O civismo, pois claro

Correia da Fonseca
A televisão (creio que, curiosamente, mais a SIC que a estação pública de TV) deu adequado destaque à iniciativa presidencial de uma «presidência aberta» e, mais que aberta, itinerante, com a sinistralidade rodoviária como tema. O SIC-Notícias consagrou mesmo uma emissão do seu «Opinião Pública» ao problema da morte na estrada e das suas causas, e também lá se ouviu o que já se ouvira no âmbito do noticiário geral: que Jorge Sampaio opinara, e muito bem, que as grandes causas da hecatombe são o excesso de velocidade e a falta de civismo dos condutores, sendo aliás óbvio que a primeira tem tudo a ver com a segunda. O diagnóstico presidencial é largamente partilhado pelos cidadãos em geral, embora muito mais quanto ao segundo ponto que quanto ao primeiro. É que se está mesmo a ver que o sujeito que me ultrapassa a 180 vai em excesso de velocidade e mesmo à procura de um acidente mas, quanto a mim, é preciso atender a factores concretos: sou um óptimo condutor e muito consciente das situações, o meu carro tem bons travões e não há-de ser para nada que é capaz de passar em poucos segundos de zero aos duzentos/hora, os meus reflexos são perfeitos, e com tudo isto é injusto que queiram obrigar-me a andar à velocidade imposta aos azelhas, isto é, aos outros. Quanto ao civismo, é verdade que há por aí muita falta dele, mas felizmente não é o meu caso. Mais coisa menos coisa, será assim que pensa uma boa parte dos que conduzem, não o timorato cidadão que milita nesta coluna, precisão esta que aqui fica para evitar mais um dos mal-entendidos eventualmente provocados por ironias mal alinhavadas.

Algumas dúvidas

Temos, pois, que o civismo é mais um dos bens em défice neste nosso País crivado de défices vários, desde o financeiro nas contas públicas até ao democrático no feudo do dr. Jardim, sendo que o civismo não é bem que facilmente possa ser importado, nem mesmo de Espanha tão aqui ao lado, muito menos dos Estados Unidos, nossos abençoados tutores, onde aliás não parece que o civismo abunde, pelo menos a avaliar pelo comportamento desses nossos beneméritos mestres no plano internacional e pelo conteúdo dos «produtos culturais» que exporta para os quatro cantos do mundo. O civismo que nos falta na estrada e decerto noutros lugares tem de ser produzido aqui mesmo e, naturalmente, nas condições concretas da vida nacional. Ora, quanto a isto, quer dizer, quanto ao modo como vai ser possível consegui-lo, não vi que a TV nos tenha dado pistas nem que o senhor Presidente tenha aberto janelas de esperança. De onde algumas dúvidas, a primeira das quais muito importa registar nesta coluna: será que do fluxo televisivo que nos entra em casa e que, inevitavelmente, implica a sugestão de modelos de comportamento, de exemplos, se desprende alguma indução para uma ética de cidadania que, como tal, dê prioridade ao colectivo sobre o individual, à utilidade social sobre as apetências egoístas, ou ocorrerá exactamente o contrário? E, depois desta questão, outras, algumas ou todas elas relacionadas com o facto de o automóvel já não ser um privilégio de ricaços ou quase, mas sim, muitas vezes, o apoio praticamente indispensável para que trabalhador, trabalhadora e seus filhos sejam distribuídos por diversos lugares de profissão ou estudo sem ficarem obrigados a grande dispêndio de dinheiros e de tempo. Imagine-se, então, que enorme disponibilidade para cuidados da área do civismo poderá restar na cabeça de um condutor que sente o seu posto de trabalho ameaçado em eventual consequência da total falta de civismo (para não referir outras faltas) da administração da «sua» empresa. Ou do condutor que acaba de queimar horas de inútil espera num Centro de Saúde na tentativa falhada de conseguir uma consulta. Ou, num outro registo, do jovem condutor que se apaixonou pelos fascínios da alta velocidade olhando no televisor as proezas dos Schumacher, sempre dedicadamente transmitidas pela tal televisão pública. Ou, falando em termos mais genéricos, de todos, preferencialmente mas não obrigatoriamente os mais jovens, que vieram aprendendo na TV, ao longo de toda a sua vida, que os heróis são os mais despachados, os que não recuam perante o uso da bruteza, os que querem estar do lado dos «ganhadores», e começam a tentá-lo ser na estrada, na passagem dos semáforos quando está por décimas de segundo o sinal vermelho, no esquecimento da regra da prioridade quando ela é adversa.
O civismo, pois. Mas onde aprendê-lo neste nosso País, nesta sociedade, com esta televisão?


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