Privatizações no Leste europeu

Um filão do Ocidente

Os grupos ocidentais foram os grandes beneficiados com a vaga de privatizações que se seguiu à derrota do socialismo no Leste europeu no início da década de 90.

Sec­tores in­teiros das eco­no­mias de Leste estão hoje nas mãos do grupos oci­den­tais

Quinze anos depois, o processo de venda a baixos preços de importantes empresas públicas ainda não está terminado. Na passada semana, dia 31, a Bolsa de Praga anunciava a «vitória» do grupo espanhol de telecomunicações Te­le­fo­nica na corrida à compra de 51,1 por cento do capital da Cesky Te­lecom, que eram ainda controlados pelo Estado checo.
Esta decisão, tomada pela comissão checa das privatizações (FNM) e que deverá ser confirmada pelo governo do país, deixa nas mãos do operador espanhol não só 80 por cento da rede fixa mas também 44 por cento do mercado de comunicações móveis dominado pela Eu­rotel, empresa detida a 100 por cento pela Cesky Te­lecom.
A oferta da grupo espanhol (2,74 mil milhões de euros) superou largamente os concorrentes Swis­scom (2,63 mil milhões de euros) e Bel­gacom (2,24 mil milhões), enquanto que o consórcio liderado pelo gigante francês France Te­lecom foi afastado pela comissão checa das privatizações (FNM), que considerou inaceitável a sua pretensão de alterar o valor da oferta final em função do preço das acções definido para os pequenos investidores.

O fim de uma era

A venda da Cesky Te­lecom foi uma das últimas grandes operações de privatização organizadas pela FNM. Ao fim de 14 anos de «intensa» actividade, esta comissão, que supervisionou a venda de 16 500 empresas por um total de 32 mil milhões de euros, esgotou praticamente o seu campo de acção. Por isso, no dia em que foi anunciada a venda do grupo estatal de telecomunicações, o parlamento checo aprovou a dissolução da FNM até ao final do ano, tempo suficiente para proceder à venda da participação do Estado no complexo siderúrgico de Vitkovice.
Neste como noutros aspectos, o caso da República Checa é semelhante ao que se passa na generalidade dos países da Europa central e oriental que integravam o bloco socialista.
Grupos alemães, franceses, austríacos e outros aproveitaram a vertigem liberal dos governos recém-chegados ao poder para adquirir a preços baixos sectores inteiros das suas economias. Atraídos por uma mão-de-obra barata mas altamente qualificada, generosas isenções fiscais e todo o tipo de facilidades, os grupos ocidentais (sobretudo de países europeus vizinhos) instalaram-se em praticamente todas as actividades.
Nas telecomunicações, o alemão Deutsche Te­lekom começou por dominar as redes fixas, o que lhe permitiu depois comprar as licenças das comunicações móveis. No sector automóvel, uma após outra, as marcas de leste foram adquiridas pelos grandes construtores europeus. É o caso da checa Skoda, hoje integrada no grupo Volkswagen, ou da romena Dacia, em cujas instalações a francesa Re­nault, beneficiando do baixo custo da mão-de-obra, está a construir o recente modelo Logan que será colocado no mercado com um preço reduzido.
Todavia é no sector financeiro que o assalto ocidental foi mais espectacular. Um estudo do Deutsche Bank afirma que «os grupos europeus-ocidentais controlam cerca de 95 por cento dos activos bancários destes países» (Le Monde, 08.03).

A prata da casa

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED), cerca de 40 por cento dos investimentos directos estrangeiros nesta região foram aplicados no processo de privatizações desde o início dos anos 90 (Le Monde, 08.03).
Na Polónia, por exemplo, as privatizações realizadas em 2004 representaram mais de metade do total do investimento estrangeiro, atingindo 2,4 mil milhões de euros. Ao ritmo de uma privatização por mês, programa que começou a aplicado no ano passado, o governo social-democrata polaco deverá em breve esgotar a galinha dos ovos de ouro do sector público, onde se contam ainda cerca de 1700 empresas.
No mesmo ano, a Roménia «atraiu» do exterior cerca de 3,7 mil milhões de euros, dos quais mil milhões resultantes da venda da petrolífera Pe­trom ao grupo austríaco OMV. A distribuidora de gás, Dis­trigaz Norte, foi vendida ao grupo alemão, Ruhrgas, enquanto que 30 por cento da Dis­trigaz Sul couberam à Gaz de France.
Bucareste pretende agora «leiloar» o primeiro banco do país, BCR (Banco Comercial da Roménia), bem como os 20 por cento que lhe restam no operador de telecomunicações Rom­te­lecom, já controlado maioritariamente pelo grego OTE. Estão igualmente na calha da privatização dos correios, bem como a concessão da construção de auto-estradas.
Em contrapartida, a República Checa e a Eslováquia, que desbarataram mais rapidamente o sector do Estado, sofreram em 2003 uma queda abrupta no investimento estrangeiro nas suas economias.
Esta é também a situação na Hungria, onde o essencial das privatizações foi concluído em 1998. As telecomunicações móveis são controladas pela Deustche Te­lekom, pela empresa norueguesa Te­lenor e pela Vo­da­fone; a distribuição de electricidade pertence aos grupos alemães E.ON e RWE e ao francês EDF.
Na passada semana, o governo húngaro viu fracassar a segunda tentativa de privatização da Companhia Aérea Malev, que não encontrou um comprador interessado em assumir as volumosas dívidas da empresa.
Nos países bálticos, a situação da Lituânia e da Estónia, onde da electricidade à água já pouco resta das empresas públicas, contrasta com a opção da Letónia, cujo governo não prevê privatizar nenhuma das 1300 unidades que continuam na posse do Estado e dos municípios. Mas as pressões aumentam sobretudo em relação ao grupo eléctrico Lat­ve­nergo e à empresa de caminhos de ferro, Lat­vijas Dzel­zels, sujeita a uma «reestruturação» que passa pela constituição de três empresas independentes para o serviço de passageiros, frete e infra-estruturas.


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