Vozes contra Abril

Francisco Silva
– vozes antidemocráticas (também ditas tecnocráticas)
Também o poder local democrático, nunca eles o engoliram. Como em relação à Educação e à Saúde e às pensões de reforma (num programa debate da TV francesa sobre os «seniores», a sua longevidade, a sua vontade de viver - não consigo evitar o desvio textual -, um participante jovem, jornalista, inquirido para uma declaração final sobre esta matéria, declarou-se aterrado pela grave perspectiva de ter[em os jovens] de sustentar os pensionistas… o efeito de preparação para aceitar a «sugerida» pauperização abrupta deste sector a funcionar às mil maravilhas!) , também agora contra os orçamentos, os custos, das autarquias, marchar, marchar. Todos os sacos são bons para ir sacar-lhes os tostões que estejam a ser gastos ao serviço do Povo. Pois é. Assistimos a um ataque generalizado à pala das crises e das desgraças sem fim!

E é de irritar mesmo a hipocrisia com que esta onda de neo-centralizadores assanhados se assumem! Neo-liberais extremes, à moda, a queixarem-se do Poder Local, estão a ver? Uma fatia do Orçamento que o «Poder Central da Sociedade Civil (incluindo acólitos seus activos nas esferas dos jornalistas/economistas)» ainda não controla como quereria. Uma luta, a destes, dita contra os caciques, usando o velho método de argumentar com o deitar fora da água suja, e como ela está suja não deixa sequer suspeitar que está um bebé lá dentro.
E já não lhes chegam as tentativas até ao presente frustradas e adiadas de um maior controlo sobre executivos – câmaras – municipais partidariamente homogeneizados. Uma outra linha de ataque é materializada a propósito de uma proclamada irracionalidade económica da concreta divisão administrativa. È certo poder-se argumentar que existem freguesias e municípios tão pequenos – sobretudo no sentido de incluírem populações diminutas, mas que, por vezes, sobretudo para Sul do Tejo, correspondem a territórios bem extensos –, tão pequenos, que não há economias de escala que os valham.

Mas então caríssimos «técnicos», ou antes tecnocratas, quereis emendar, delimitar a compasso – já não direi delimitar desde o Terreiro do Paço, como se dizia, mas desde empresas de consultores pagas a peso de oiro, para ser feito à moderníssima moda –, sem mais, as comunidades cuja história e vicissitudes de trajectória datam de antanho? Não sabeis quanto custam em termos económicos - de custos, porque para esta malta tudo é um custo, isto é, dinheiro que não pode entrar para os bolsos dos possidentes - asneiras políticas de tal calibre? Não haveis percebido que, aberta a caixa de pandora, os vossos «teóricos» sonhos ficarão sem cumprimento e se agigantarão ainda mais os problemas? Sim, porque reestruturações da divisão administrativa local só com o apoio das respectivas populações.
E se fizerem mais ou menos bem as contas, quantos tostões poupariam, se poupassem, nessa desgastante operação? Uma mexeruquice, se tanto, como não poderá deixar de ser o resultado do pensar de tão estreitas mentes!
Que se paga tanto a dezenas de milhares de autarcas – eu prefiro chamar-lhes eleitos do poder local – por toda essa municipalidade e freguesiada abaixo. Será? Não sabem que grande parte dos eleitos recebe quase nada, que exercem a sua função no tal regime de voluntariado que vocês tanto dizem prezar? Que dizem prezar, mas só quando lhes faz jeito.
Que há demasiados trabalhadores subempregados nas autarquias, também gostam de dizer. Que se encapota aí o desemprego – e daí, os que escrevem, e isto dizem, estão desempregados, passam fome? Que o emprego é para os amigos. E no poder central o que acontece, não é de uma dimensão muito pior ainda e sem controlo das populações locais? E em muitas empresas o que acontece? Ai, mas aqui o dinheiro é deles e com ele fazem o que muito bem entenderem, quantas vezes não se houve este belo argumento? - como se esse dinheiro não resultasse das mais valias criadas pelos trabalhadores, deles sacadas. Mas adiante, já me estou outra vez a desviar do caminho!

Isto sem se entrar pelo facto que o Poder Local, com os seus meios, tem feito muita coisa que ao Poder Central competia. Muita coisa, sobretudo da que toca de perto às populações: por exemplo – e para referir-me ao que testemunhei –, desde instalações gimnodesportivas para escolas, além do Primário até «pequenas» obras em Centros de Saúde a cair aos bocados. E fá-lo, de um modo geral, a custos «competitivos», se quereis saber senhores tecnocratas.
Deixai o Poder Local em Paz e a Produzir!


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