a propósito da versão portuguesa do livro «Aprendizes de Feiticeiro»2, publicado no ano passado. Tanto uma como o outro versam o tema da génese das chamadas armas de destruição maciça. Isto, numa altura em que o tema das armas de destruição maciça está, infelizmente, na moda. E lembro: as armas de destruição maciça do Iraque - à data em que escrevo ainda não encontradas nem pela ONU nem pelas tropas anglo-americanas - foram o argumento para a Guerra aí lançada.
Copenhaga, a cidade onde vivia o famoso físico dinamarquês Niels Bohr. Copenhaga, a cidade onde, nos anos 20, porque aí vivia Niels Bohr, o físico alemão Werner Heisenberg foi estudar-trabalhar com aquele. Werner Heisenberg, ele mesmo, o próprio do «Princípio da Incerteza». Copenhaga, onde Werner Heisenberg voltou durante a segunda Guerra Mundial, em 1941… e já estou no tema - ou complexo de temas, ou temática complexa - da peça «Copenhaga». Há a questão da viragem da Física durante a primeira parte do século XX, há a amizade dos dois físicos, mas o que há - para mim, sobretudo - é o tema da fissão nuclear com o objectivo de destruição maciça.
Os «Aprendizes de Feiticeiro», ou seja os três protagonistas principais do livro, Fritz Haber, Wernher von Braun e Edward Teller, são aí destacados não apenas como partes activas das invenções, respectivamente, das armas químicas, dos mísseis balísticos e das bombas termonucleares, mas sobretudo como os grandes dinamizadores dos processos que levaram à sua realização. Fritz Haber, um judeu alemão, durante a primeira Guerra Mundial; Wernher Von Braun, um «ariano» alemão, primeiro ao serviço do nazismo, depois herói americano dos foguetões e da astronáutica; e Edward Teller, judeu húngaro, exilado do nazismo e anticomunista ferrenho.
Como não deixaria de ser natural acontecer, o terceiro dos «Aprendizes de Feiticeiro», Edward Teller, ou não fosso ele um oficial importante do mesmo ofício, cruza-se com ambos os protagonistas de «Copenhaga», Niels Bohr e Werner Heisenberg. Do trabalho com este, em Leipzig, ficou, para Edward Teller: «Deu-me o sinal de partida para a minha vida». Começava Edward Teller a entrar para o círculo da Mecânica Quântica. Trava conhecimento com Niels Bohr, quando, em meados dos anos 30, trabalha durante oito meses em Copenhaga. Edward Teller encontrou-os, com eles trabalhou, mas científico- tecnologicamente quis ir pelo lado do armamento termonuclear!
Na realidade, Fritz Haber, Wernher von Braun e Edward Teller não só pareceram deslumbrados com os seus projectos científicos - deslumbrados principalmente com a sua realização tecnológica - mas também, e, sobretudo, com a eficácia prática dos armamentos deles derivados, isto é, com a sua capacidade de destruição maciça. Enquanto, ao que tudo indica, com Niels Bohr e mesmo com Werner Heisenberg, a questão colocou-se de forma diferente. O primeiro, do lado dos aliados e contra o nazifascismo, temia que a Alemanha inventasse o saber fazer da cisão nuclear. O segundo, por dentro, argumentava que, assim, melhor poderia evitar que tal acontecesse.
Hoje em dia, sendo importante tentar compreender cada vez melhor, tão despidos quanto possível de preconceitos - de um e do outro lado - o papel e os objectivos de Werner Heisenberg na questão da cisão nuclear, importa também revisitar a questão das relações da Ciência e dos cientistas na(s) sociedade(s). E, em particular, na perspectiva das questões da Guerra e da Paz. Durante a segunda Guerra Mundial, não só se temeu que o nazifascismo viesse a deter o saber fazer da cisão nuclear, como ainda tal pudesse vir a acontecer antes das potências aliadas. E estas ganharam a corrida… e bem o demonstraram na horrenda acção contra Hiroshima e Nagasaki.
Teria sido esta a melhor opção a tomar? E quando me refiro a opção não estou a pensar na opção tomada pela Administração norte-americana, que essa foi seguramente a pior de todas. Estou, sim, a explorar a possibilidade de nem uns nem outros terem ido por aí. Ingenuamente quanto baste, visiono a possibilidade dos cientistas terem aplicado a sua criatividade em greves de zelo a tais propósitos, por toda a parte. E, concomitantemente, tivessem adiado os avanços do conhecimento científico e, sendo o caso, o desenvolvimento das suas aplicações pacíficas, para voltar a estes objectivos num ambiente de verdadeiro controlo por parte da Comunidade Internacional…
Pois é. As sementes lançadas pelos «Aprendizes de Feiticeiros» continuam a dar os seus «eficazes» frutos, quer nos EUA, quer também ali e mais acolá.
Copenhaga, a cidade onde vivia o famoso físico dinamarquês Niels Bohr. Copenhaga, a cidade onde, nos anos 20, porque aí vivia Niels Bohr, o físico alemão Werner Heisenberg foi estudar-trabalhar com aquele. Werner Heisenberg, ele mesmo, o próprio do «Princípio da Incerteza». Copenhaga, onde Werner Heisenberg voltou durante a segunda Guerra Mundial, em 1941… e já estou no tema - ou complexo de temas, ou temática complexa - da peça «Copenhaga». Há a questão da viragem da Física durante a primeira parte do século XX, há a amizade dos dois físicos, mas o que há - para mim, sobretudo - é o tema da fissão nuclear com o objectivo de destruição maciça.
Os «Aprendizes de Feiticeiro», ou seja os três protagonistas principais do livro, Fritz Haber, Wernher von Braun e Edward Teller, são aí destacados não apenas como partes activas das invenções, respectivamente, das armas químicas, dos mísseis balísticos e das bombas termonucleares, mas sobretudo como os grandes dinamizadores dos processos que levaram à sua realização. Fritz Haber, um judeu alemão, durante a primeira Guerra Mundial; Wernher Von Braun, um «ariano» alemão, primeiro ao serviço do nazismo, depois herói americano dos foguetões e da astronáutica; e Edward Teller, judeu húngaro, exilado do nazismo e anticomunista ferrenho.
Como não deixaria de ser natural acontecer, o terceiro dos «Aprendizes de Feiticeiro», Edward Teller, ou não fosso ele um oficial importante do mesmo ofício, cruza-se com ambos os protagonistas de «Copenhaga», Niels Bohr e Werner Heisenberg. Do trabalho com este, em Leipzig, ficou, para Edward Teller: «Deu-me o sinal de partida para a minha vida». Começava Edward Teller a entrar para o círculo da Mecânica Quântica. Trava conhecimento com Niels Bohr, quando, em meados dos anos 30, trabalha durante oito meses em Copenhaga. Edward Teller encontrou-os, com eles trabalhou, mas científico- tecnologicamente quis ir pelo lado do armamento termonuclear!
Na realidade, Fritz Haber, Wernher von Braun e Edward Teller não só pareceram deslumbrados com os seus projectos científicos - deslumbrados principalmente com a sua realização tecnológica - mas também, e, sobretudo, com a eficácia prática dos armamentos deles derivados, isto é, com a sua capacidade de destruição maciça. Enquanto, ao que tudo indica, com Niels Bohr e mesmo com Werner Heisenberg, a questão colocou-se de forma diferente. O primeiro, do lado dos aliados e contra o nazifascismo, temia que a Alemanha inventasse o saber fazer da cisão nuclear. O segundo, por dentro, argumentava que, assim, melhor poderia evitar que tal acontecesse.
Hoje em dia, sendo importante tentar compreender cada vez melhor, tão despidos quanto possível de preconceitos - de um e do outro lado - o papel e os objectivos de Werner Heisenberg na questão da cisão nuclear, importa também revisitar a questão das relações da Ciência e dos cientistas na(s) sociedade(s). E, em particular, na perspectiva das questões da Guerra e da Paz. Durante a segunda Guerra Mundial, não só se temeu que o nazifascismo viesse a deter o saber fazer da cisão nuclear, como ainda tal pudesse vir a acontecer antes das potências aliadas. E estas ganharam a corrida… e bem o demonstraram na horrenda acção contra Hiroshima e Nagasaki.
Teria sido esta a melhor opção a tomar? E quando me refiro a opção não estou a pensar na opção tomada pela Administração norte-americana, que essa foi seguramente a pior de todas. Estou, sim, a explorar a possibilidade de nem uns nem outros terem ido por aí. Ingenuamente quanto baste, visiono a possibilidade dos cientistas terem aplicado a sua criatividade em greves de zelo a tais propósitos, por toda a parte. E, concomitantemente, tivessem adiado os avanços do conhecimento científico e, sendo o caso, o desenvolvimento das suas aplicações pacíficas, para voltar a estes objectivos num ambiente de verdadeiro controlo por parte da Comunidade Internacional…
Pois é. As sementes lançadas pelos «Aprendizes de Feiticeiros» continuam a dar os seus «eficazes» frutos, quer nos EUA, quer também ali e mais acolá.