Chávez na mira do Império (conclusão)

Pedro Campos
Quando tudo falha, resta o assassínio. Assim pensa o Império com os seus botões e vai apalpando o terreno. Orlando Urdaneta, um locutor de televisão implicado no golpe de 2002 na Venezuela, apelou publicamente ao assassinato do presidente, durante um programa de televisão desde Miami. A Venezuela protestou e não aconteceu nada. Mais recentemente, outro sujeito ligado à CIA disse mais ou menos o mesmo com outras palavras. Novo protesto formal e nada, como se fosse absolutamente normal que um opositor de Bush declarasse em público que se acabava com o problema Bush com uma
arma telescópica.
Em declarações recentes, o presidente bolivariano já apontou os EUA como responsável directo do seu eventual assassínio. No início de Março, o vice-presidente Rangel, em declarações ao jornal peruano , revelou que o ex-embaixador dos EUA em Caracas o informara que se podia atentar contra a vida do presidente.
Perguntado pelo jornalista – o qual, por certo, admitia terem os Estados Unidos estado envolvidos em vários assassinatos – se essa advertência era uma prova da boa vontade, respondeu que «não», que era simplesmente o cumprimento de uma norma internacional.
O general Baduel, um dos militares institucionalistas de mais prestígio no país, declarou recentemente, ao jornal cubano Juventud Rebelde que o assassínio presidencial «… é a única opção que falta – aos EUA – aplicar, num contexto onde já se esgotaram todos os recursos para lesar a segurança e a defesa» da Venezuela, e foi mais longe afirmando que esse crime já foi tentado no golpe de 2002.

É possível o assassínio presidencial?

Foi com esta pergunta que o jornalista Díaz Rangel abriu a sua coluna de 27 de Fevereiro deste ano no jornal venezuelano de maior circulação. Enumera, depois, seis razões que apontam nessa direcção, deixando ao leitor a opção de tirar as suas próprias conclusões. Vejamos um resumo das mesmas.
1. Até agora, fracassaram todas as outras tentativas para derrubar Chávez: desde o golpe de estado até à via eleitoral, passando pela sabotagem da economia, em particular da indústria do petróleo e de outras acções menores, incluindo a desestabilização urbana.
2. A possibilidade de uma vitória da oposição nas presidenciais de 2006 não deve parecer minimamente viável ao império e seus lacaios em Caracas.
3. A abundância de declarações recentes de funcionários do Departamento de Estado sobre o «perigo» Chávez não pode ser outra coisa que decisões de alto nível.
4. As informações disponibilizados pelos serviços secretos cubanos, com ampla experiência neste tipo de casos.
5. A intencionalidade dos EUA para provocar um conflito grave durante a crise com a Colômbia (caso Granda).
6. O historial golpista dos EUA na América Latina. Aqui o analista remete-se unicamente ao caso Chile/Allende e estabelece as respectivas analogias, apoiando-se parcialmente no livro “Allende, cómo la Casa Blanca provocó su muerte”, da jornalista Patricia Verdugo.
Em primeiro lugar, lembra-nos que poucos dias depois da vitória de Allende, após uma reunião do dono de El Mercurio com Kissinger e outros funcionários, há um conclave na CIA onde se decide que o «governo de Allende não era aceitável para os Estados Unidos». Kissinger aparece de imediato com uma receita para o Chile, que vai desde a divisão da coligação allendista ao apoio aos grupos de oposição, passando por contactos com os militares e a manipulação da opinião pública. A CIA mobiliza um batalhão de 18 jornalistas de vários países e «orienta» 726 artigos de imprensa, para que informem sobre o iminente colapso da economia chilena... antes da tomada de posse de Allende. Num crescendo descarado, chegou-se ao ano de 1973, durante o qual o Chile assistiu a um acto terrorista cada 10 minutos.
Finalmente, a 11 de Setembro, Washington conseguiu o seu objectivo: derrubar Allende, através de um golpe de estado cruento.
Qual era realmente a importância do Chile para Estados Unidos?
Mais do que o próprio Chile, o que preocupava era a sua eventual influência noutros países vizinhos. A Argentina estava seriamente dividida. O Peru tomara um rumo difícil de evitar. A Bolívia guinava igualmente à esquerda…
Agora, compara-se esse quadro com o actual da América Latina. Um Chávez à frente de uma revolução de contornos novos e originais que conquista cada dia mais prestígio nacional e internacional. Um Brasil com Lula e o PT no governo. Uma Argentina não alinhada com o consenso de Washington. Um Uruguai com o seu primeiro governo de esquerda. Um Peru com um Toledo em queda livre. Uma Bolívia a rebentar pelas costuras. Um Equador a ponto de ebulição. Uma Colômbia a ameaçar transformar-se num pântano do qual pode ser difícil sair, apesar da crescente presença militar
norte-americana.
O Império é uma ameaça, mas tem razões para estar preocupado.


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