A Teia
Ainda não era meia-noite, embora quase o fosse, quando no «Clube dos Jornalistas» (na 2:, naturalmente) Rui Pereira, ex-jornalista do Expresso, revelou que nas muito celebradas eleições iraquianas de Janeiro passado o acto de ir votar esteve directamente vinculado ao recebimento de senhas de racionamento. Pelos vistos, a coisa foi simples, pelo menos a julgar por esta informação surpreendente para quase todos: quem votasse teria senhas, quem não votasse teria de amanhar-se de qualquer outro modo. Se nos lembrarmos de como a grande participação popular na «primeira eleição democrática no Iraque» foi saudada por cá, e não certamente apenas por cá, até pelas mais destacadas figuras nacionais, ficaremos com uma ideia adequada e interessante acerca da qualidade da informação que é fornecida aos portugueses e que, como se sabe e nunca o podemos esquecer, é decisiva contribuição para o que eles pensam do mundo em que vivemos. Aliás, para o cidadão que ainda não foi despojado do natural interesse pelo que vai pelo País e pelo planeta fora, para isso se socorrendo inevitavelmente dos media, sempre seria de grande utilidade assistir às emissões do «Clube de Jornalistas», programa que vem existindo na «2:» em horários não exageradamente acessíveis, e por isso resguardado de muitos olhares e ouvidos. Nesta última, transmitida entre o final da passada segunda-feira e a madrugada de terça-feira, o tema era o das condições em que foi feita a cobertura jornalística da guerra do Iraque desencadeada há dois anos e, pelo que se percebe, ainda não terminada. Estavam em estúdio os jornalistas Ribeiro Cardoso e Rui Pereira, o professor universitário Telmo Gonçalves e o general Loureiro dos Santos. Além do que foi dito por estes participantes, houve dois depoimentos gravados. Um deles foi o do general Pezarat Correia, que foi comentador habitual na área político-militar e, como se sabe, de há uns tempos a esta parte parece ter desaparecido em combate, e o outro foi de José Manuel Fernandes, o bem conhecido director do Público.
Cidadão prevenido...
Do depoimento de Pezarat Correia convém registar o que explicou Ribeiro Cardoso: tratava-se de um depoimento já relativamente antigo que, «por razões de diversa ordem» não entrou no programa a que se destinava. Talvez porque sou excessivamente indiscreto, pergunto-me se a não explicitação por Ribeiro Cardoso das tais razões que impediram a atempada inclusão do depoimento do general no programa para que foram proferidas não terão sido, também elas, idênticas «razões de diversa ordem». Quanto à intervenção de José Manuel Fernandes que, coitado, não pôde estar pessoalmente no estúdio por «razões de agenda», foi notável: comparou o Tribunal Mundial sobre o Iraque, de que se reuniu em Lisboa uma extensão e que se inspirou no prestigiado Tribunal Russel, aos tribunais plenários do fascismo. Frases como esta definem um homem, e é justo que estejamos reconhecidos a José Manuel Fernandes por esta preciosa contribuição para a sua biografia.
Muito ou mesmo tudo quanto foi dito nesta emissão do «Clube dos Jornalistas» foi esclarecedor para o cidadão enredado na teia de uma informação que de facto lhe telecomanda convicções e sentimentos, e não cabe aqui fazer um inventário mesmo sumário de todas as utilidades que ali se ouviram. Saliente-se, pelo menos, a denúncia de que a cobertura jornalística da guerra do Iraque foi praticamente decidida pelas relações entre o governo americano e os patrões dos media: a afirmação de que, muitas vezes, o verdadeiro autor de uma notícia não é o jornalista que a redigiu mas sim o seu patrão; a pesada suspeita de que não raras vezes os jornalistas incómodos são abatidos em teatro de guerra pelo chamado «fogo amigo», o que terá acontecido sobretudo no Iraque. Já o programa se aproximava do seu termo quando incluiu o testemunho de Carlos Fino que, como se sabe, abalou para o Brasil pouco tempo depois de ter feito no Iraque um trabalho que o prestigiou. Disse ele, em suma, que o jornalista isento não tem hoje condições para trabalhar, estando de facto «à mercê dos grandes interesses». E, referindo-se clarissimamente ao nosso País e aos profissionais portugueses, disse com significativa acidez que «o topo da carreira de jornalista é ser conselheiro de imprensa numa embaixada».
Por tudo isto, quem teve a sorte ou a lúcida opção de assistir a mais esta emissão do «Clube dos Jornalistas» ficou prevenido acerca da generalidade do que ouve e lê. A partir daí, pode continuar a ser enganado. Mas só com a sua própria condescendência e colaboração, o que aliás acontece mais do que pode supor-se.
Cidadão prevenido...
Do depoimento de Pezarat Correia convém registar o que explicou Ribeiro Cardoso: tratava-se de um depoimento já relativamente antigo que, «por razões de diversa ordem» não entrou no programa a que se destinava. Talvez porque sou excessivamente indiscreto, pergunto-me se a não explicitação por Ribeiro Cardoso das tais razões que impediram a atempada inclusão do depoimento do general no programa para que foram proferidas não terão sido, também elas, idênticas «razões de diversa ordem». Quanto à intervenção de José Manuel Fernandes que, coitado, não pôde estar pessoalmente no estúdio por «razões de agenda», foi notável: comparou o Tribunal Mundial sobre o Iraque, de que se reuniu em Lisboa uma extensão e que se inspirou no prestigiado Tribunal Russel, aos tribunais plenários do fascismo. Frases como esta definem um homem, e é justo que estejamos reconhecidos a José Manuel Fernandes por esta preciosa contribuição para a sua biografia.
Muito ou mesmo tudo quanto foi dito nesta emissão do «Clube dos Jornalistas» foi esclarecedor para o cidadão enredado na teia de uma informação que de facto lhe telecomanda convicções e sentimentos, e não cabe aqui fazer um inventário mesmo sumário de todas as utilidades que ali se ouviram. Saliente-se, pelo menos, a denúncia de que a cobertura jornalística da guerra do Iraque foi praticamente decidida pelas relações entre o governo americano e os patrões dos media: a afirmação de que, muitas vezes, o verdadeiro autor de uma notícia não é o jornalista que a redigiu mas sim o seu patrão; a pesada suspeita de que não raras vezes os jornalistas incómodos são abatidos em teatro de guerra pelo chamado «fogo amigo», o que terá acontecido sobretudo no Iraque. Já o programa se aproximava do seu termo quando incluiu o testemunho de Carlos Fino que, como se sabe, abalou para o Brasil pouco tempo depois de ter feito no Iraque um trabalho que o prestigiou. Disse ele, em suma, que o jornalista isento não tem hoje condições para trabalhar, estando de facto «à mercê dos grandes interesses». E, referindo-se clarissimamente ao nosso País e aos profissionais portugueses, disse com significativa acidez que «o topo da carreira de jornalista é ser conselheiro de imprensa numa embaixada».
Por tudo isto, quem teve a sorte ou a lúcida opção de assistir a mais esta emissão do «Clube dos Jornalistas» ficou prevenido acerca da generalidade do que ouve e lê. A partir daí, pode continuar a ser enganado. Mas só com a sua própria condescendência e colaboração, o que aliás acontece mais do que pode supor-se.