Teias de exploração - 1939-1949

O Relatório do Banco de Portugal de 1946 refere: «A indústria de tecidos deve ter atingido o mais alto grau de prosperidade jamais alcançado por qualquer outra indústria nacional.»
Em consequência da Segunda Guerra Mundial, a indústria têxtil portuguesa teve uma subida na procura, pela eliminação temporária de parte da concorrência estrangeira, tendo laborado em regime de trabalho permanente, auferindo o patronato lucros fabulosos, num sector que ocupava cerca de 70 000 operários mal pagos, e a quem se arrancava a maior quantidade possível de obra pelo menor salário no regime de empreitadas. Mas, em vez de se assistir à concentração industrial que o regime fascista esperava e estimulava, pelo contrário, registou-se a pulverização industrial da fiação, onde 47% dos teares mecânicos estavam instalados em unidades fabris com menos de 300 teares.
Na época, os «capitães» da indústria têxtil como o Conde de Vizela, o Delfim Ferreira, o Manuel Pinto de Azevedo ou o Alves Pimenta, investiam os lucros noutras áreas: na produção de energia eléctrica; em propriedades rústicas; no vinho do Porto; no imobiliário de Lisboa e Porto; em viagens; nas suas habitações palacianas e em automóveis topo de gama.
Com a normalização da produção industrial têxtil no pós guerra, o El Dourado da indústria têxtil começou a perder brilho. A laboração permanente foi diminuindo, as acções desvalorizaram-se cerca de 30% e, os excedentes da produção cresceram em armazém. A crise galgava terreno dia a dia e, sem esforço, os empresários mais fracos foram sendo devorados pelos mais fortes, eliminando concorrências sem grande dispêndio de capital. Os «tubarões» iam abocanhando pechinchas, não para explorar, mas para liquidar e vender para a sucata a maioria dos equipamentos, na velha linha de pensamento capitalista – a crise é um mal necessário.
Neste mesmo período de expansão e contracção nos anos 40 do século XX, no distrito de Braga, a população do têxtil era superior a 20.000 operários, e não tinham qualquer outra forma de vida que não fosse a venda do trabalho dos seus braços. Ainda era noite, e bandos de mulheres descalças ou de tamancos, de xale e lenço, rumavam aos teares onde predominavam em número e objecto de exploração, enquanto os homens, vestindo velhos casacos remendados e descoloridos, com calças a desfiarem-se e pesados socos nos pés nus, completavam o figurino da indigência operária. Nutridos com magro caldo de água morna, onde flutuavam uns feijões com ripas de couve, acompanhados dum pedaço de broa ácida e áspera, preparavam-se para mais uma jornada de trabalho.
Os salários estavam amarrados aos mínimos estabelecidos e, não se contava o tempo perdido com a afinação de máquinas e no arranjo de teias. Por isso, o proletariado têxtil explodiu no protesto organizado pelas suas comissões de unidade, incentivadas pelo PCP, na: Fáb. de Tecidos Outeiro (1943); Cª de Fiação e Tecidos de Guimarães (1944); Sampaio, Ferreira & Cª e Fiação e Tecidos de Fafe (1946) e, na Fiação e Tecidos de Barcelos (1949).
De Ronfe a Riba de Ave, de Pevidém a Delães, de Moreira de Cónegos ao Bairro; de Vizela a Caniços, em toda a bacia do Ave ecoou o Protesto Operário, ontem e hoje amplificado nas páginas do Avante!.


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