JCP promove abaixo-assinado na Azinhaga

Almonda, um rio morto à nascença

O rio Almonda está altamente poluído, apesar de atravessar a Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, património da UNESCO. O colectivo de Azinhaga da JCP está a promover um abaixo-assinado pela despoluição do rio.

90 por cento das espécies do Paúl do Boquilobo desapareceram

O rio Almonda, no distrito de Santarém, sofre diariamente graves atentados ecológicos, como descargas de resíduos de fábricas e dos esgotos não tratados das cidades de Torres Novas e da Golegã. A poluição do rio é sentido particularmente pela população da Azinhaga, uma freguesia do concelho da Golegã, e o colectivo local da JCP está a promover um abaixo-assinado exigindo a despoluição deste afluente do Tejo e exigindo que tanto as autarquias como as indústrias assumam as suas responsabilidades.
«Esperamos que com o nosso trabalho as pessoas ganhem consciência do problema e as autarquias façam alguma coisa. O rio não pode continuar assim», afirma Valter Ferreira. «O cheiro vai e vem, as pessoas não se preocupam o suficiente, mas é uma coisa que nos prejudica a todos e a longo prazo será terrível. Temos de mobilizar a população para este problema», acrescenta. Para além do abaixo-assinado, estão previstas para breve duas sessões públicas com o deputado do PCP Miguel Tiago.
Logo na nascente do rio foi construída uma fábrica de papel da Renova. «Temos a ideia que esta é uma empresa bastante competente e que faz o tratamento da água que utiliza, mas a verdade é que imediatamente a seguir à fábrica as populações queixam-se do mau cheiro», conta o militante da JCP. O Almonda ainda passa perto das zonas industriais de Torres Novas e de Riachos, onde existe uma destilaria considerada como uma das principais fontes de poluição. «Muitas fábricas preferem pagar as multas a construir ETARs», refere Valter.
O rio atravessa a Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, património da UNESCO. Actualmente, 90 por cento das espécies desapareceram. Algumas estão em vias de extinção, como a garça real. Apesar da reserva ter sido considerada pelo Estado como zona especial de protecção, responsabilizando-se por preservar a área, os habitats e as espécies, nada disso é feito. Só o contrário se verifica: recentemente a Câmara Municipal de Torres Novas autorizou a construção ao lado da reserva de uma urbanização, a «Boquilobo Golf», prevista para alojar 23800 pessoas. «Se com a poluição actual desapareceram 90 por cento das espécies, imagine-se agora com tanta gente a morar mesmo ao lado! Nenhuma vai sobreviver», afirma Vanessa Figueiredo, também militante da JCP.

Um cheiro terrível

O Almonda passa ao lado de Azinhaga. Vanessa lembra que a água está suja há anos e que os peixes iam ter às margens mortos. O problema da poluição agravou-se no último mês. «Agora cheira mal na Azinhaga, dentro das casas. Eu vivo a mais de dois quilómetros de distância do rio e, quando abro a janela, sente-se o cheiro», diz Valter. A água e a areia estão pretas. «Quando está menos vento, o cheiro é terrível», garante Vanessa.
«A Azinhaga era uma aldeia de pescadores, agora não se vê nenhum peixe. Em contactos que a JCP fez com os pescadores eles disseram-nos que não têm condições mínimas para pescar», refere. Muitos optaram por pescar no Tejo ou em Peniche, outros arranjam outros trabalhos.
«Até nós, com a nossa idade, notamos a diferença no rio. Mas os mais velhos sentem ainda mais», diz Vanessa. Longe vão os tempos dos banhos de rio, dos passeios fluviais e da pesca desportiva. Os populares não ajudam, deixando ali o lixo maior. «Há de tudo ali, televisões, garrafas partidas», declara Valter. «A própria Junta de Freguesia põe lá lixo. A JCP fez uma jornada de limpeza do rio. Não é uma actividade típica da JCP, mas tínhamos vontade de o fazer. Apanhámos montes de lixo e os volumes maiores pusemos ao lado dos contentores. Passados dois ou três dias fomos às lixeiras junto ao rio e vimos algumas das coisas que tínhamos apanhados.» «Isto prova que as autarquias não se preocupam», considera Vanessa.

Colectivo da JCP
De 4 para 30 militantes num ano

Há largos anos que existe um colectivo da JCP na Azinhaga, mas há algum tempo que não tinha actividade própria. Há um ano existiam quatro militantes, hoje são 30. Milagre? Não, iniciativa. «Decidimos fazer uma actividade com alguma dimensão e organizámos um debate sobre a actualidade do PCP. Houve muita gente a assistir e só nessa noite fizemos dez recrutamentos», conta Valter Ferreira.
Numa terra pequena como a Azinhaga, as conversas são partilhadas por muita gente e, como explica Vanessa Figueiredo, «quando nos encontramos, acabam por surgir conversas sobre a JCP, os problemas que nos afectam e isso causa interesse nas pessoas». Em cada reunião foram aparecendo mais jovens e o colectivo foi crescendo. «Estávamos todos no café, cinco ou seis iam para a reunião da JCP e havia sempre mais dois que decidiam ir também», lembra Valter.
Vanessa, de 17 anos, entrou para a JCP em Novembro. «Numa iniciativa da JCP, eu estava a comentar que tinha pena de não ter 18 anos para poder aderir e então disseram-me que não tinha de esperar, que já podia entrar. Ofereceram-me um Avante!, li-o... Tenho o meu ideal e quero lutar por ele. É um bom caminho, não só para mim como para os outros. É uma maneira de contribuir para a sociedade», afirma.

Moda?

Hoje quase todos os jovens da localidade são militantes da JCP. Será uma moda? Valter garante que há empenhamento e convicção na grande maioria dos casos. «A nossa terra tem muita malta nova, mas não tem nada para fazer. Não há nenhum tipo de associação onde os jovens se possam reunir, mesmo havendo uma banda e um rancho. A malta nova está muito deslocada da vida social. As pessoas gostaram das nossas iniciativas e decidiram aderir», diz.
Este tipo de actividade é completamente nova para a maioria dos jovens. «Se calhar a generalidade não se sente muito à vontade no trabalho mais teórico, de discussão, mas todos têm muito gosto em trabalhar na JCP e sentem orgulho em andar com a nossa bandeira», declara Valter.
«O que há para fazer faz-se. Sentimos que estamos a fazer algo útil», diz Vanessa. Um dos seus objectivos é mostrar, «com o nosso trabalho, o que de facto somos capazes e aquilo que podemos fazer de útil». Valter acrescenta: «Existe uma imagem muito má dos mais novos na Azinhaga, mas estamos a ultrapassar isso, a provar que os jovens são interessados.»
Nos últimos meses, o colectivo já organizou um almoço da Juventude CDU, promoveu iniciativas de recolha de fundos, inaugurou uma exposição de fotografia e representou o «Enterro do Bacalhau», uma tradição local ligada ao Carnaval transformada em «enterro das políticas de direita». Agora é a vez do rio Almonda. Outras iniciativas estão a ser preparadas. «Temo-nos mantido entretidos», comenta Valter.
Com tanta actividade e intervenção, muito provavelmente Azinhaga vai mudar. As pessoas estão mais esclarecidas, mais interventivas e os resultados acabarão por surgir. «Há muitos membros do PCP mas não participam activamente. Na minha opinião, eles olham para nós, vêem-nos activos e têm vergonha de não fazer nada. Alguns vêm ter connosco dizer que também são comunistas. Mas também há pessoas muito reaccionárias, mesmo malta nova, mas não causam impacto porque o que dizem não é coerente», refere Valter.
A CDU aumentou cerca de 60 votos na freguesia nas eleições legislativas de Fevereiro. Os militantes da JCP não podem deixar de se sentir em parte responsáveis por esse resultado. «Trabalhar, trabalhamos. Tratámos da propaganda do concelho, fizemos distribuições...», recorda Valter. Nas próximas eleições autárquicas, os jovens militantes querem recuperar a presidência da Junta de Freguesia, actualmente do PS. «Vamos fazer o máximo», garante Vanessa.

Desemprego, o grande problema da Azinhaga<

A falta de emprego é o principal problema da população da Aziganha, em particular dos jovens. «Não há trabalho, não há uma fábrica, não há hipótese da terra crescer porque fica no meio da lezíria e quando o rio sobe ficamos isolados», refere Valter Ferreira.
Quase todos os habitantes trabalham fora da aldeia em fábricas, serviços e na construção civil. Esta é, aliás, uma das áreas que emprega mais jovens. A maioria das pessoas trabalha fora do concelho, porque a própria zona industrial da Golegã emprega apenas 300 pessoas.
Também os estudantes têm de abandonar a sua terra durante o dia. Depois do primeiro ciclo, todos estudam fora, na Golegã ou em Torres Novas. Na Golegã a escola é pequena, dispondo de aulas desde o 1.º ao 12.º ano. A oferta de cursos no secundário é reduzida e muitos são os alunos que são obrigados a ir para Torres Novas.
Se o transporte entre Azinhaga e a Golegã é garantido pela Câmara Municipal, os cerca de 20 quilómetros que separam a aldeia de Torres Novas são ligados pelos autocarros da Rodoviária Tejo apenas três vezes por dia. Os alunos da Azinhaga têm um autocarro de ida às 6h45 e dois para regressar, às 13h30 e às 18h30. Seja quais forem os seus horários na escola, têm de apanhar estes transportes se não querem ficar em casa.
Vanessa Figueiredo frequenta a Escola Profissional de Torres Novas, juntamente com mais 10 colegas da Azinhaga. «A minha semana é a correr», comenta, lembrando que outros seus conterrâneos andam nas duas escolas secundárias da cidade.


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