A morte de um papa
O percurso da doença, agonia e morte de Karol Wojtyla permite traçar o perfil de uma igreja católica profundamente conservadora mas obcecada pela necessidade de dar ao mundo a ideia de que é uma instituição capaz de se modernizar sem renegar o passado ou a sua mensagem religiosa. Mas quem tiver suportado a opressiva massa de imagens, opiniões, tomadas de posição sistematicamente convergentes, etc., que inesperadamente desabou sobre as nossas casas, há-de ter observado que a igreja, afinal, não apresenta sinais de mudança. Vimos como conserva os traços quinhentistas da contra-reforma de Trento, fechada sobre si mesma, majestática, elitista, virada para o espavento e para a utilização das massas humanas como simples figurantes. E também foi evidente que a hierarquia católica insiste em confundir fé e obscurantismo, noção do lucro e espiritualidade. Nada mudou nessa área. Certo é, porém, que num outro sentido a igreja romana mudou - e muito! No plano da utilização das novas técnicas e no modo mais rentável da sua utilização.
Um caso exemplar da informação fornecida pela gigantesca reportagem televisiva (nos canais públicos e privados, indistintamente) resultou da sucessão de imagens que mostravam os jovens manifestantes em idade escolar, os grupos de escuteiros católicos, as massas de seminaristas, catequistas e voluntários, com as suas bandeiras e pendões, a enorme participação das mulheres que rezavam ou choravam evidenciando a sua dor perante as câmaras de TV, os padres, os frades e as freiras, conduzindo núcleos disciplinados de peregrinos, etc. As diferentes cores e os dísticos, facilitavam muitas vezes a identificação das nacionalidades representadas nestas demonstrações de fé que tanto arrepiavam as multidões italianas como os crentes de Varsóvia ou os longínquos católicos filipinos. Em 24 horas, a igreja concretizou uma gigantesca transferência de massas humanas. Diz-se que, só polacos eram mais de 1 milhão, em Roma. E ao olharmos essas sucessivos planos de filmagem, decerto recordámos imagens semelhantes, já familiares, recolhidas nas reportagens de Fátima, de Santiago de Compostela, ou nas grandes manifestações religiosas que assinalaram não só as viagens de João Paulo II como, também, as movimentações cívicas, de rua, promotoras das revoluções de veludo que tão frequentemente se saldaram pela tomada do poder político. Os mesmos jovens, as mesmas mulheres, os mesmos pendões, os mesmos padres, as mesmas freiras, as mesmas velas, os mesmos cânticos mobilizadores. A mesma igreja.
Um outro aspecto curioso, evidenciado nestas reportagens, foi o do mais completo desprezo evidenciado pela segurança das multidões. Soube-se, a certa altura, que estavam concentradas, ombro a ombro, na Avenida da Reconciliação, milhão a milhão e meio de pessoas. A perspectiva projectada pelas TVS sugeria, mesmo, outra documentação antiga, recolhida na terrível rampa de Auschwitz. Em Roma, era diferente. Mas como reagiria, nos funerais do papa, aquela mole humana, caso houvesse nessa altura, acidentalmente, um grande estrondo ou sobreviesse um cataclismo natural como, por exemplo, um tremor de terra? Mesmo sem intervenção do terrorismo internacional ou dos invisíveis agentes do eixo do mal? Como seria possível controlar uma tal situação de pânico e de desastre?
É evidente que a Cúria Romana não desejaria que as exéquias do papa ficassem assinaladas por uma hecatombe. Mas há aqui uma leitura que pode ser feita e não implica para os cardeais intenção criminosa ou mesmo simples desleixo. A hierarquia católica sabia, de antemão, que nenhum atentado iria ocorrer. Hipótese que nos desperta o interesse por tudo quanto possa informar acerca deste misterioso conceito de terrorismo internacional, alternativo ao da guerra fria, da sua existência real ou imaginada, da forma como justifica a limitação das liberdades e o estreitamento das relações íntimas que o Vaticano cultiva com os mais poderosos serviços secretos mundiais. A Cúria sabia que nada se iria passar. Mas o branqueamento da imagem do Vaticano e a ambição mediática dos cardeais falaram mais alto que qualquer preocupação humanitária.
Tudo isto aflorou nas entrelinhas destes funerais. E contribuiu para revelar as linhas gerais de uma estratégia perigosa que a igreja tenta gerir a seu favor. A hierarquia converteu-se ao princípio de que a matéria social (comunidades, catequistas, agentes caritativos, membros das ordens religiosas, alunos e professores das escolas, intelectuais , deve ser tratada em termos de movimento - um princípio que a tradição sempre combatera. A ideia-chave desta mudança aparece com o bem-aventurado padre Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei quando pregou aos católicos: «Não vos detenhais, caminhai !». Ou como, mais tarde, em Santiago de Compostela, João Paulo II, o papa da Nova Cristianização, clamou aos jovens: «Não tenhais medo!».
Passaram-se os anos e a nova igreja continuou a trabalhar - Ora et labora.
Um enorme montante financeiro foi investido em meios tecnológicos ou está disponível para atender aos custos da rápida deslocação de grupos disciplinados, da sua manutenção por pouco tempo e do seu regresso ao ponto de partida, uma vez cumprida a sua campanha de missão. É a técnica do carrocel. São os Novos Cruzados. Vimo-los na Praça de S. Pedro e havemos de voltar a vê-los, em Lisboa, com as suas velas, os seus rosários, as suas violas e os seus grandes sacos de campismo.
Um caso exemplar da informação fornecida pela gigantesca reportagem televisiva (nos canais públicos e privados, indistintamente) resultou da sucessão de imagens que mostravam os jovens manifestantes em idade escolar, os grupos de escuteiros católicos, as massas de seminaristas, catequistas e voluntários, com as suas bandeiras e pendões, a enorme participação das mulheres que rezavam ou choravam evidenciando a sua dor perante as câmaras de TV, os padres, os frades e as freiras, conduzindo núcleos disciplinados de peregrinos, etc. As diferentes cores e os dísticos, facilitavam muitas vezes a identificação das nacionalidades representadas nestas demonstrações de fé que tanto arrepiavam as multidões italianas como os crentes de Varsóvia ou os longínquos católicos filipinos. Em 24 horas, a igreja concretizou uma gigantesca transferência de massas humanas. Diz-se que, só polacos eram mais de 1 milhão, em Roma. E ao olharmos essas sucessivos planos de filmagem, decerto recordámos imagens semelhantes, já familiares, recolhidas nas reportagens de Fátima, de Santiago de Compostela, ou nas grandes manifestações religiosas que assinalaram não só as viagens de João Paulo II como, também, as movimentações cívicas, de rua, promotoras das revoluções de veludo que tão frequentemente se saldaram pela tomada do poder político. Os mesmos jovens, as mesmas mulheres, os mesmos pendões, os mesmos padres, as mesmas freiras, as mesmas velas, os mesmos cânticos mobilizadores. A mesma igreja.
Um outro aspecto curioso, evidenciado nestas reportagens, foi o do mais completo desprezo evidenciado pela segurança das multidões. Soube-se, a certa altura, que estavam concentradas, ombro a ombro, na Avenida da Reconciliação, milhão a milhão e meio de pessoas. A perspectiva projectada pelas TVS sugeria, mesmo, outra documentação antiga, recolhida na terrível rampa de Auschwitz. Em Roma, era diferente. Mas como reagiria, nos funerais do papa, aquela mole humana, caso houvesse nessa altura, acidentalmente, um grande estrondo ou sobreviesse um cataclismo natural como, por exemplo, um tremor de terra? Mesmo sem intervenção do terrorismo internacional ou dos invisíveis agentes do eixo do mal? Como seria possível controlar uma tal situação de pânico e de desastre?
É evidente que a Cúria Romana não desejaria que as exéquias do papa ficassem assinaladas por uma hecatombe. Mas há aqui uma leitura que pode ser feita e não implica para os cardeais intenção criminosa ou mesmo simples desleixo. A hierarquia católica sabia, de antemão, que nenhum atentado iria ocorrer. Hipótese que nos desperta o interesse por tudo quanto possa informar acerca deste misterioso conceito de terrorismo internacional, alternativo ao da guerra fria, da sua existência real ou imaginada, da forma como justifica a limitação das liberdades e o estreitamento das relações íntimas que o Vaticano cultiva com os mais poderosos serviços secretos mundiais. A Cúria sabia que nada se iria passar. Mas o branqueamento da imagem do Vaticano e a ambição mediática dos cardeais falaram mais alto que qualquer preocupação humanitária.
Tudo isto aflorou nas entrelinhas destes funerais. E contribuiu para revelar as linhas gerais de uma estratégia perigosa que a igreja tenta gerir a seu favor. A hierarquia converteu-se ao princípio de que a matéria social (comunidades, catequistas, agentes caritativos, membros das ordens religiosas, alunos e professores das escolas, intelectuais , deve ser tratada em termos de movimento - um princípio que a tradição sempre combatera. A ideia-chave desta mudança aparece com o bem-aventurado padre Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei quando pregou aos católicos: «Não vos detenhais, caminhai !». Ou como, mais tarde, em Santiago de Compostela, João Paulo II, o papa da Nova Cristianização, clamou aos jovens: «Não tenhais medo!».
Passaram-se os anos e a nova igreja continuou a trabalhar - Ora et labora.
Um enorme montante financeiro foi investido em meios tecnológicos ou está disponível para atender aos custos da rápida deslocação de grupos disciplinados, da sua manutenção por pouco tempo e do seu regresso ao ponto de partida, uma vez cumprida a sua campanha de missão. É a técnica do carrocel. São os Novos Cruzados. Vimo-los na Praça de S. Pedro e havemos de voltar a vê-los, em Lisboa, com as suas velas, os seus rosários, as suas violas e os seus grandes sacos de campismo.